Por Blog do Eloilton Cajuhy – BEC

Em meio aos anos mais sombrios da Ditadura Militar no Brasil, histórias de coragem e resistência como a de Hecilda Fonteles precisam ser lembradas — não apenas para honrar quem sofreu, mas para que jamais se esqueça o preço pago por vozes que ousaram não se calar.
Hecilda era professora universitária e estava grávida quando, em 1971, foi presa em Brasília. Sob socos e pontapés, ouvia dos agentes da repressão frases cruéis: “Filho dessa raça não deve nascer”. Mesmo carregando uma vida dentro de si, foi levada para o temido Pelotão de Investigações Criminais (PIC), onde enfrentou a tortura dos “refletores” — noites inteiras com uma luz intensa em seu rosto, tirando-lhe o sono, a sanidade, a dignidade.
Depois, foi transferida para o Batalhão da Polícia do Exército do Rio de Janeiro, onde conheceu a Cadeira do Dragão — uma cadeira elétrica adaptada não para executar, mas para prolongar o sofrimento. Ali, os fios subiam por suas pernas e eram amarrados nos seios, causando choques que misturavam sensações extremas de calor, frio e asfixia, enquanto tapas e chutes dilaceravam seu corpo já exausto.
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De volta a Brasília, a tortura continuou: jogada numa cela infestada de baratas, Hecilda teve que improvisar uma defesa desesperada — usou o próprio sutiã para tapar a boca e os ouvidos, tentando manter a sanidade em meio ao medo e à dor. Quando chegou a hora do parto, foi levada ao hospital, mas o horror não acabou: o médico, tomado de desprezo, fez o corte do parto sem anestesia, num último ato de crueldade.
Apesar de tudo, Paulo Fontelles Filho nasceu. Sua vida é o maior símbolo de vitória sobre um sistema que tentou, em vão, esmagar sonhos, silenciar vozes e impedir o futuro de nascer.
A história de Hecilda Fonteles é um lembrete de que a democracia e os direitos humanos são conquistas forjadas com sangue, coragem e resistência. Contar e recontar essas memórias é garantir que o passado não se repita. Que a força dessa mulher e de tantas outras jamais seja esquecida.