Mudanças bruscas, isolamento, impulsividade e comportamentos compulsivos podem revelar um sofrimento que ainda não conseguiu ser colocado em palavras.
Blog do Eloilton Cajuhy – BEC
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Durante o Setembro Amarelo, muito se fala sobre tristeza profunda, depressão, isolamento e frases que podem indicar desesperança. Mas o sofrimento psíquico nem sempre aparece de forma tão evidente.
Há pessoas que continuam trabalhando, sorrindo, cuidando da família, saindo com amigos e mantendo uma rotina aparentemente normal. Por dentro, porém, podem estar enfrentando uma angústia intensa que começa a aparecer de outras formas.
Para a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, um dos maiores desafios é justamente compreender que nem sempre quem está em sofrimento parece triste.
“Nem sempre a pessoa consegue dizer: ‘eu não estou bem’ ou ‘eu preciso de ajuda’. Muitas vezes, antes de ela conseguir colocar essa dor em palavras, o comportamento começa a falar por ela”, ressalta a Dra. Maria Fernanda Caliani.
O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Não existe uma única causa e não existe também um único comportamento capaz de prever uma crise. Por isso, segundo a médica, é importante observar o conjunto: mudanças emocionais, comportamentais, sociais e até físicas.
Quando o comportamento muda
Um dos principais sinais de alerta é quando alguém começa a agir de uma maneira muito diferente do seu padrão habitual.
Pode ser uma pessoa que passa a se isolar, dormir demais ou quase não dormir, abandonar atividades que antes gostava, aumentar muito o consumo de álcool, apresentar irritabilidade intensa, perder o interesse pelo autocuidado ou assumir comportamentos impulsivos que antes não faziam parte de sua rotina.
Em alguns casos, também podem surgir comportamentos compulsivos.
“A compulsão não significa, por si só, risco de suicídio. É muito importante deixar isso claro. Mas quando uma pessoa começa a perder o controle sobre determinados comportamentos e usa comida, compras, bebida, jogo, sexo, trabalho ou qualquer outra atividade como uma forma de aliviar uma angústia, precisamos olhar para o que está acontecendo emocionalmente”, alerta a psiquiatra.
A questão, segundo ela, não é olhar apenas para aquilo que a pessoa está fazendo, mas tentar compreender o que aquele comportamento pode estar tentando aliviar.
“O que essa pessoa está tentando anestesiar?”
A psiquiatra chama atenção para uma pergunta que pode ajudar a mudar a maneira como familiares e amigos enxergam determinados comportamentos.
“Quando alguém repete algo que traz prejuízo e mesmo assim não consegue parar, precisamos pensar: o que essa pessoa está tentando aliviar, esconder ou anestesiar? Muitas vezes, o comportamento é apenas a parte visível de uma dor que ainda não ganhou nome”, ressalta a Dra. Maria Fernanda.
Isso não significa diagnosticar alguém dentro de casa nem transformar qualquer mudança em sinal de uma doença psiquiátrica. Significa perceber quando algo saiu do padrão e abrir espaço para uma conversa.
“Quem convive com aquela pessoa geralmente sabe como ela é. Por isso, mais importante do que procurar uma lista fechada de sintomas é perceber quando ela deixa de ser quem normalmente era”, destaca a psiquiatra.
Alguns sinais merecem atenção
Nenhum comportamento isolado deve ser interpretado automaticamente como risco de suicídio. O alerta aumenta principalmente quando várias mudanças aparecem juntas, de maneira intensa ou repentina.
- isolamento ou afastamento das pessoas próximas;
- abandono de atividades que antes davam prazer;
- alterações importantes de sono ou alimentação;
- aumento do uso de álcool ou outras substâncias;
- irritabilidade ou mudanças intensas de humor;
- perda significativa do autocuidado;
- comportamentos impulsivos ou de risco;
- desesperança frequente;
- sensação de ser um peso para os outros;
- falas recorrentes sobre morte ou sobre não querer mais estar aqui;
- despedidas incomuns ou distribuição de objetos importantes.
