GENTE QUE FAZ HISTÓRIA: Hoje é aniversário de Galvão Bueno

Desde 1981 na Globo, Galvão Bueno é um dos maiores narradores esportistas da televisão brasileira. O jornalista também é conhecido por seus bordões como “vai que é sua, Taffarel”.

GB 1“É tetra, acabou! É tetra, é tetra! Acabou!”

Nem é preciso perguntar de quem é essa frase, porque todo brasileiro sabe não apenas quem é o seu autor, como faz questão de guardar na memória o contexto da situação. Foi o jornalista Galvão Bueno, um dos maiores narradores de transmissões esportivas da televisão brasileira, ao se abraçar a Pelé, ao término da final da Copa do Mundo de 1994, quando a seleção brasileira conquistou seu quarto título mundial.

A cena é emblemática. Alguém que não conhecesse o narrador diria que ali ele teria esquecido de suas prerrogativas profissionais, para se mostrar também e tão somente um apaixonado torcedor. Mas Galvão Bueno é exatamente isso: paixão e conhecimento, envolvimento e técnica, opinião própria e o dever da imparcialidade, o óbvio e a surpresa, enfim, como todo brasileiro, é técnico e torcedor. Exatamente por isso, é hoje o narrador brasileiro mais admirado, às vezes criticado também, mas, sobretudo, um dos mais respeitados profissionais, capaz de narrar e comentar esportes tão distintos como futebol, basquete, automobilismo, atletismo, vôlei e, sua mais nova paixão, o MMA (Mixed Martial Arts, “Artes Marciais Mistas”).

E qual é o segredo desse sucesso, dessa capacidade de mexer com a paixão do torcedor? Galvão acredita que fugir de um estilo amarrado em regras é a sua marca, sua identidade. “Eu participei de tantas mudanças no formato da narração. No começo, quando cheguei à Globo, tinha quase que uma cartilha: não podia dizer que era córner, era tiro de canto, era escanteio; o narrador não dizia boa-tarde para o repórter… Tudo isso foi sendo quebrado aos poucos. E eu acho que participei disso. A primeira pessoa que ancorou um bloco inteiro de jornal sem teleprompter fui eu, nas Olimpíadas de 1996”, conta.

Neste ano (1996), Galvão fez parte da mudança conceitual na apresentação do Jornal Nacional. A ideia foi promover jornalistas envolvidos com a produção de conteúdo  para a bancada do telejornal.  Logo em um de seus primeiros editoriais, Galvão falou sobre o desempenho de Rubens Barrichello no GP do Brasil.

Carlos Eduardo dos Santos Galvão nasceu em 21 de julho de 1950, na Tijuca, Rio de Janeiro. Para quem não liga a data ao fato, exatamente seis dias após a perda da Copa do Mundo para o Uruguai, em pleno Maracanã. A chegada do filho foi um consolo para Aldo Viana Galvão Bueno e Mildred Santos Galvão Bueno, seus pais. A veia artística, a intimidade com a comunicação e as câmeras, Galvão teve a quem puxar: Aldo chegou a atuar como narrador esportivo de rádio, mas se destacou como escritor, roteirista e diretor de programas. Galvão gosta de dizer que ele foi “um dos pioneiros da televisão brasileira”. Sua mãe era atriz, trabalhou na Rádio Mayrink Veiga e na Rádio Tupi, e também atuou na televisão. Como ao pai, Galvão faz questão de classificar a mãe como “pioneira”. Faz sentido, está no DNA da família.

Carlos Eduardo talvez sonhasse com números, e os queria em seu futuro, daí a decisão de cursar administração e, depois, economia. Mas apaixonado por esportes desde pequeno, se realizou mesmo foi na faculdade de Educação Física, a única que realmente cursou. “A minha vida sempre foi esporte. Sempre pratiquei esporte desde garoto, desde pequenininho. Eu só pensava nisso. A base foi o basquete, ao qual me dediquei, e cheguei a ser semiprofissional. Mas eu jogava futebol, vôlei, handebol, atletismo, natação, hipismo. Fiz tudo”, relembra.

