Por Darlan Valverde
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Há pessoas que simplesmente passam. Outras ficam. Dona Mara permaneceu. Nos gestos, na memória, na forma como ensinou sem impor, como acolheu sem perguntar demais. Marcou minha vida de maneira profunda, dessas marcas que não doem, mas moldam. Foi para mim uma segunda mãe. Dessas que a existência nos entrega quando o mundo pesa, a alma despenca e precisa de amparo.
Nos dias difíceis, foi meu abrigo.
No silêncio, foi a voz que acalmava.
Na dúvida, foi minha direção.
Mulher honrada, de postura ilibada, apaixonada por Senhor do Bonfim, carregava na alma um senso de cuidado que ultrapassava o próprio tempo. Era urbanista por vocação, jardineira por amor, guardiã do verde por consciência. Defendia as árvores como quem protege filhos. Conversava com as plantas como quem entende que a vida pulsa em tudo.
Certamente foi a primeira mulher a dirigir um automóvel em nossa cidade. Não foi apenas pioneirismo. Foi símbolo. Foi coragem. Foi anúncio de que o futuro também teria rosto feminino. Dona Mara era dessas mulheres que abrem caminho sem fazer alarde, mas deixando rastro.
Na rua onde eu moro, as árvores que ela plantou continuam de pé. Testemunhas silenciosas do cuidado que ela espalhou. Suas sombras ainda protegem quem passa. Não deixou apenas mudas no chão, deixou consciência no tempo. Onde suas mãos tocaram a terra, nasceu mais que verde. Nasceu esperança.
Hoje eu sei: aquele foi nosso último abraço.
Mas os braços não acabam quando se afastam.
Alguns encontros terminam no tempo, mas permanecem na alma.
Dona Mara não partiu. Ela se espalhou.
Está nas árvores que respiram.
Está na coragem das mulheres que ocupam espaços.
Está na sombra generosa que acolhe sem revelar quem a semeou.
Virou raiz na terra que amou.
Virou memória que sustenta.
Virou exemplo que orienta.
Obrigado, Dona Mara.
A senhora foi uma mãe para mim.
O universo a plantou neste pequeno orbe chamado Terra, e aqui criou raízes, fez florescer vidas e semeou esperança. Após um século de luz, retorna para casa, deixando o mundo mais leve e mais verde.
Nada do que cultivou se perdeu, pois quem planta com amor nunca parte por inteiro.












