João Gomes e o orgulho de ser brasileiro

A classe política não se deu conta que tem um Brasil sedento de Brasil, que acredita na cara do Brasil.

Por Luis Nassif

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João Gomes – Divulgação

João Gomes é um fenômeno brasileiro – mais brasileiro do que fenômeno musical. Seu repertório de música nordestina não é de clássicos – nem presentes, nem futuros. Jamais será um Luiz Gonzaga, um Zé do Norte, ou um Dominguinhos. A voz é levemente fanhosa e não se enquadraria no padrão de qualidade convencional.

O que João Gomes tem, então, para se transformar em um fenômeno dessa amplitude? Confesso que jamais vi um sucesso tão instantâneo e tão geral. Neste final de ano, passou por todos os palanques e programas relevantes da música brasileira.

O fenômeno João Gomes se explica por sua personalidade. É profundamente brasileiro, e de um gênero de pessoa pouco celebrado nestes tempos de loucura: o gente boa.

Minha prima Terezinha, dona de uma escola experimental em Poços de Caldas, contou-me que, na hora de definir o modelo de escola, juntou os pais com a pergunta-chave: o que querem que seus filhos sejam quando crescerem. E a resposta vencedora foi: gente boa.

João Gomes representa o melhor da alma brasileira, o sujeito que não se rendeu ao fascínio da riqueza fácil, da financeirização, do deslumbramento. O rapaz que se emociona ao falar de sua professora, de sua mãe. Navegando nas ondas de um sucesso fulminante, quer construir uma casa que lembre as casas simples de sua infância, ainda que em um condomínio de classe alta.

Presa em uma polarização emburrecedora, a classe política não se deu conta disso: tem um Brasil sedento de Brasil, que acredita na cara do Brasil, que quer um futuro que concretize o sonho de Brasil, o orgulho de ser Brasil.

Por esses dias, nas minhas caminhadas diárias, tenho ouvido a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles. O repertório dos anos 50 é uma apologia do Brasil moreno. O Brasil saindo da guerra com uma visão de futuro, desenhada por Getúlio Vargas e JK, e o orgulho de ser brasileiro se manifestando até na celebração da moreninha, como da bossa-nova, dos primeiros atletas ganhando repercussão internacional, Eder Jofre, Biriba, Maria Esther.

Em cima desse clima, JK lançou seu grande projeto, o Plano de Metas, um desenho factível do futuro, embalado pelas serestas de Diamantina, pelo Peixe Vivo, por Maria Ninguém, pela Seleção de 1958, pelo sucesso da música brasileira no Carnegie Hall.

Antes disso, nos sucessivos plano de cooperação – Missão Abbink, Comissão Mista Brasil-EUA – foram desenvolvidos alguns pressupostos essenciais:

  • a importância de se ter o objetivo maior, do desenvolvimento;
  • a relevância dos diagnósticos;
  • a importância de um plano de metas.

Definidos esses pressupostos, nasceram novos grupos industriais, novo fogo desenvolvimentista.

Apesar do Centrão, da falta aparente de lideranças empresariais de peso, o país possui uma enorme vontade de acreditar no futuro, de ter fé na brava gente brasileira. O grande salto ocorrerá quando houver um Estadista que entenda esse estado de espírito.

Participei de um evento com Lula, justo no dia em que dona Marisa foi derrubada por um derrame. Falei primeiro, ele falou depois. O seu discurso era matador: uma síntese competente dos fatores essenciais de desenvolvimento, em linguagem acessível. Era um discurso imbatível, em uma campanha eleitoral.

Depois disso veio o golpe das eleições de 2018, a prisão, a volta heroica e o penoso trabalho de reconstrução das instituições, tirando o Brasil novamente do mapa da fome.

O grande salto do país será dado quando assumir um presidente Orquestrador, que saiba organizar os diversos atores nacionais em torno de um plano de metas. O ideal seria que esse presidente fosse um Lula repaginado. Apenas garantir a democracia contra o obscurantismo do bolsonarismo não basta. Como não basta reduzir as políticas públicas ao Bolsa Família e ao PAC. Tem que conseguir articular o sonho brasileiro.

Repaginado, Lula trará, consigo, um dos grandes triunfos nacionais: sua dimensão internacional, como o grande estadista da atualidade, respeitado pelas duas superpotências.

Falta dar viabilidade aos demais diferenciais brasileiros, terras raras, energia verde, sistema de pesquisas, parcerias geopolíticas, tudo tem que sair do papel na forma de um Plano de Metas.

O passo mais racional seria colocar Fernando Haddad como o grande coordenador do Plano de Metas, trabalhando em cima de propostas concretas, atraindo movimentos, associações empresariais, grandes grupos e multinacionais em torno de um projeto racional de desenvolvimento.

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