Precisamos honrar o nome de Jéssica Vitória Canedo

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Quem disseminou fake news precisa ser responsabilizado, mas e a nossa parte em tudo isso?

Rosana Hermann*

A jovem Jéssica Vitória Canedo – @jessicavitoria.canedo no Instagram

A morte da jovem Jéssica Vitória Canedo foi uma tragédia. Uma tragédia individual, familiar e também coletiva, porque demonstra o fracasso do mundo que construímos para nós mesmos.

Sim, porque quando uma jovem de apenas 22 anos, que convivia com suas dores e dificuldades, em vez de ser respeitada ou ajudada, vê-se envolvida em mentiras absurdas e exposta a ataques de ódio tão intensos que lhe roubam a vida, fica provado que falhamos miseravelmente como sociedade e como humanidade.

Diante da revolta que todos nós sentimos por ver que a invenção e disseminação de fake news fizeram uma vítima fatal, nossa primeira reação foi procurar os culpados. Quem criou os prints falsos de conversas entre Whindersson Nunes e Jéssica Vitória, que nem se conheciam? E por que divulgaram essa montagem criminosa? E como essa pessoa que criou esses prints forjados escolheu o nome de Jéssica? Ele a conhece da internet? Na vida real? Ou foi totalmente aleatório? Ainda não sabemos. Jéssica também não sabia.

As fake news se tornaram a pior chaga da nossa comunicação, da nossa vida. Elas derrubam governos, elegem tiranos, corrompem a democracia, destroem reputações, semeiam discórdia, abalam relações. E matam. Uma fake news matou Jéssica.

Mas foi há alguns anos que as notícias falsas intencionalmente produzidas, os boatos industrializados, receberam esse nome pomposo de fake news. A mentira e a falta de caráter sempre existiram e, na internet, encontraram solo fértil em muitos lugares, especialmente no Brasil.

Um verbete da Wikipedia sobre notícias falsas nos diz que, segundo uma pesquisa de 2018 do Instituto Ipsos, “o brasileiro é o povo que mais acredita em fake news dos 27 países que fizeram parte da pesquisa”. E não apenas acredita, como também produz e difunde fake news aos milhões. Todos os dias. O tempo todo.

Claro que a polícia precisa investigar para descobrir quem foram os criadores dessa mentira que matou Jéssica. E que todos os que disseminaram esses boatos também precisam ser responsabilizados. Mas e a nossa parte em tudo isso?

Na medida em que seguimos esses perfis que divulgam mentiras, sempre com tom sensacionalista, sem ética, sem nada, não somos coniventes também? Não somos nós os milhões que catapultaram essas pessoas para a fama? Não somos nós, os seguidores, que legitimamos o sucesso desses irresponsáveis que, em nome do “furo”, da “nota em primeira mão”, publicam sem checar a veracidade do que divulgam, uma vez que não têm nenhum compromisso com a verdade, apenas com o marketing e o lucro?

E as pessoas que atacaram Jéssica? Elas também não são parte do problema? Não são responsáveis por esse crime? Se sentimos a dor do fim da vida de uma jovem inocente, que pediu para que as fake news parassem, se nos solidarizamos com a dor de uma mãe que pediu para que a filha não fosse atacada porque tinha depressão, não seria o caso de honrarmos sua memória agora que ela se foi?

Eu acho que sim. Eu acho que o mínimo que podemos fazer é parar de seguir pessoas desqualificadas, sensacionalistas, irresponsáveis, que tratam fake news como notícia, que não se importam em difamar, que lucram duas vezes mentindo e desmentindo.

É hora de honrar o nome de Jéssica Vitória. É hora de agirmos com a lisura que cobramos dos outros. Porque o que aconteceu com Jéssica poderia ter acontecido com você. Ou comigo, ou com qualquer outra pessoa. Ninguém está blindado contra a maldade. Mas o monstro que cresce é aquele que a gente alimenta. Temos que parar de alimentar o monstro das fake news. Porque ele é forte, poderoso, voraz e, como agora sabemos, ele mata.

*Rosana Hermann é jornalista, roteirista de TV desde 1983 e produtora de conteúdo.

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