O (pouco) dinheiro que ganhava com o basquete era suficiente para pagar as custas da faculdade e a gasolina do carro. Também trabalhava como gerente de vendas, em uma empresa de embalagens plásticas, de onde saiu para montar uma firma com a mesma atividade. E foi absolutamente por acaso que começou sua carreira profissional na área de esportes. Ele era fanático por um programa esportivo da Rádio Gazeta chamado Disparada no Esporte, que promoveu um concurso no comecinho de 1974 para contratar um narrador que entendesse de variados esportes. Galvão não se inscreveu, mas seu sócio o fez por ele – e é aí que Carlos Eduardo começa a se transformar em Galvão Bueno, hoje um ícone da TV brasileira. Aprovado no concurso, ganhou um novo emprego e, mais do que isso, uma paixão para a vida toda. “Eu fui, ganhei o concurso e uma vida nova. Me apaixonei pelo trabalho. No dia seguinte, estava trabalhando. E já se vão 38 anos”, ri.

GB 2A história de Galvão Bueno se confunde com a da transmissão de esportes da Globo. É como se ele tivesse feito uma espécie de estágio em outras emissoras, pois foi na Globo que construiu sua carreira, onde se aperfeiçoou e criou um estilo próprio, revolucionando a narração dos jogos transmitidos pela televisão. Ele começou em 1974, na Rádio Gazeta e, depois, na TV Gazeta, onde ficou até 1977. Trabalhou por apenas dois meses na TV Record, mais quatro anos na TV Bandeirantes e, em 1981, enfim aportou na TV Globo. Não que sua experiência anterior à Globo fosse dispensável, muito pelo contrário. Em 1978, por exemplo, participou das transmissões dos jogos da Copa do Mundo da Argentina, pela TV Record, como comentarista. Foi para a Rádio Bandeirantes, mas acabou mesmo como narrador da recém-criada TV do mesmo grupo. Mais uma vez, nada planejado.

“Resolveram que eu seria narrador de televisão, estava começando a rede. Eu fiz alguns jogos em circuito fechado. A direção da Bandeirantes achou ótimo. Eu achei um horror. E comecei a ser narrador. Fiquei lá três anos e pouco com essa função, quando começou o namoro com a Globo. Eu vim para cá em 1981. O que eu queria na vida era vir para a Globo”, admite.

Sua carreira na Globo foi sedimentada pelo estilo vibrante e inquieto, que ganhou o torcedor e foi quebrando paradigmas, aos poucos. Galvão Bueno deve ter dado muita dor de cabeça para seus superiores – mais alegrias, também. “O esporte era completamente diferente do que é hoje, assim como o esporte em televisão era completamente diferente do que é atualmente. Hoje nós temos uma carga de transmissão, uma presença na grade muito marcante. A qualidade da transmissão, os equipamentos mudaram muito. Fazia-se futebol com três, quatro câmeras. Hoje, não. Você tem todos os detalhes. Atualmente, não existe mais nada que aconteça em um jogo de futebol, em um jogo de vôlei, em um jogo de basquete que o telespectador não veja”, compara.

Galvão Bueno conquistou um respeito cada vez maior ao transmitir, com a mesma qualidade e envolvimento, partidas de futebol e corridas de Fórmula 1. Não há gols ou ultrapassagens que não ganhem com tamanho entusiasmo. “Tem que arrepiar”, acredita, exatamente como ele se sente arrepiado. Se perguntado sobre o que gosta mais de narrar, futebol ou corrida de Fórmula 1, a resposta é desconcertante: “Todo mundo pergunta. Eu respondo: ‘basquete’. Mas, na realidade, a minha carreira foi feita em cima do futebol e da Fórmula 1, em cima da seleção e da Fórmula 1. É evidente que não há nada igual a uma Copa do Mundo. Não há evento no mundo que seja mais importante para um brasileiro e, consequentemente, para quem trabalha nisso. Mas a Fórmula 1 é cativante, porque é muito mais difícil de transmitir”.

Das narrações que já fez de automobilismo, Galvão Bueno destaca a conquista dos dois títulos de Nelson Piquet, em 1983 e 1987, e os três campeonatos de Ayrton Senna, em 1988, 1990 e 1991. Amigo pessoal de Senna, não gosta nem de lembrar da morte do piloto no Grande Prêmio de Ímola, em 1º de maio de 1994.

