*Por Paulo Machado
Perdoe-me o amigo José Mauricio, perdoem-me os que mantém em pé a empresa familiar Comercial Carvalho, mas não dá para entrar naquele recinto sem sentir um vazio lá dentro da alma… Sei que ali encontrarei os mesmos solícitos atendentes, a cadeira para o descanso, em frente à mesa gerencial, sei que o clima será sempre acolhedor e agradável, e sei que se estiver do meado do mês pra frente, posso dizer sem receios: “O dinheiro acabou… posso pagar quando o salário sair?” Mas sei, também, e isto é que me deixa cabisbaixo, que Ele, o pai, o anfitrião-mor, não estará lá para me receber com uma frase inteligente e cheia de verve.
Uma casa comercial não é apenas uma prestadora de serviços, um espaço onde dinheiro e mercadorias circulam. Pode até ser assim, espaços sem vida, sem interação, sem ternos abraços, sorrisos e “certeza da satisfação garantida”. E talvez seja por isto que muitas empresas têm vida curta e não convidam o cliente a entrar, mesmo quando o locutor, agoniado, grita ao microfone, na calçada, que ali dentro se encontram o céu e um mundo cor de rosa. Benditas, pois, as casas comerciais em que você pode marcar encontro com as pessoas que, “por acaso”, são também vendedoras dos produtos que faltam à nossa casa.
Quantas vezes, entediado, com o gosto amargo da falta de uma palavra capaz de levantar o moral, de me devolver o riso perdido em qualquer canto inóspito da cidade, marchei em direção à Comercial Carvalho, desculpe-me, a Floro Carvalho…Quantas vezes superei a decepção de ter passado em bancos irritantes, dirigindo-me à ala esquerda do nosso histórico cruzeiro, no afã de simplesmente “brincar” com o criativo e inteligente Floro? – Chegava olhando os chuveiros, perguntando se havia alguma novidade, reclamando da resistência que queimava toda hora, mas o meu olhar procurava ao mesmo tempo se ele estava lá, ao final da loja, sentado à sua mesa… Amigo Floro Carvalho, esqueci de dizer-lhe que algumas bugigangas que ali comprei foram apenas argumentos, desculpas, para desafogar mágoas e desfazer o ânimo carregado de cotidianos nada atraentes…
Estou criando coragem para passar lá de novo. Mas sem ter pisado à soleira da quase centenária empresa familiar, nascida da coragem e do sonho de Sr. Ezequiel Carvalho, e do espírito alegre e criativo de Dona Naninha, sei que ali, em uma mesa, está faltando ele. E como está faltando! Aliás, ele está faltando não apenas naquela mesa. Não apenas naquela casa que tão bem aprendeu com ele a lição de bem acolher. Ele está fazendo falta no seu disciplinado e diário roteiro, pela manhã, ao meio dia, à tarde e à noitinha, no trajeto Rua Ruy Barbosa, Praça Dr. José Gonçalves. E daria tudo para que se repetisse uma cena que jamais esqueci: sentados nos bancos do calçadão, éramos de quando em quando acordados dos nossos cochilos por sua convocação hilária e provocadora: “cambada de velhos aposentados, vamos trabalhar, vamos andar”, o que provocava os risos de todos nós.
Sem retórica, sem concessões, podemos dizer, hoje, que há uma saudade “danida” no nosso peito, e uma ausência que teima em nos empurrar para a permanência daquilo que ele, Floro Carvalho, foi e continua sendo para nossa terra, para nossa história! Grande e acolhedor amigo Floro Carvalho, consola-nos saber que o céu está reservado aos que fizeram de suas vidas um porto acolhedor, um abraço sem limites…
*Paulo Machado – Ph.D em Educação e Professor universitário (Ofereço esta crônica, como ex-aluno de Austricliano Carvalho, a minha professora querida Liege Carvalho, sempre esposa do homenageado Floro Carvalho. Ela, minha pró, que me ensinou a bem ler e escrever, e a ver as riquezas do mundo!)













