Família de Eliza Samúdio faz carta aberta e cobra prisão de Bruno, que está foragido: ‘Feminicida desfila impune’

No documento enviado ao g1, a família pede para que a Vara de Execução Penal investigue, dentre outras coisas, viagens feitas pelo ex-goleiro nos últimos anos

Por Mirian Machado, Loraine França, g1 MS — Mato Grosso do Sul

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Bruno foi condenado a mais de 22 anos de prisão pelo homicídio da modelo Eliza Samudio — Foto: Arquivo g1

A mãe de Eliza Samúdio, Sônia Fátima Moura, e a madrinha de Bruninho Samúdio, Maria do Carmo dos Santos, divulgaram carta aberta em que cobram a prisão do ex-goleiro Bruno. Ele foi condenado pelo homicídio de Eliza e é considerado foragido pela Justiça do Rio de Janeiro.

No documento enviado ao g1 nesta terça-feira (17), Sônia e Maria do Carmo fazem um pedido para que a Vara de Execução Penal investigue, dentre outras coisas, viagens feitas pelo ex-goleiro nos últimos anos e que o “Ministério Público atue com rigor diante do descumprimento reiterado de exigências da Lei de Execução Penal”.

“Pedimos, ainda, que Bruno Fernandes seja responsabilizado criminalmente pela fuga e por cada violação cometida. E pedimos que o Estado brasileiro reconheça que, ao tratar um feminicida com tamanha leniência, envia uma mensagem perigosa à sociedade: a de que o crime compensa, a de que a vida de mulheres como Eliza não vale nada”, ressaltam mãe e madrinha no documento.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro informou que o ex-goleiro Bruno está foragido por descumprimento das medidas impostas pela VEP para a manutenção do livramento condicional. Com o descumprimento, a Vara de Execuções Penais decretou a revogação do livramento condicional e expediu mandado de prisão.

“O goleiro Bruno não se apresentou diante da revogação. A defesa do goleiro entrou com recurso e a VEP encaminhou para manifestação do MP. Enquanto, não houver outra decisão em relação à revogação do livramento condicional , o goleiro Bruno será considerado foragido”.

No texto, Sônia e Maria do Carmo dizem que vivem um cenário de dor, revolta e sensação de impunidade. Elas afirmam que o sistema de Justiça tem falhado ao não garantir o cumprimento da pena do ex-jogador.

As duas relatam que Bruno, condenado em 2013 a mais de 20 anos de prisão por feminicídio, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver, estaria há anos descumprindo regras impostas pela Justiça.

Segundo a carta, desde 2023 ele não era localizado para cumprir exigências do livramento condicional, como manter endereço atualizado e assinar documentos obrigatórios. Ainda assim, não teria havido ação imediata das autoridades.

Elas também citam viagens feitas por Bruno para estados como Espírito Santo, Minas Gerais e Acre, mesmo com restrições judiciais.

Um dos pontos que mais causou indignação à família foi a ida do ex-goleiro ao Acre, em fevereiro deste ano. De acordo com a carta, ele participou de uma partida de futebol pelo time Vasco-AC sem autorização da Justiça.

Pelas regras do regime, Bruno não poderia sair do estado do Rio de Janeiro.

Para a família de Eliza, a situação é uma “afronta”, já que o caso nunca teve o corpo da vítima localizado, o que impede até hoje um enterro.

Disque Denúncia emite cartaz de foragido do goleiro Bruno e pede informações — Foto: Reprodução

Na carta, mãe e madrinha afirmam que, enquanto Bruno aparece em público e recebe atenção, a família da vítima segue lidando com o luto e a falta de respostas.

Elas também criticam o fato de o ex-goleiro ter negado a paternidade do filho por anos e, segundo elas, não contribuir financeiramente com a criação do menino há cerca de quatro anos.

No documento, as duas fazem um apelo direto às autoridades dos três poderes. Elas pedem:

  • investigação das viagens feitas sem autorização
  • atuação mais rigorosa do Ministério Público
  • cumprimento integral da pena
  • responsabilização por descumprimento das regras

Elas afirmam que não buscam vingança, mas justiça, e dizem que vão continuar denunciando o caso.

O Disque Denúncia divulgou um comunicado pedindo informações sobre o paradeiro de Bruno.

Segundo o Tribunal de Justiça, um mandado de prisão foi expedido no dia 5 de março, depois que a Vara de Execuções Penais concluiu que ele descumpriu condições da liberdade condicional.

Ainda de acordo com a Justiça, o ex-goleiro não se apresentou para retornar ao regime semiaberto.

Bruno foi condenado a mais de 22 anos de prisão pelos crimes relacionados à morte de Eliza Samúdio, caso que teve grande repercussão nacional e segue sem a localização do corpo da vítima.

“CARTA ABERTA ÀS AUTORIDADES

Excelentíssimas Autoridades dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário,

À sociedade brasileira,

À imprensa

Nós, Sônia Fátima Moura, mãe de Eliza Samudio e Maria do Carmo dos Santos, madrinha de seu filho Bruninho, dirigimos -nos a Vossas Excelências e ao povo brasileiro com o coração pesaroso, mas ainda firme na luta por justiça.

