Entre vertigens e esperança

Um testemunho de uma bonfinense de como o cuidado verdadeiro restaura mais que o corpo.

Por Ivânia Freitas

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No dia 16 de janeiro, eu estava em viagem, quando passei mal. Fui tomada por vertigens, com sintomas muito confusos e bem próximos de uma crise aguda de labirintite. Fui para o Hospital da UNIMED de Feira de Santana, no qual fui atendida por uma equipe altamente humana. No estado no qual me encontrava, eu não tive condições sequer de olhar para a fisionomia das pessoas que me atenderam, mas venho a público agradecer às recepcionistas, ao maqueiro, enfermeiras, técnicos e, em especial, à Dra. Gabrielle Stutz, que, com agilidade e cuidado, se dedicaram a mim durante uma tarde inteira.

Já em casa, no dia 19, em Bonfim, ainda com a crise aguda, precisei ir às pressas à UPA, por volta das seis da manhã. Era troca de turno, o cheiro de água sanitária sendo jogada no chão para devida limpeza era excessivo e ampliava ainda mais as náuseas e o mal estar. Mas fui prontamente atendida pelo médico, Dr. George Matheus, que me ouviu com atenção e passou uma medicação para aliviar os sintomas enquanto tentávamos encontrar uma consulta com um otorrino de urgência.

Fui levada ao ambulatório, amparada por minha filha (Lanarah), que conduziu-me na cadeira de rodas. No ambiente, havia uma técnica e algumas pessoas tomando medicação. Minha filha me conduziu sozinha para uma das cadeiras, eu não estava com equilíbrio suficiente para ficar de pé. Buscando uma melhor acomodação para mim, Lanarah tentou levantar o encosto dos pés e derrear o banco, mas não funcionava. A cadeira não era adequada para o estado no qual eu me encontrava. Pedi a ela que me colocasse em um dos leitos e, mais uma vez, sem ajuda, ela me conduziu sozinha (eu permanecia de olhos fechados), mas, com grande esforço, consegui deitar. Era uma caminha estreita, dura e a parte da cabeça não levantava. No grau de tontura no qual eu me encontrava, ficar reta deitada piorava e muito a situação. Minha filha pegou o casaco que levara, junto com uma echarpe, e colocou embaixo da minha cabeça para me dar algum alívio.

Pedimos um lençol e fomos informadas que não havia. O ambulatório estava frio, ainda não eram 8 horas da manhã, o ar condicionado marcava 23 graus. Ao lado do meu leito, uma jovem chorava de dor e reclamava do ambiente gelado. Nesse momento, chegou um técnico que falava muito alto, como se estivesse uma feira livre, sua voz era estridente e praceia uma invasão direta ao meu labirinto em crise. A técnica lhe pediu que procurasse o controle do ar, pois ela estava com calor de tanto ficar “para lá e para cá”. O técnico foi em busca do controle e logo lhe informou que colocaria em 16 graus. Nesse momento, minha filha interveio, dizendo-lhe que os pacientes estavam com frio e, que, se possível, não baixasse mais a temperatura. De forma ríspida, o técnico respondeu que eles estavam trabalhando e não podiam ficar no calor. Com a insistência de minha filha, lembrando-lhes de que os pacientes deveriam ser a prioridade, ele deixou a temperatura em 20 graus.

Minha filha retirou a echarpe debaixo da minha cabeça e colocou sobre mim para amenizar os tremores do gélido ambiente ambulatorial. Adormeci por efeito da medicação e, ao acordar com menos tonturas, fui para Juazeiro, aguardar um médico otorrino que me encaixara no seu atendimento em um consultório particular na Otoclin de Petrolina, no final do dia.

Dr. Daniel Borges Leal me atendeu por uns 20 minutos em uma escuta atenciosa do relato da minha filha sobre o ocorrido. Fez uns testes, passou a medicação e pediu que eu voltasse em dois dias. No retorno, quando finalmente já pude olhar melhor o rosto de quem me atendera com tanto cuidado, vi um jovem médico atencioso, de fala pausada, analisando e explicando a evolução da medicação que havia sido ajustada, fazendo novas escutas para chegar ao diagnóstico do problema com a segurança de quem sabia do que estava falando. Tive uma neurite vestibular. Com olhar carinhoso, o jovem Dr. Daniel passou novos exames, já agendando um novo retorno para seguirmos entendendo o ocorrido para não vir a se repetir.

Os dois médicos e a médica que me atenderam no Hospital da UNIMED de Feira de Santana, na UPA e na Otoclin, são jovens profissionais e mesmo estando bastante debilitada, senti-me feliz e esperançosa por saber que temos uma geração humanizada e competente chegando na cena e isso inclui os demais profissionais que nos três ambientes pelos quais passei, fizeram seu trabalho com compaixão, empatia e comprometimento.

Aqueles que na UPA se mostraram mais preocupados em amenizar seu calor de 23 graus do que em acolher os pacientes já fragilizados e expostos em uma cama dura sem um único lençol, a estes só posso dizer que sinto muito por não compreenderem o valor social e a oportunidade espiritual da profissão que escolheram.

Segui por mais dois dias em Juazeiro sob as orações e cuidados familiares e permaneço me recuperando bem (já até pude escrever esse texto!).

Só tenho a agradecer a Deus pelas pessoas que colocou em meu caminho e pela experiência que me trouxe algumas aprendizagens. A principal delas, foi a de que a empatia, a compaixão e a amorosidade são ingredientes para todas as profissões, sobretudo na área da saúde, que é o bem mais precioso que temos.

EMPATIA, COMPAIXÃO E AMOROSIDADE são processos de cura, tanto para os pacientes, quanto para aqueles que os acolhem.

Com gratidão aos profissionais da saúde,
Ivânia Freitas

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