No futebol, considera um privilégio acompanhar de perto os títulos da seleção canarinho. Participou, como profissional, da cobertura de todas as Copas a partir de 1982 e narrou todas as finais desde 1990 até o Mundial do Brasil, em 2014. Na Copa da França, em 1998, Galvão coordenou o debate esportivo Bate-Bola, um quadro do Esporte Espetacular com comentários sobre os jogos do torneio.

Na Copa do Mundo seguinte, em 2002, o Bate-Bola passou a ser um programa independente, exibido logo após os jogos da seleção. Além do programa, Galvão Bueno, Pedro Bial e Fátima Bernardesapresentaram o Brasil na Copa, exibido nas noites de domingo.

Mas um fato realmente marcante não aconteceu em um estádio de futebol ou em uma pista de automobilismo. Trata-se da cobertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1984. “Foi a primeira vez que se transmitiu uma cerimônia de abertura inteira. A narração foi minha e de Osmar Santos. Foram quatro horas e meia, eu falando para o Brasil, e o Boni falando no meu ouvido, mas fantástico como sempre, um gênio da televisão. Ele já realçava: ‘Diz: a maior audiência da história da televisão’. Naquele momento, o que se imaginava, quantas centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro estariam vendo. Essas coisas ficam na cabeça da gente”, emociona-se.

Sobre a transmissão mais importante que já fez, o narrador lembra em detalhes o final da maratona feminina da Olimpíada de 1984, quando a suíça Gabriele Andersen, extenuada, conseguiu completar a prova em 37º lugar, e foi ovacionada pelo público. Ele narrou ao vivo a emocionante volta final da corredora no Coliseu de Los Angeles.

Experiente, dono de uma credibilidade inquestionável, amigo de vários expoentes do esporte nacional, Galvão Bueno apresentou o programa Espaço Aberto, na Globo News, de 1999 a 2001. Em 2003, estreou o Bem, Amigos!, no canal SporTV. A menina dos olhos da vez, aponta, é o MMA (em português, Artes Marciais Mistas), esporte que acredita ser a bem próxima nova paixão do brasileiro.

Galvão Bueno é conhecido, ainda, por seus bordões. Do longínquo “vai que é sua, Taffarel”, ao cantado “Ronaldinhooo”, terminando naquele que é seu cartão de visitas, “bem, amigos!”. “Eu nunca me preocupei em criar nenhum bordão. Algumas coisas pegam, ficam, mas vêm meio que sem querer. Como a história do ‘Bem, amigos da Rede Globo’. Um dia eu fui abrir uma transmissão e me deu um branco. Eu não sabia se diria ‘boa tarde’, ‘boa noite’, o que falava – porque se estou de noite em algum lugar, pode ser de tarde no Brasil. Então, falei: ‘Bem, amigos da Rede Globo…’ E ficou. Caiu no gosto popular”.

GB 3Em março de 2009, o jornalista estreou o quadro Na Estrada com Galvão, do Esporte Espetacular, em que o narrador entrevistou grandes nomes do futebol. Uma conversa com Kaká, no centro de treinamento do Milan, na Itália, marcou a estreia do programa.

Cobrindo Copas desde 1982, Galvão narrou, em 2014, a abertura da Copa do Mundo no Brasil. Durante o torneio, além da transmissão de todos os jogos da seleção no Mundial, Galvão Bueno ancorou edições especiais do Jornal Nacional ao lado de Patrícia Poeta, diretamente dos estádios onde a seleção estava jogando.

“Eu tenho noção da minha responsabilidade. Vejo, quando chego a uma cidade do interior, no Nordeste, no Norte, no jogo do Brasil, a loucura que é. Ao mesmo tempo, ser xingado por 60 mil pessoas no estádio quando a torcida está com raiva de você, ou ser ovacionado por 70, 80 mil pessoas em outro estádio, é uma coisa louca. Isso não passava na minha cabeça. Até porque não tinha acontecido com ninguém na minha profissão. Aumenta a responsabilidade e aumenta, claro, a autoestima. Assusta um pouco. Hoje, eu me policio um pouco mais do que me policiava antes. A idade traz isso: um pouco mais de sabedoria. A gente mexe demais com os sentimentos das pessoas. Meu acelerador é mais forte que o freio. Mas eu sou realizado. Feliz, feliz, feliz demais com esses anos todos”, finaliza.

[*Depoimento concedido ao Memória Globo por Galvão Bueno em 17/04/2007.]

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