Estudo do InCor-HCFMUSP alerta: alto consumo de sódio está associado a alterações no coração

FONTE: Incor

Pesquisa apresentada no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) reforça a importância da prevenção das doenças cardiovasculares, tema do Setembro Vermelho do InCor.

Blog do Eloilton Cajuhy – BEC

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📷 Reprodução / Blog A Crítica

Um estudo conduzido pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor-HCFMUSP) mostra que pessoas com hipertensão de difícil controle e maior consumo de sódio apresentam mais alterações metabólicas e sinais de remodelamento do coração, mesmo quando os níveis de pressão arterial são semelhantes aos de pacientes que consomem menos sódio. A pesquisa foi apresentada no último Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC Congress).

Realizado com 453 pacientes acompanhados por cerca de seis anos, o estudo chama a atenção para um aspecto que vai além da conhecida relação entre excesso de sal e aumento da pressão arterial: o consumo elevado de sódio também pode estar associado a alterações metabólicas e estruturais no coração.

A pesquisa foi conduzida pelo Prof. Dr. Luiz Aparecido Bortolotto, diretor da Unidade de Hipertensão Arterial do InCor, e avaliou pacientes classificados como portadores de hipertensão aparentemente resistente ao tratamento. O termo é utilizado para pessoas cuja pressão arterial permanece difícil de controlar mesmo com o uso de medicamentos. Nem todos esses casos, entretanto, correspondem à chamada hipertensão resistente verdadeira, que exige uma avaliação médica mais detalhada.

“Quando falamos em hipertensão de difícil controle, é importante olhar para o paciente de forma ampla e não apenas para o número da pressão arterial. O consumo de sódio é um dos fatores que precisam ser considerados porque seus efeitos podem ultrapassar o aumento da pressão e estar relacionados a alterações metabólicas e ao comprometimento da estrutura do coração. Nosso estudo reforça a importância de identificar e modificar fatores de risco que podem ser prevenidos”, afirma o Prof. Dr. Luiz Aparecido Bortolotto.

Os pesquisadores estimaram o consumo diário de sódio a partir da quantidade eliminada na urina durante 24 horas. A média encontrada foi de 10,7 gramas de sódio por dia, enquanto apenas 19,2% dos participantes apresentavam consumo inferior a 5 gramas diários.

Entre os pacientes que consumiam mais de 13,5 gramas de sódio por dia, os pesquisadores observaram maior peso, maior índice de massa corporal (IMC), níveis mais elevados de triglicerídeos e sinais de aumento do tamanho do coração, especialmente do ventrículo esquerdo, uma das principais partes responsáveis por bombear o sangue para o corpo.

Um dos resultados mais relevantes foi que essas associações apareceram mesmo sem diferenças significativas na pressão arterial ou no número de medicamentos anti-hipertensivos utilizados pelos pacientes.

Em outras palavras, mesmo com a pressão arterial sob controle, o consumo elevado de sódio pode estar associado a alterações no organismo e no coração, aumentando o risco de problemas cardiovasculares.

“O resultado é particularmente importante porque mostra que o impacto do sódio não deve ser analisado apenas pela sua capacidade de elevar a pressão arterial. Encontramos uma associação entre maior ingestão de sódio e características relacionadas ao risco cardiometabólico e ao remodelamento cardíaco. Isso amplia nossa compreensão sobre os fatores que podem contribuir para o risco cardiovascular desses pacientes”, explica Bortolotto.

Os resultados do estudo ganham relevância no contexto do Setembro Vermelho, principal iniciativa do InCor dedicada à prevenção das doenças cardiovasculares. Em 2026, a campanha tem como conceito “Feito de pessoas para pessoas”, destacando que a prevenção passa por escolhas, hábitos e cuidados que fazem parte da vida cotidiana.

Para o Prof. Dr. Roberto Kalil Filho, presidente do Conselho Diretor do InCor, a pesquisa reforça a importância de aproximar a ciência da população e transformar conhecimento médico em atitudes de prevenção.

“Prevenir doenças cardiovasculares é, antes de tudo, cuidar de pessoas. A ciência nos mostra cada vez mais que fatores presentes no nosso cotidiano, como a alimentação, o sedentarismo, o tabagismo e o controle da pressão arterial, podem fazer diferença ao longo da vida. O papel do InCor é levar esse conhecimento para além do hospital e ajudar cada pessoa a compreender que a prevenção começa antes que a doença apareça”, afirma Kalil.

O presidente do Conselho destaca ainda que o conceito da campanha deste ano traduz a própria missão do Instituto: colocar as pessoas no centro do cuidado. “Feito de pessoas para pessoas” traduz o que acreditamos ser essencial na saúde: conhecimento, tecnologia e inovação só fazem sentido quando estão a serviço das pessoas. O Setembro Vermelho é uma oportunidade para reforçarmos essa mensagem e estimularmos atitudes simples, mas importantes, como medir a pressão, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física, não fumar e realizar acompanhamento médico”, acrescenta.

  • 453 pacientes com hipertensão aparentemente resistente foram avaliados;
  • A ingestão média estimada de sódio foi de 10,7 gramas por dia;
  • Apenas 19,2% dos participantes consumiam menos de 5 gramas de sódio por dia;
  • Maior consumo esteve associado a maior peso, IMC e níveis de triglicerídeos;
  • Também foi observado maior diâmetro do ventrículo esquerdo, indicando remodelamento cardíaco;
  • As associações foram observadas mesmo com níveis semelhantes de pressão arterial e uso de medicamentos;
  • Os resultados sugerem que o consumo de sódio pode estar relacionado não apenas ao controle da pressão, mas também ao risco cardiometabólico e a alterações estruturais do coração.

Como o estudo analisou dados já existentes, os resultados mostram uma associação, mas não permitem afirmar que o consumo elevado de sódio seja a causa direta das alterações encontradas. Ainda assim, os achados reforçam a importância de reduzir fatores de risco para doenças cardiovasculares.

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