Papa enfatiza: guerra voltou a estar na moda, mas paz continua possível

Em encontro com o Corpo Diplomático, Leão XIV critica a diplomacia da força e reforça a urgência do diálogo entre as nações

Por Canção Nova e Vatican News

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Papa Leão XIV durante audiência com o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé – Foto: IMAGO/Catholicpressphoto via Reuters

O Papa Leão XIV recebeu, nesta sexta-feira (9) o Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé para uma das audiências mais significativas do ano. Tradicionalmente, o encontro é marcado por uma análise da conjuntura internacional e dos principais acontecimentos recentes.

Diante de representantes de 184 países e organizações internacionais, o Pontífice recordou o Jubileu recém-concluído e a morte de seu predecessor, o Papa Francisco. “No dia do funeral, o mundo inteiro se reuniu em torno do seu caixão, sentindo a perda de um pai que guiou o Povo de Deus com profunda caridade pastoral”, afirmou. Também mencionou a viagem apostólica à Turquia e ao Líbano, agradecendo às autoridades de ambos os países pela acolhida.

Ao refletir sobre o atual cenário internacional, marcado por tensões crescentes, Leão XIV evocou a obra De Civitate Dei, de Santo Agostinho, destacando os riscos do nacionalismo excessivo, da distorção da história e da perda do verdadeiro ideal do estadista. Segundo o Papa, temas como os fluxos migratórios e a reorganização dos equilíbrios geopolíticos permanecem alarmantemente atuais.

“Neste nosso tempo, preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados. A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias”, advertiu.

O Papa observou que, hoje, a paz é buscada não como dom de Deus, mas por meio das armas, comprometendo gravemente o Estado de direito. Recordou que a Organização das Nações Unidas, criada há 80 anos, tem como fundamento a cooperação multilateral para a defesa da paz e dos direitos humanos fundamentais.

No âmbito do direito internacional humanitário, reafirmou que este deve prevalecer sobre os interesses dos beligerantes: “A Santa Sé reitera com firmeza a sua condenação de qualquer forma de envolvimento de civis em operações militares”.

Sobre a liberdade de expressão, defendeu o diálogo, mas alertou para o uso da linguagem como instrumento de agressão, tanto na política quanto nas redes sociais. Manifestou ainda preocupação com uma nova linguagem que, ao tentar ser excessivamente inclusiva, “acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”.

Audiência do Papa Leão XIV com o Corpo Diplomático no Vaticano – Foto: IMAGO/Catholicpressphoto via Reuters

Leão XIV abordou a liberdade de consciência e a liberdade religiosa, pedindo “total respeito” ao culto cristão e a todas as comunidades religiosas, além de condenar novamente o antissemitismo. Comentou a crescente perseguição aos cristãos — que atinge mais de 380 milhões de fiéis no mundo — citando países como Bangladesh, Nigéria, Síria e Moçambique. Observou ainda formas sutis de discriminação na Europa e nas Américas, sobretudo quando se defende a dignidade dos mais vulneráveis.

Nesse contexto, mencionou os migrantes, pedindo ações firmes contra o tráfico humano, e os detentos, reiterando o apelo pela abolição da pena de morte.

O Papa reafirmou a centralidade da família e do matrimônio como união exclusiva e indissolúvel entre homem e mulher. Condenou o chamado “direito ao aborto seguro” e a gravidez de substituição, alertando para a transformação da gestação em serviço comercial. Estendeu a reflexão aos doentes, idosos, pessoas solitárias e aos jovens, especialmente vulneráveis à dependência química.

Prosseguindo, Leão XIV advertiu que, sem um fundamento transcendente e objetivo, “prevalece apenas o amor a si mesmo”, o que obscurece a empatia pelo próximo. Associou essa realidade à prolongação da guerra na Ucrânia e na Terra Santa, reafirmando a urgência de um cessar-fogo imediato. Sobre o Oriente Médio, reiterou que a solução de dois Estados pode responder às aspirações legítimas de ambos os povos.

No continente americano, manifestou preocupação com as tensões no Caribe, no Pacífico e no Haiti. Referindo-se à Venezuela, declarou: “Renovo o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia, haurindo inspiração no exemplo dos seus dois filhos que tive a alegria de canonizar em outubro passado, José Gregorio Hernández e Irmã Carmen Rendiles, a fim de construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos aflige o país.”

O Papa também mencionou as crises em Mianmar, na região africana dos Grandes Lagos, no Sudão e no Sudão do Sul.

Leão XIV alertou para o perigo representado pelos arsenais nucleares e sublinhou a importância da continuidade do Tratado New START, que expira em fevereiro próximo. “O perigo é que o sonho seja o da corrida a produzir novas armas cada vez mais sofisticadas”, afirmou, incluindo nesse desafio o uso ético da inteligência artificial.

Encerrando a audiência com uma mensagem de esperança, afirmou que a paz continua possível, desde que haja humildade e coragem: “A humildade da verdade e a coragem do perdão”. Citando São Francisco de Assis, cujo oitavo centenário de morte será celebrado em outubro, concluiu: “A sua vida é luminosa porque foi animada pela coragem da verdade e pela consciência de que um mundo pacífico se constrói a partir de um coração humilde, voltado para a cidade celestial. Um coração humilde e construtor de paz é o que desejo a cada um de nós e a todos os habitantes dos nossos países no início deste novo ano. Obrigado!”.

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