“Às vezes, a família olha para uma pessoa e pensa: ‘mas ela continua trabalhando, continua saindo, continua sorrindo’. Isso não significa necessariamente que esteja tudo bem. O sofrimento psíquico não tem uma única aparência”, alerta a Dra. Maria Fernanda Caliani.
Perguntar não coloca uma ideia na cabeça
Outro receio muito comum é perguntar diretamente se a pessoa está pensando em morrer. A médica explica que falar sobre o assunto de maneira cuidadosa não estimula o comportamento.
“Perguntar não incentiva o suicídio. Muitas vezes, ao contrário, é a primeira oportunidade que aquela pessoa tem de falar sobre algo que estava vivendo sozinha”, ressalta a psiquiatra.
O tom, porém, faz diferença. A abordagem não deve vir em forma de cobrança, julgamento ou bronca. Frases como “você precisa reagir”, “isso é falta de força”, “tem gente em situação pior” ou “você tem tudo, não tem motivo para estar assim” podem aumentar ainda mais a sensação de isolamento.
“Não precisamos ter uma resposta pronta. Precisamos estar disponíveis para ouvir”, destaca a Dra. Maria Fernanda.
O que dizer?
Algumas perguntas simples podem abrir espaço para uma conversa:
- “Eu percebi que você está diferente. Está acontecendo alguma coisa?”
- “Você quer conversar comigo?”
- “Tem alguma coisa ficando difícil demais para você?”
- “Você tem pensado que não gostaria mais de estar aqui?”
- “Como eu posso te ajudar agora?”
“Às vezes, um ‘eu estou aqui com você’ tem muito mais valor do que qualquer conselho”, ressalta a psiquiatra.
E quando a pessoa não quer pedir ajuda?
Esse também é um ponto importante. Quem está em sofrimento intenso pode não ter energia, clareza ou organização emocional para procurar um profissional sozinho.
“Dizer apenas ‘procure ajuda’ pode não ser suficiente. Às vezes é preciso oferecer ajuda concreta: marcar a consulta, acompanhar a pessoa, conversar com alguém da família, ir junto até um serviço de saúde”, alerta a Dra. Maria Fernanda Caliani.
Se houver risco imediato, a pessoa não deve permanecer sozinha e é necessário buscar atendimento de urgência.
Compulsão também pode ser um pedido de socorro?
Segundo a Dra. Maria Fernanda, em alguns casos, sim — desde que a frase seja entendida corretamente.
“Não significa que toda compulsão seja um pedido de socorro ou esteja relacionada a suicídio. Mas um comportamento compulsivo que surge ou se intensifica pode indicar que aquela pessoa está tentando lidar com algo que está maior do que ela consegue administrar naquele momento”, ressalta a psiquiatra.
A compulsão pode oferecer um alívio momentâneo. O problema é quando esse alívio passa a cobrar um preço emocional, físico, financeiro ou social cada vez maior.
“Por isso, eu gosto de olhar menos para a pergunta ‘por que você está fazendo isso?’ e mais para ‘o que você está sentindo antes de fazer isso?’. Essa mudança de pergunta pode revelar muita coisa”, destaca a Dra. Maria Fernanda.
Não espere setembro para perguntar
Para a psiquiatra, uma das principais mensagens do Setembro Amarelo deveria continuar valendo durante todo o ano.
“Prevenção não começa quando alguém diz que quer morrer. Ela começa muito antes. Começa quando percebemos uma mudança, quando perguntamos, quando ouvimos e quando não diminuímos a dor do outro”, alerta a psiquiatra.
E completa:
“Nem toda pessoa em sofrimento parece triste. Algumas continuam sorrindo, trabalhando, cuidando de todo mundo. Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer seja muito simples: ‘você está realmente bem?’”, ressalta a Dra. Maria Fernanda Caliani.
Onde buscar ajuda
Em situações de sofrimento psíquico, é possível procurar atendimento em serviços de saúde mental, CAPS, Unidades Básicas de Saúde, pronto-socorros, UPAs e hospitais.
Em situação de urgência, o SAMU pode ser acionado pelo número 192.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Em caso de risco imediato, a recomendação é não deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de urgência.















