Comandante do Exército diz que militares não constataram fraude nas urnas

Tomás Paiva apontou interferência política de Bolsonaro nas tropas.

Por Agência O Globo

General Tomás Ribeiro Paiva, novo comandante do Exército – Foto: Divulgação/Exército

O comandante do Exército, general Tomás Paiva, afirmou durante uma reunião com subordinados que os militares não identificaram fraudes no processo eleitoral do ano passado. Em declaração dada a oficiais do Comando Militar do Sudeste, no dia 18 de janeiro — às vésperas de assumir como comandante —, ele afirmou também que houve interferência política do ex-presidente Jair Bolsonaro nas Forças.

Ele (Bolsonaro) teve mais votos nessa eleição do que ele teve na outra. Então, a diferença nunca foi tão pequena. Foi mínima. E aí o cara fala assim: ‘pô, general, mas teve fraude’. Nós participamos de toda a fiscalização, fizemos relatório, fizemos tudo. Constatou-se fraude? Não, afirmou Tomás.

A fala do comandante foi gravada durante uma reunião com subordinados e divulgada pelo podcast Roteirices. Tomás realizou uma apresentação sobre os principais acontecimentos dos últimos anos. Nela, ele cita interferências políticas do ex-presidente Jair Bolsonaro nas Forças. Entre as ações apontadas, está o desejo de realizar uma motociata na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e a mudança do desfile do 7 de Setembro, no Rio de Janeiro, para Copacabana, onde bolsonaristas realizariam uma manifestação de apoio ao governo.

Algumas interferências do governo, direta, na área militar. Então, isto, a nova motociata de Bolsonaro será na Aman. Foi noticiado. Não ocorreu porque os nossos comandantes e generais convenceram o presidente de que não era uma coisa adequada ter uma motociata, que é um ato político de apoio ao presidente, dentro da academia militar. Dá para achar que isso é uma coisa adequada?, afirmou, completando:

7 de setembro em Copacabana. Todo mundo acompanhou, o desfile no Rio de Janeiro. Onde era o desfile no 7 de setembro no Rio? Eu estreei como cadete na presidente vagas no ano de 1979, 80e 81 desfilei na Presidente Vargas. Esses anos que passou mudou. Passou a ser em Copacabana. Não tem desfile, no final foi uma celebração, com algumas manifestações, mas para o povo está tudo misturado, o que é militar, o que não é militar.

    Eleições

    Ao tratar das eleições, o atual comandante do Exército afirmou que houve uma “sensação” de que houve irregularidades porque a disputa entre Lula e Bolsonaro foi apertada, mas ponderou que os próprios militares se incumbiram de fiscalizar o processo e não encontraram nada.

    Essa sensação ficou porque foi apertada. Mas do ponto de vista do trabalho realizado pelo Exército, não aconteceu nada, não teve nada, tanto que teve o relatório do Ministério da Defesa, que foi emitido e que fala: ‘olha, o processo não foi encontrado nada daquilo que foi visto.

    Ao longo da sua apresentação, Tomás lembra que o mesmo processo que elegeu Lula como presidente também permitiu um Congresso Nacional e governadores conservadores. No entanto, Tomás se refere à vitória do petista como um resultado que “infelizmente para a maioria de nós foi indesejado”.

    Não dá para falar com certeza que houve qualquer tipo de irregularidade. Infelizmente foi o resultado que para a maioria de nós foi indesejado. Mas aconteceu.

      O comandante do Exército também se colocou favorável ao voto impresso, bandeira levantada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro por desconfiança no sistema eleitoral eletrônico e afirmou que era “legítima” a vontade do então mandatário de “aperfeiçoar o sistema”.

      Teve um outro fato, teve aquele problema, na verdade uma proposta legítima do presidente de aperfeiçoar o sistema eleitoral, legítima, afirmou, completando: Não estou fazendo julgamento de valor, eu particularmente, como cidadão brasileiro, eu seria favorável a um voto certificado. Acho que esse processo no futuro vai ter que se aperfeiçoar. Mas a minha opinião não interessa. A opinião interessa como cidadão, eu voto no cara para me representar. O que interessa naquele caso é a opinião do Congresso Nacional, que votou contra.

      O general Tomás foi alçado ao posto de comandante do Exército após a demissão do general Júlio César de Arruda, que ficou desgastado após os atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Investigações apuram se houve conivência de militares com a invasão das sedes dos Três Poderes, destruídas por apoiadores de Bolsonaro na ocasião.

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