Da Rádio Câmara, de Brasília, Paula Bittar

“Uma mulher, o companheiro dela era extremamente ciumento, inseguro. Ele chegou ao extremo de pegar gravador e colocar nos diversos ambientes da casa. E quando chegava à noite, ele pegava aqueles gravadores que estavam com sons domésticos, porta batendo, descarga do banheiro, TV ligada, e colocava para ela ouvir, e falava assim: ‘escuta isso aqui, isso aqui foi’, desculpa o termo chulo, ‘foi teu macho que entrou aqui enquanto eu não estava’. E agressão”.
Este relato foi contado pela Jane Klébia do Nascimento Silva, delegada chefe da 6ª Delegacia de Polícia, no Paranoá, região administrativa de Brasília. Ela participou (na quarta-feira, 11) de audiência pública da Comissão Mista de Combate à Violência contra a Mulher, que debateu o feminicídio e a violência contra as mulheres.
Segundo a delegada, a região pela qual é responsável foi a que contabilizou em 2019 mais casos de feminicídio em todo o Distrito Federal. São assassinatos de mulheres por serem mulheres, ou seja, envolvendo violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher da vítima.
Jane Klébia afirma que dorme todos os dias pensando em como diminuir o número de feminicídios, e defende que um dos caminhos passa pelo atendimento das vítimas de violência nas delegacias.
“Imagina chegar numa delegacia, por exemplo, e ela começa a contar essa história, aí tem um policial homem. Sem desmerecer minha Polícia Civil, que eu amo, mas nós precisamos de um preparo diferenciado para esse atendimento. Quando nós temos policiais que falam ‘polícia é tudo igual, consegue atender do mesmo jeito’. Não consegue”.
A defensora pública federal Rachel Moura lembrou que a violência atinge mais as mulheres negras, mas elas têm mais medo de denunciar.
“Conforme alguns dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em média 60% das mulheres que sofreram feminicídios no Brasil nos anos 2017 e 2018 eram mulheres negras. Mas menos da metade das mulheres que vão às delegacias denunciar casos de violência doméstica são negras. Por que isso acontece? Porque há, ainda, um racismo estrutural no nosso país. Especialmente as mulheres negras não acreditam que chegarão na delegacia e serão ouvidas e acolhidas”.
As participantes da audiência também defenderam a importância da educação, da mudança na cultura, para a redução dos casos de violência e feminicídio. Cyntia Gioconda Honorato Nascimento, médica legista da Polícia Civil do DF, classifica o feminicídio como a ponta do iceberg, e afirma que não é possível combatê-lo sem atacar sua base, que é a violência cotidiana por que passam as mulheres.
Joluzia Batista, socióloga e representante do Centro Feminista de Estudos e Assessoria, o Cfemea, defendeu que, para que se dê alguma resposta ao aumento no número de feminicídios, algumas discussões sejam feitas desde a escola. Por exemplo, desigualdade de gênero, machismo e misoginia devem ser temas de debates entre os estudantes, na visão da socióloga.
Mayara Lima Tachy, defensora pública do Distrito Federal, defendeu políticas públicas para a profissionalização de mulheres, para que as vítimas saiam do ciclo de dependência econômica de seus agressores.
O número de feminicídios tem seguido o caminho contrário de homicídios e roubos seguidos de morte, que diminuíram no ano passado: um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo mostrou que, em 2019, houve 1.310 assassinatos decorrentes de violência doméstica ou motivados pela condição de gênero, características do feminicídio. Foi uma alta de 7,2 % em relação a 2018.