Escrevemos esta carta em um momento em que a dor, a angústia e a indignação parecem ter se naturalizado em nossas vidas.

Escrevemos porque o silêncio não é uma opção. Escrevemos porque o sistema judiciário, que deveria proteger e garantir o cumprimento das leis, tem falhado reiteradamente conosco — e, por extensão, com toda a sociedade.

O CASO

Bruno Fernandes, condenado em 2013 a mais de 20 anos de prisão pelos crimes de feminicídio, sequestro, cárcere privado e ocultação de cadáver contra Eliza Samudio, encontra-se foragido. Apesar de decisão judicial que determinou sua prisão, ele segue em liberdade — uma liberdade que, como provam os fatos, nunca lhe foi totalmente cerceada.

Desde 2023, Bruno não era localizado para assinar o Termo de Compromisso do Livramento Condicional. A Vara de Execução Penal levou três anos para tomar qualquer providência.

Enquanto isso, além de ir assistir ao jogo no Maracanã a noite como se livre fosse, ele viajava livremente: para o Espírito Santo (01), para Minas Gerais (08) e para o Acre (01) — sempre com a complacência de um sistema que parece incapaz de monitorar quem deveria estar sob regime semiaberto.

O DEBOCHE À JUSTIÇA

No dia 15 de fevereiro de 2026, apenas cinco dias após oficializar sua progressão de regime, Bruno viajou sem autorização judicial para o estado do Acre, onde participou de uma partida de futebol pelo time Vasco-AC, no Campeonato Brasileiro. Acompanhada e divulgada nas redes sociais não apenas pela indignação da contratação do Goleiro Bruno, mas também pela afronta de uma homenagem a jogadores presos sob suspeita de estupro coletivo.

A cena é estarrecedora: enquanto um feminicida condenado desfila impune, a mãe de sua vítima nunca pôde enterrar a filha, e o filho órfão nunca teve acesso aos restos mortais da própria mãe.

A AFRONTA ÀS VÍTIMAS

Enquanto Bruno desfruta de privilégios incompatíveis com sua condição de apenado, nós, familiares de Eliza, somos sistematicamente atacados. Somos cobrados, silenciados, invisibilizados. Enquanto ele recebe autógrafos e holofotes, nós seguimos tentando sobreviver ao luto sem corpo, à dor sem reparação, à ausência sem justiça.

Bruno recusou-se por duas vezes a realizar exame de DNA, negando a paternidade por anos. Pagou pensão apenas uma vez, – 2 anos acumulados — o suficiente para evitar a prisão. Há quase quatro anos, não contribui com um centavo para a criação do próprio filho. E, ainda assim, o Estado não o notificou? Não o localizou? Não agiu? Como um apenado não é encontrado pela justiça se é obrigado ter seu endereço atualizado?

A PERGUNTA QUE NÃO SE CALA

Quantas mulheres precisarão morrer ou serem espancadas, mutiladas para que o sistema judiciário leve a sério o cumprimento das penas de criminosos e feminicidas?

Quantas famílias precisarão clamar por justiça para que a Vara de Execução Penal cumpra seu papel com eficiência, eficácia e efetividade?

Quantos Brunos Fernandes precisarão rir da lei, em praça pública, para que o Judiciário reaja com a devida gravidade?

NOSSO PEDIDO

Não pedimos vingança. Pedimos justiça. Pedimos o cumprimento integral da lei. Pedimos que a Vara de Execução Penal investigue todas as viagens não autorizadas realizadas por Bruno Fernandes nos últimos anos. Pedimos que o Ministério Público atue com rigor diante do descumprimento reiterado das exigências da Lei de Execução Penal. Pedimos que o Poder Judiciário e a Vara de Execução Penal garanta que a pena imposta seja, de fato, cumprida.

Pedimos, ainda, que Bruno Fernandes seja responsabilizado criminalmente pela fuga e por cada violação cometida. E pedimos que o Estado brasileiro reconheça que, ao tratar um feminicida com tamanha leniência, envia uma mensagem perigosa à sociedade: a de que o crime compensa, a de que a vida de mulheres como Eliza não vale nada.

NOSSO COMPROMISSO

Seguiremos firmes. Seguiremos denunciando. Seguiremos ocupando o lugar que nos foi negado: o de vítimas que exigem respeito, que exigem justiça, que exigem memória.

Não nos calaremos. Não desistiremos. E enquanto houver fôlego, lutaremos para que o nome de Eliza Samudio não seja apenas lembrado como mais uma vítima, mas como símbolo da luta por um país onde feminicidas não sejam tratados como celebridades.

Atenciosamente,

Sônia Fátima Moura
Mãe de Eliza Samudio, Ativista de Direitos Humanos

Maria do Carmo dos Santos
Madrinha de Bruninho, Ativista de Direitos Humanos e Presidente do Vítimas Unidas

Brasil, 16 de março de 2026″.

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