Decisões

Foto: Pinterest

Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido. Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito não, ido para a Disney, casado com a Doralice, feito aquele teste…

Agora mesmo, neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz, aliás, o nome do bar é Imaginário, sentou um cara do meu lado direito e se apresentou: – Olá, eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.

Ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo. Eu lhe pergunto: – Por que? Sua vida não foi melhor do que a minha? – Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção, fiz um grande contrato, levava uma grande vida. Até que um dia…

– Eu sei, eu sei… disse alguém sentado ao lado dele. Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós.

Ele continuou: – Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista. – Como é que você sabe?

– Eu sou você, se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola, como mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um herói, me atirei e aí levei um chute na cabeça. Não pude ser mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isto: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido aos pés do atacante… Ele chutaria para fora.

Quem falou foi o outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou. – Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Não faria diferença. Não seria gol. Minha carreira continuou… fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio.

– E o que aconteceu? Perguntamos os três de uma só vez. – Lembra aquele avião da Varig que caiu na chegada em Paris? – Você… – Morri com 28 anos. – Bem que tínhamos notado sua palidez… pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo…e ter levado o chute na cabeça…

– Foi melhor, continuou, ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado… Quando de repente alguém sentado a minha esquerda disse: – Você deve estar brincando! – Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado. Perguntei: – Quem é você? – Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As consequências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o garçom que, no fim era quem estava com o melhor aspecto, ali… estupefato vi que era eu mesmo. O garçom fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.

– Quem é você? Perguntei. – Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice. – E? Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo…

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Nesta crônica temos uma visão da nossa vida e indecisões… Sua vida não é a decisão que você não toma, ou a atitude que você não teve. Sua vida é o seu conjunto de escolhas. E ela está no presente, no aqui, no agora… Por isso, saiba aproveitar o presente, ouça os seus desejos mais íntimos e realize-os… Assim, você não terá que se arrepender amanhã e não terá nenhum sósia seu andando cabisbaixo e frustrado por ai. Você será único, vivendo de acordo com seus desejos, com sua autenticidade, errando e acertando… mas será genuinamente você!

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