Sintomas que aparecem duas ou mais vezes por semana já acendem alerta para possibilidade de doença.
Blog do Eloilton Cajuhy – BEC
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A sensação de que algo está “subindo” pela garganta depois do almoço, provocando leve ardor ou “queimação”, é quase sempre encarada como algo banal. Costuma-se resolver com um antiácido, um copo de água e nada mais. Porém, quando a azia começa a aparecer com frequência, quase como uma visita indesejada depois de cada refeição, o corpo pode estar tentando dar um recado mais sério.
A chamada doença do refluxo gastroesofágico é uma condição comum e, ao mesmo tempo, subestimada. No Brasil, ela afeta entre 12% e 20% da população urbana, com impacto direto na qualidade de vida. O que começa como um desconforto ocasional pode evoluir para um quadro crônico, capaz de interferir no sono, no trabalho e até nas relações sociais.
Sintomas que aparecem duas ou mais vezes por semana já acendem um alerta para a possibilidade de doença do refluxo. Isso acontece porque o refluxo gastroesofágico é, basicamente, o retorno do conteúdo do estômago para o esôfago, um tubo que liga a faringe (garganta) ao estômago. Esse retorno deveria ser impedido por uma espécie de válvula natural, mas quando ela não funciona corretamente, o ácido gástrico entra em contato com uma mucosa que não está preparada para isso.
Os sinais mais comuns incluem sensação de queimação que pode subir do estômago até a garganta, regurgitação de alimento ou líquido ácido, dor no peito, tosse seca persistente e irritação na garganta ou rouquidão.
O funcionamento inadequado da válvula entre o esôfago e o estômago é uma das principais causas do problema. Fragilidade das estruturas musculares nessa região ou a presença de hérnia de hiato (quando parte do estômago desliza para o tórax através de uma abertura no diafragma) também podem favorecer o refluxo.
Além disso, alguns fatores do dia a dia aumentam a pressão dentro do abdômen ou irritam o sistema digestivo, facilitando o retorno do conteúdo gástrico. Entre eles estão obesidade, refeições volumosas antes de deitar, consumo frequente de café, chocolate e bebidas alcoólicas, alimentos ácidos ou gordurosos e tabagismo. O uso de certos medicamentos, sedentarismo e a alimentação irregular também contribuem.
Embora a azia seja o sintoma mais conhecido, o refluxo pode se manifestar de formas menos óbvias. Em alguns casos, o paciente pode nem sequer apresentar queimação. Entre as manifestações chamadas atípicas estão tosse crônica, laringite e rouquidão, crises de asma, sensação de bolo na garganta e distúrbios do sono.
O diagnóstico da doença do refluxo começa com uma boa conversa entre médico e paciente. Os sintomas relatados muitas vezes já são suficientes para levantar a suspeita clínica, mas exames complementares ajudam a confirmar o quadro e avaliar sua gravidade. Os principais são a endoscopia digestiva alta, importante para descartar outras doenças e identificar possíveis lesões causadas pelo ácido; e a pHmetria esofágica, que avalia e quantifica a presença do refluxo.
Já o tratamento da doença envolve uma combinação de medidas. Medicamentos que reduzem a produção de ácido são considerados a base da terapia e costumam ser bastante eficazes no controle dos sintomas. Os chamados inibidores da bomba de prótons são os mais utilizados e apresentam bons resultados tanto no alívio da queimação quanto na cicatrização de lesões no esôfago. Em casos específicos, como hérnias maiores ou falha do tratamento clínico, a cirurgia pode ser indicada.
Mudanças simples que fazem a diferença
Algumas mudanças no estilo de vida podem ter um impacto no controle do refluxo. Mesmo que nem todas tenham comprovação absoluta em estudos, a prática clínica mostra benefícios importantes. Entre as principais recomendações estão evitar deitar logo após as refeições, reduzir o tamanho das porções, identificar e reduzir alimentos que pioram os sintomas e elevar a cabeceira da cama.
Ignorar a azia frequente não é uma boa estratégia. Episódios repetitivos podem levar à inflamação do esôfago e, em casos mais graves, a alterações que aumentam o risco de complicações. A recomendação é procurar avaliação médica quando a queimação ocorre mais de uma vez por semana, os sintomas aparecem após quase todas as refeições, há piora ao deitar ou surgem sintomas associados como tosse ou dor no peito. Também é importante evitar a automedicação frequente. Antiácidos podem aliviar momentaneamente, mas não tratam a causa do problema e têm efeito limitado.
Segundo o gastroenterologista Décio Chinzon, médico consultor da Libbs, a azia pode ser apenas um sinal passageiro ou o início de algo mais persistente. Saber diferenciar uma coisa da outra é o primeiro passo para cuidar melhor da saúde digestiva e evitar que um desconforto comum se transforme em problema crônico. “Evite a automedicação e busque avaliação médica caso os sintomas persistam. Somente após os exames é possível identificar a gravidade do quadro e iniciar a terapia mais indicada”.














