Novembro preto batendo na porta da frente; amanhã é primeiro! – Por Maria Glória da Paz

FONTE: BLOG DO ELOILTON CAJUHY - Texto Maria Glória da Paz

Tem se falado muito em autonomia, empoderamento, racismo estrutural, democracia racial e por aí. A questão é saber até onde vai a autonomia e o empoderamento do povo preto, uma vez que quando se fala de preto, esta autonomia não é da voz preta. Dela apenas vestígios são aproveitados para serem interpretados pela voz da autonomia acadêmica branca, a que se autoriza a falar sobre nós, as nossas dores, as nossas vivencias, o nosso convívio e a nossa realidade; transformando-os em ricas perolas, sem que o povo preto sequer compreenda o que se faz com a sua fala e os seus fazeres, esquartejados em sua plenitude.

A autonomia de fala do povo preto se perde num emaranhado de citações e conceitos criados não pelo povo preto, mas por quem se diz porta-voz destas pessoas, destas comunidades e deste conhecimento comum, que nos foi deixado por herança, pela nossa ancestralidade.

Somos “desautonomizados” quando vemos menosprezada a nossa herança ancestral, quando vemos desconstruídos os nossos sentimentos, quando vemos diluído o nosso empoderamento, ao nos impedir, sutilmente, de não nos mostrarmos como realmente somos, mostrando-nos apenas como peça de/para estudo ou para uso do consumo; numa nova modalidade de escravização cheia de sutilezas e laços de boniteza e muitos adjetivos simpáticos, porém não verdadeiros, pois as oportunidades se estreitam e se fecham para muitos de nós, escondidas em muitos disfarces tão leves e doces como afagos de esquimós, mas tão venenosos quanto a saliva da coral.

A desqualificação destes elementos que nos formam pretos, para muitos está centrada no racismo estrutural, o conceito da atualidade debatido, esmiuçado e mil vezes interpretado por todos os matizes e que pouco dizem para as nossas dores e muito dizem para o apagamento da nossa história e dos nossos levantes.

A cada invenção em nome do nosso empoderamento preto, se não vier das dores pretas do povo preto, apenas servem como alegorias de épocas, depois se perdem no fundo de gavetas, armários, livros e artigos e estantes sem função, existindo apenas para compor um cenário de tentativas de nos tornar iguais, coisa que não somos.

Que o novembro preto nos traga novas inquietações e que nos impulsione para novas buscas, não de igualdade, pois isso não seremos nunca; mas que nos impulsione a luta por oportunidades iguais, por respeito a nossa vida de pretos, pelos nossos pensamentos, pelas nossa falas e formas de fazer conhecimento e pela preservação dos saberes que compõem a nossa história preta.

Salve as pretas e os pretos que embelezam a vida! Pois mesmo diante de tantas dificuldades e tantas incertezas, fazem das suas dores a alegria de muitos e a grandeza deste país!

Salve o novembro preto!
Salve a nossa história de pretos!

Maria Glória da Paz, também conhecida como Glorinha, é cantora e Professora da UNEB – Campus VII – Senhor do Bonfim (Foto: Facebook)

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