Opinião – Felicidade achada na calçada

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*Por Edvaldo Soares de Araújo

Quem transita pela Rua Dr. Costa Pinto, em Senhor do Bomfim, e chega a uma esquina com a Rua Antonio Vicente, ali se descortina um espetacular e tradicional casarão amarelo com uma calçada no seu entorno que vai de ponta a ponta desta mansão. Sim, chamo de mansão porque eu sempre admirei esta casa, especialmente porque quando criança conheci o patriarca da família, cujos descendentes até hoje residem nesta vivenda. E esta mansão já é centenária ou mais que isto.

Esta centenária casa amarela tem uma apoteose que merece um estudo especial, senão uma tese de doutorado. Quem por ali passa todo dia, exceto dias de chuva, a partir das 16h30, percebe um grupo de pessoas reunidas, sentadas em suas cadeiras, totalmente relaxadas, numa boa, no referido calçadão, a papear entre si, creio que atualizando-se com o cotidiano, ou mais.

Presença diária lá estão a Thelma, a Bila, a Lelê, Teresinha, a Detinha Maia e outras. O grupo é predominantemente de mulheres, mas ocorre aparecer homens também. O papo vai longe até ao crepúsculo da noite.

O papo corre solto, e o que que se vê no semblante do grupo é uma áurea de felicidade na conversa. O que será que ocorre ali? Elas estão falando com deuses, com anjos, com espíritos ocultos? Uma pista desta felicidade pode ser explicada pelo fato de que elas estão se falando frente a frente, olho o olho.

Sem nenhuma ferramenta de distração. Nunca vi estas pessoas gastando este precioso papo com smartphone/celulares nas mãos nas redes sociais (esta tragédia contemporânea), nem revistas de fofocas. E olha que este grupo se reúne não é de agora não. Alguns já partiram, outros estão já afastados pelo peso da idade. Parece uma lenda urbana. Registro que esta calçada é testemunha antiga deste aconchego.

Lembro de quando eu era um adolescente e já enxergava o velho José Bartilotti sentado na sua cadeira de balanço (também chamada espreguiçadeira – daquelas arqueadas) junto a D. Rezzia, sua esposa, na famosa calçada tão eternizada por sua arquitetura até hoje. Será que esta calçada tem a alma ou esconde alguma mina da felicidade? Algum dia ainda vou me sentar nela pra receber esta dádiva. Afinal, foi nesta calçada que vislumbrei o que era ser ou parecer elegante. Foi nela que, na minha adolescência, via e admirava o velho e elegante Sr. José Imbassahy Bartilotti que diariamente saía com o seu terno de linho branco inglês e usando suspensório, todo faceiro indo dar uma volta na cidade.

Prometi a mim mesmo que, quando ganhasse o primeiro dinheiro, iria comprar um terno branco igual ao do Sr. João Bartilotti. Foi o que fiz quando recebi meu salário do meu primeiro emprego na empresa Brithish Americam Tobaco. Corri e fui na loja Adamastor na rua Chile, em Salvador, e comprei terno branco completo. Ah alegria.

Digo tudo isto para terminar e dizer que esta calçada me fascina, e creio que fascina muita gente, porque ela é a cara da felicidade. Espero que este grupo de amigos nunca desistam desde vigoroso, sadio e quase divino papo, que para mim é exemplo de simplicidade e desprendimento, para inspirar aos jovens ou adultos que passam por este lugar.

*Por Edvaldo Soares de Araújo – observador e admirador do grupo da Calçada. Prof. da Ucsal e da Esaex (aposentado). Escritor avulso. Produtor Rural. Observador do mundo. Aprendiz permanente.

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