Baiana que morreu aos 123 anos ‘viu’ duas guerras mundiais, era Vargas, ditadura e moeda brasileira mudar 9 vezes

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Dona Maria Gomes nasceu no oeste da Bahia, em 1900, e morreu no último sábado (8). Ela teve oito filhos, três netos, 14 bisnetos e 9 tataranetos; conheça a história.

Por Malu Vieira, g1 BA

Dona Maria com netos e bisnetos, em seu aniversário de 120 anos — Foto: Arquivo pessoal

Um dos sucessos do artista baiano Raul Seixas conta a história de um homem que nasceu há 10 mil anos atrás e, por isso, viu diversos eventos históricos do mundo. Em Bom Jesus da Lapa, no oeste da Bahia, uma mulher que viveu 123 anos poderia trocar algumas figurinhas com Raul. Dona Maria Gomes dos Reis nasceu em 1900 e morreu no último sábado (8), apenas oito dias antes de completar 124 anos – e depois de “ver” os maiores acontecimentos históricos modernos.

A verdade é que Dona Maria contrariou a expectativa de vida dos brasileiros: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres costumam viver até os 79 anos, ou seja, 45 anos a menos do que a baiana.

O anos de vida a mais a permitiram vivenciar acontecimentos que estão nos livros de história. Nascida em junho de 1900, a baiana já estava viva em alguns dos grandes acontecimentos modernos da humanidade, como por exemplo:

  • Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918);
  • Crise financeira de 1929 nos Estados Unidos;
  • Primeiro voto feminino no Brasil (1932);
  • Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945);
  • Guerra Fria (1947 – 1991);
  • Viveu a Era Vargas, Ditadura Militar, o movimento “Diretas Já” e a implementação da democracia no Brasil;
  • Viu a moeda brasileira mudar nove vezes (Real, Mil-Réis, Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro, Cruzeiro Real, Real);
  • Presenciou as pandemias de encefalite letárgica, gripe espanhola, gripe asiática, AIDS, cólera e Covid-19;
  • Acompanhou todo o reinado da Rainha Elizabeth (1952 – 2022);
  • Guerra do Vietnã (1959 a 1975);
  • Ataque às Torres Gêmeas (2001).

Dona Maria, os dois netos e a filha — Foto: Arquivo pessoal

Em 2022, a Prefeitura de Bom Jesus da Lapa fez um pedido de análise ao Guinness Book, para tornar Dona Maria a pessoa mais velha do mundo, mas depois não teve detalhes da solicitação.

Por meio de nota, a assessoria de comunicação da Prefeitura de Bom Jesus da Lapa informou ao g1 que, em 2022, uma equipe da Secretaria de Turismo do município entrou em contato com o Guiness Book, mas devido a mudanças, inclusive do secretário da pasta, toda a equipe foi trocada, ficando sem informações sobre o andamento do processo.

Há várias lacunas na história da, talvez, mulher mais idosa da Bahia. Segundo a bisneta Vitória Gomes, muitos dados e causos se perderam ao longo do tempo, seja pelo temperamento mais fechado de “Vó Roxinha”, como era chamada pela família, ou pela falta de registros escritos.

“Não aproveitamos a sanidade dela para perguntar as coisas que aconteceram durante os mais de 100 anos. Tem muita coisa que passou e que a gente nem sabe”, contou.

Vó Roxinha abraçada com os netos e bisnetos — Foto: Arquivo pessoal

Mas o que a família sabe é que a vida de Dona Maria Gomes passou bem longe de guerras, reinados e regimes políticos. Nascida na Ilha do Carrapato, no oeste da Bahia, ela precisou trabalhar na zona rural desde criança e, assim como 11,4 milhões de brasileiros, não sabia ler, nem escrever.

Ainda na juventude, se mudou para Salvador, onde trabalhou como empregada doméstica na residência de um casal. Não se sabe quando, nem por quanto tempo a baiana do oeste do estado ficou na capital, mas foi lá que ela conheceu o primeiro marido e teve seus oito filhos.

Pela longevidade, viveu várias perdas. Além de perder o marido ainda jovem, sete dos oito filhos que eles tiveram juntos morreram ainda na infância.

Apenas uma filha de Vó Roxinha viveu até os 65 anos: a avó de Vitória, Marizete Gomes dos Reis. Ela teve dois filhos, a mãe e o tio de Vitória, que deram continuidade à família.

Apesar de terem passado por diversas dificuldades financeiras ao longo da vida, a família permaneceu unida e comemorou junto muitos dos 123 aniversários da matriarca, que também tinha fama de conservadora e religiosa.

“Se chegasse com amigos, ela falava que ‘moça direita não pode ficar andando com homem’”. Depois da velhice, só deixava cuidar dela quem era casado ou quem tinha filho. Não se sentia confortável com homem solteiro”, contou Vitória.

Até os 104 anos, Dona Maria caminhava e era bem ativa. Depois de tomar algumas quedas, ela passou para a cadeira de rodas e, um tempo depois, para a cama. Nos últimos anos, a idosa alternava momentos de lucidez e era cuidada 24 horas pela mãe de Vitória e outros membros da família.

Quando se tem um idoso de mais de 100 anos na família, a morte é algo vislumbrado em um destino próximo – mas isso não quer dizer que seja mais fácil.

“A gente já vinha conversando sobre a saúde dela, mas mesmo assim o baque vem. Minha mãe cuidou da minha avó durante anos, dormia com ela sempre, então ela foi quem mais sentiu”, contou.

Vó Roxinha nunca contou para a família o segredo para viver tantos anos, mas deixou inspiração de sobra para os três netos, 14 bisnetos e 9 tataranetos, que segundo a bisneta Vitória, a veem como uma verdadeira heroína.

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