OPINIÃO: Homenagem ao Fotógrafo “Cinco Mil” – Alegria irreverente da esquerda regional

*Por Antonio Brito

Foto: Facebook

A morte de Cinco Mil, neste 14 de dezembro, em Salvador, aos 62 anos, é precoce e sentida em diversos círculos culturais, sociais e políticos regionais. Nascido em Jacobina/BA, Uilson de Oliveira Bahia, seu verdadeiro nome, teve longa passagem de vida ligada a Senhor do Bonfim e municípios vizinhos.

Trabalhou na Mineração Caraíba de onde foi demitido devido a sua intrépida participação na vida sindical. Autor de diversas proezas e atitude corajosas, dissonantes à média dos homens comuns. Nunca se deixou influenciar demoradamente por patrões, partidos e grupos políticos. E nunca negou. “Tenho minhas loucuras. Mas, sou socialista fiel a minha ideologia”.

Nos anos de 1980, o General Figueiredo já deixara de ser o último dos presidentes do regime militar. É quando Cinco Mil resolve viajar de Salvador a Manaus, enrolado numa bandeira do PC do B… Os temores deixados pelos recentes ‘anos de chumbo’ pairavam no ar, mas o destemido Cinco Mil segue engalfinhado em ônibus e navios. E nos conta: “Na ida, a maioria do povo se afastava de mim… Aí eu fiz outra igual em Manaus, vermelhona, ainda maior e voltei pra Bahia vestido na bicha”. Qual o sentido, Cinco Mil? “Tirar o medo do povo, homi! Fazer a direita baixar a crista”.

AFRODESCENDENTE na pele, alto a 1,90m, forte e extrovertido, seus 130 quilos desencorajavam eventuais adversários. Displicentemente desaforado, não consta dele ter ido a sopapos com quem quer que seja. E assim sua irreverência se manteve de pé por toda a vida. Queimado nas empresas que sabiam de sua franca opção pelo sindicalismo de esquerda, não hesitou em virar fotógrafo. Manejava máquinas equipadas com teleobjetivas, de boas marcas, do seu tamanho.

Trabalhou em gestões petistas de Juazeiro e de Senhor do Bonfim, adquirindo confiança e retornando fidelidade aos prefeitos Josef Bandeira e Paulo Machado, respectivamente. Pela qualidade, recebeu crédito fotográfico em diversos jornais de grande circulação.

Nos últimos anos tornou-se militante da Refundação Comunista, organização marxista à qual indisciplinou-se por várias vezes, em todas elas justificou-se em autocrítica. “Se a RC me afastar, eu vou ser dela sempre, não sei é apoiar certos políticos, mesmo eles sendo de partido tolerado pela RC”. E assim Cinco Mil continuou nosso companheiro.

HÁ CERCA DE 20 ANOS descobriu ser diabético, perdeu 30 quilos e ficou com 100. Para a campanha eleitoral de 2008 ele confeccionou um chapéu encimado por um imenso machado e com ele na cabeça desfilava diariamente em Senhor do Bonfim. “Por que isso, Cinco Mil? “Óia, eu acredito na honestidade do Professor [Paulo Machado]!… E tem marketing melhor pra campanha dele?” – desafiou. A suposta “presepada” foi destaque e fez o maior sucesso.

Pontual em seus compromissos e sem rodeio nas preferências. Morava no distrito de Tijuaçu. “Eu gosto de ser quilombola, de ta com os nego do Lagarto”, dizia com solenidade quase infantil. Fazia de tudo pela sua família e recebia dela o maior respeitado. Era “Uilson” na mansidão de voz de dona Yolanda, sua esposa. E “paizinho” na voz de suas filhas cultivada na criação. Não fumava e não bebia. Na rua era o “Cinco Mil”, na cordialidade ou no grito debochado pro cara grandão, conhecido por todos, e nenhum capaz de o tirar o seu humor descontraído natural. Mantinha-se pela aposentadoria, sem perder jamais a posse de uma incrível personalidade, estupendamente desligada e ao mesmo tempo envolvente.

PERDE SENHOR DO BONFIM um de suas figuras marcantes. Ele era evidência em qualquer situação. A aparência de brutamontes saltava à vista. A independência de atitudes ficava escondida no seu interior, pronta porém a desatar e surpreender. Aceitava ser chamado de “burro”, “trouxa”… Numa humildade peculiar confirmava “Ói, isso num nego não, sou fraco de cabeça”. Puro engano. Era um revide invulgar o uso da tolerância inteligente. Era essa sua verdadeira arma. Excelente marketeiro popular, com esse ardil ele se fez notar, posicionando-se a seu bel-prazer, contra as injustiças sociais.

Cinco Mil é um exemplo de como lutadores sociais brotam de parcelas imensas de um povo explorado e tomam posição contra a tirania do sistema capitalista. Ele contribuiu com os que vêem a necessidade crescente de construir-se uma ordem social ética, capaz de emancipar a humanidade. Ao valoroso companheiro firmamos profundo pesar pelo desaparecimento, legando-lhe o nome à honrosa galeria do nosso reconhecimento. Boas lembranças também animam nossas forças.

VEJA BEM, CINCO MIL: lembramos de como você se preocupava com Cuba: “Quando é qui acaba o bloqueio, de num dexá a ilha negociá cum o mundo? É medo, né? Já pensou, Cuba dispará, kkkk, dá exemplo, dismentí os americano, né? Diga aí, quero ouvi”. Ora, Cinco Mil, você já perguntava dando a resposta, véi!… Essa sua certeza, até os coxinhas têm. Logo continue na sua, em paz, como Fidel, Che… Você fez história, homi, merece a carinhosa saudação: Hasta siempre, camarada!

*Antonio Brito é jornalista bonfinense

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