Pica-pau em extinção tem ninho clicado pela 1ª vez na Bahia

Ameaçada de extinção, a ave foi registrada na Bahia e é uma das espécies de pica-pau menos conhecidas do Brasil
Registro raro: casal de pica-pau-dourado foi flagrado no ninho — Foto: Jailson Souza/VC no TG

A poucos dias de terminar o ano, o fotógrafo de natureza Jailson Souza garante: 2018 foi cheio de conquistas no quesito passarinhada.

Após registrar o ninho de harpia em meados de abril, o guia terminou a temporada de observação com “chave de ouro” ao flagrar o pica-pau-dourado-grande, um dos pica-paus mais ameaçados de extinção do Brasil.

“2018 foi um ano de muitas conquistas, primeiro pelo encontro com o ninho da harpia e agora com o ninho do pica-pau”, conta Jailson, que destaca também o registro do crejoá, uma das aves mais belas do Brasil, que está ameaçada de extinção.

Além da raridade em encontrar o pica-pau-dourado, Jailson fez os primeiros registros do ninho da espécie, até então nunca fotografado. O flagrante foi feito na Reserva Particular do Patrimônio Natural Estação Veracel (BA) junto com Priscilla Sales Gomes, analista ambiental da Reserva.

A bióloga conta que o casal de pica-paus se apropriou de um cupinzeiro e que, provavelmente, já está com os ovos no ninho. “Até então não tínhamos informações sobre a espécie, comportamento e hábitos. Os registros vão abrir portas para novas descobertas”, diz Priscilla que, junto à equipe de pesquisadores, monitora o ninho diariamente.

DESCOBERTAS

O ornitólogo Luciano Lima chama atenção para a escolha de cupinzeiros ou formigueiros como base para o ninho. “É interessante porque, mesmo sendo um pica-pau que habita área de floresta, ou seja, que tem muita madeira disponível, a espécie continua fazendo ninho em cavidades como essa. É uma característica muito interessante que difere dos ninhos escavados em tronco”, diz o ornitólogo, que encontra no registro um indício da origem da ave.

“O Piculus chrysochloros, outra espécie do mesmo grupo, é um pica-pau comum da Caatinga, onde não tem muitas árvores grossas. Então, talvez, essa forma de fazer o ninho seja um hábito que tenha surgido há muito tempo, nesses ambientes mais secos”, explica.

O registro do ninho é extremamente interessante uma vez que a espécie é muito ameaçada, dependente de áreas super preservadas de Mata Atlântica de baixada. Um bicho muito exclusivo, um dos pica-paus mais ameaçados do Brasil, o que faz dessa uma baita descoberta — diz Luciano Lima.

Macho de pica-pau-dourado foi registrado no ninho — Foto: Jailson Souza/VC no TG

AVE RARA

Exclusivo do Brasil, o pica-pau-dourado-grande (Piculus polyzonus) ocorre na Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, onde é considerado Possivelmente Extinto.

Pesquisas indicam a existência de menos de 2.500 indivíduos maduros da espécie, sendo que cada população contém menos de 250 deles. O baixo índice é resultado da perda de habitat e da fragmentação das populações, situações que geram declínio populacional.

Endêmico da Mata Atlântica, o pica-pau-dourado-grande fica restrito à florestas bem conservadas, sem se deslocar em áreas abertas.

Macho de pica-pau-dourado foi registrado no ninho — Foto: Jailson Souza/VC no TG

EM BUSCA DA CONSERVAÇÃO

Observador de aves há 17 anos, Jailson Souza faz passarinhadas em Porto Seguro, na Bahia, onde mora. “Gosto de observar todas as espécies. Quando estou na floresta me sinto muito feliz”, completa.

A favor da conservação, o guia compartilha as observações e os registros nas redes sociais. “Todo o meu trabalho aqui na Mata Atlântica é voltado para a conservação. Esse trabalho de observar aves, de registrar as espécies e postar as fotos nas redes sociais, pra mim tudo isso incentiva a conservação da natureza”, diz.

As pessoas só protegem quando veem o que tem naquele ambiente, então eu tento passar para as pessoas o que a Mata Atlântica tem de bonito, de exuberante! fala — Jailson Souza

Por Giulia Bucheroni, Terra da Gente

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