Autismo em mulheres: A verdade que a saúde feminina precisa enxergar

FONTE: AF Conexão - jornalista Andrea Feliconio

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Foto: Reprodução

Durante décadas, muitas mulheres foram definidas como “sensíveis demais”, “intensas”, “perfeccionistas” ou “tímidas”. Poucas ouviram a palavra que poderia explicar suas vivências desde a infância: autismo.

O diagnóstico tardio de TEA em mulheres adultas não é exceção: é regra. Na prática clínica, segundo o neurologista Dr. Matheus Trilico, neurologista referência em TEA e TDAH em adultos, é comum atender mulheres que passaram 30, 40 ou até 50 anos tentando se encaixar.

“Elas aprendem a observar, copiar, ensaiar interações sociais. Desenvolvem estratégias sofisticadas para mascarar dificuldades. Mas o custo emocional é altíssimo”, explica o médico.

Os critérios diagnósticos clássicos foram estruturados com base majoritária em estudos com meninos. O que isso significa? Que muitas mulheres ficaram invisíveis.

O chamado fenótipo feminino do autismo costuma envolver:

  • Maior capacidade de camuflagem social
  • Interesses intensos, porém socialmente aceitos
  • Tendência à internalização do sofrimento
  • Altos níveis de autocrítica
  • Histórico frequente de ansiedade e depressão

Essa habilidade de “performar socialmente” faz com que muitas só recebam diagnóstico após crises de exaustão, burnout, colapsos emocionais ou rupturas importantes na vida.

A relação entre autismo e saúde da mulher ainda é pouco discutida. Puberdade, gestação, pós-parto e climatério podem intensificar questões sensoriais, desregulação emocional e sobrecarga mental. Alterações hormonais muitas vezes amplificam características que sempre estiveram ali apenas não nomeadas.

Não é raro que o diagnóstico surja durante o climatério ou após anos de tratamentos para depressão, transtornos alimentares ou ansiedade, quando, na verdade, o TEA sempre esteve na base do sofrimento.

“O diagnóstico tardio significa décadas de intervenções que tratam sintomas, mas não a raiz da questão. Quando a mulher entende que é neurodivergente, há uma mudança profunda: sai a culpa, entra o autoconhecimento”, reforça Dr. Matheus Trilico.

A visibilidade também tem papel transformador. No Brasil, a atriz Letícia Sabatella compartilhou seu diagnóstico na vida adulta, ampliando o debate nacional. Internacionalmente, nomes como Greta Thunberg e Alexis Wineman mostram que mulheres no espectro ocupam espaços de liderança, arte, ciência e ativismo. Elas não representam exceções. Representam possibilidades. Mais do que diagnóstico: validação.

Receber o diagnóstico na vida adulta não apaga o passado, mas reorganiza a narrativa. Muitas mulheres relatam sensação de libertação ao compreender que nunca foram “difíceis demais”, e sim diferentes em um mundo pouco adaptado à diversidade neurológica.

  • Atualização dos critérios diagnósticos com olhar sensível ao gênero
  • Capacitação de profissionais de saúde para reconhecer o fenótipo feminino
  • Ampliação do acesso ao diagnóstico em todas as regiões do país

No Mês da Mulher e em todos os meses falar sobre autismo é falar sobre saúde feminina integral. É reconhecer que autocuidado também envolve autoconhecimento.

“É permitir que mais mulheres se enxerguem, busquem apoio e construam trajetórias com menos culpa e mais pertencimento. Porque quando uma mulher entende sua neurodivergência, ela não descobre uma limitação e sim descobre uma nova forma de existir no mundo, com dignidade, autonomia e verdade” finaliza o neurologista.

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