Realidade pede mudança de estratégia: mirar causas da violência, educação de meninos e papel masculino
Por Mariliz Pereira Jorge/Folha de S.Paulo
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Sugerir que o feminismo precisa se ocupar dos homens soa como uma concessão e entendo que a resposta seja refratária: “não é nossa tarefa educar adulto”. Como se falar de socialização masculina diminuísse a gravidade do que mulheres sofrem. A pauta parece menor diante do urgente: proteger mulheres, punir agressores, sustentar redes de apoio.
A recusa vem embalada em um ponto legítimo: não dá para exigir que vítimas virem tutoras do agressor. Só que a realidade violenta pede uma mudança de estratégia: mirar a causa da violência, a educação de meninos e o papel masculino nas relações e na sociedade, com políticas públicas que passem por escola, saúde, Justiça.
Os números de feminicídio não cedem e os crimes parecem ganhar camadas novas de brutalidade. O Brasil se acostuma ao inaceitável com a velocidade de quem precisa trabalhar, pagar boleto, seguir a vida. A cada caso, um pouco de indignação vira conteúdo e depois evaporam as perguntas essenciais: como se forma um homem que vê em uma parceira sua propriedade? Que repertório emocional sustenta a ideia de punição quando ouve um “não”?
Diante dos episódios que ganharam mais atenção no fim do ano, justamente pela barbárie, um sinal de que essa rota começou a mudar foi o tom de comentaristas, de algumas ativistas e do próprio presidente Lula ao apontarem a necessidade de uma intervenção na educação masculina. Não é coincidência, é o reconhecimento tardio de que prevenção precisa virar política.

O feminismo produziu mudanças inegociáveis. As mulheres colocaram luz onde antes havia silêncio: desigualdades, microviolências, assédio no trabalho, chantagem afetiva, controle disfarçado de proteção, humilhação cotidiana, abuso tratado como “briga de casal”. Esse processo muda a linguagem, empurra protocolos, aperta empresas, constrange instituições, cria uma espécie de alfabetização social. Só que o aprendizado fica concentrado do lado que sofre. E, quando a conversa não chega ao outro lado, a roda gira em falso.
O machismo não cria apenas agressores, fabrica expectativas impossíveis. Meninos aprendem cedo que sentir é fraqueza, pedir ajuda é vergonha, ceder é perda de status, ser rejeitado é insulto, mandar é o destino natural. Quando o feminismo contemporâneo desmonta esses privilégios, sobra ressentimento, confusão, raiva. Uma parcela transforma isso em controle, outra em hostilidade, outra em silêncio. Sem um debate público sobre masculinidade, a violência é diagnosticada como produto social, mas segue enfrentada como soma de casos isolados, sem um tratamento à altura do problema.
É por isso que 2026 pode consolidar uma virada: a pauta passa a ser abraçada por quem tem poder de mudar a vida concreta, governos, parlamentares, gestores de educação, sistema de Justiça, profissionais de saúde, escolas, famílias, igrejas, empresas, projetos esportivos, organizações sociais. É o tipo de tema que só funciona quando vira responsabilidade compartilhada, não uma cobrança jogada no colo de quem apanha. O núcleo é o mesmo: o que a sociedade faz para formar homens capazes de conviver com a autonomia feminina sem recorrer à coerção.

E é importante que essa bandeira também seja levantada por conservadores. Não por milagre de redenção, mas por pragmatismo. Se a prevenção ficar carimbada como agenda “de esquerda”, ela vira pauta ideológica, perde alcance e morre na intenção. A discussão precisa ser abraçada por políticos de todo o espectro, ainda que com rótulos diferentes, como família, segurança pública, igualdade, valores, mas com o mesmo desafio: reduzir as agressões contra as mulheres.
A resposta não é palestra, nem cartilha para “homem desconstruído” de classe média. É política pública com capilaridade: creche, escola, curso técnico, esporte, cultura, campanhas de comunicação que falem com realidades diversas, formação docente para lidar com conflito, ferramentas de responsabilização que não dependam só do cárcere, paternidade presente como política, saúde mental acessível, Justiça que funcione, responsabilize e reduza a reincidência.
Trata-se de alcançar classes, territórios e repertórios distintos sem moralismo, sem deboche, sem guerra cultural. Menino não aprende masculinidade só no colégio: aprende em casa, na rua, na igreja, no time, no celular. A política precisa entrar onde a vida acontece.
A pauta do feminismo em 2026 precisa ser o homem não porque mulheres devam “cuidar deles”, e sim porque ninguém interrompe uma epidemia conversando apenas com as vítimas. Se eles não entram no debate como sujeitos do problema e da solução, o país segue alternando hashtags, luto e estatística.
Prevenir a violência contra mulheres mexerá nas estruturas sociais, dará muito trabalho, exigirá investimento e paciência. Mas é urgente.












