Exames de vista podem apontar sinais de doenças como hipertensão e diabetes.
Blog do Eloilton Cajuhy – BEC
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Poucas partes do corpo humano permitem observar diretamente os vasos sanguíneos sem qualquer procedimento invasivo. A retina, no fundo do olho, é uma delas, e é por isso que o exame oftalmológico de rotina é uma ferramenta de rastreio não apenas para doenças oftalmológicas, mas também para hipertensão e diabetes.
De acordo com a OMS, 2,2 bilhões de pessoas no mundo têm algum grau de deficiência visual, das quais ao menos 1 bilhão poderia ter sido evitado ou ainda não recebeu tratamento. A deficiência visual evitável já custa US$ 411 bilhões por ano em produtividade perdida ao redor do mundo, segundo estimativa da Comissão Lancet para Saúde Ocular Global.
Para a Dra. Carla Patrícia Silva e Prado, médica cardiologista e professora de Medicina da Faculdade São Leopoldo Mandic, esse dado costuma ser subestimado quando se olha apenas pela ótica da visão. “Quando pedimos um exame de fundo de olho, não estamos avaliando só a capacidade de enxergar. Estamos olhando para os vasos sanguíneos do paciente com uma riqueza de detalhes que nenhum outro exame não invasivo oferece”, afirma.
Essa não é uma hipótese nova. A retinopatia hipertensiva, lesão nos vasos da retina causada pela pressão alta, é reconhecida pela medicina há décadas e tem diferentes graus de gravidade, conforme a extensão do dano aos vasos. Diretrizes médicas recomendam exame de fundo de olho anual para quem já tem hipertensão diagnosticada.
Um estudo brasileiro publicado nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia identificou sinais da condição em 23% dos hipertensos, contra 2,64% das pessoas com pressão normal. O mesmo raciocínio vale para a retinopatia diabética, hoje parte do protocolo padrão de acompanhamento de pacientes com diabetes.
De acordo com a Dra. Carla, sinais de retinopatia hipertensiva ou diabética costumam aparecer no exame de vista antes de o paciente relatar qualquer sintoma. “É comum um paciente descobrir que tem pressão alta ou diabetes durante uma consulta de rotina com o oftalmologista, não com o cardiologista ou o endocrinologista. O olho muitas vezes fala primeiro”, revela a médica cardiologista que também acompanha um campo de pesquisa mais recente, batizado de oculômica, que investiga o uso de inteligência artificial em imagens de retina para prever riscos cardiovasculares mais amplos, como insuficiência cardíaca e AVC.
Uma pesquisa publicada em 2025 na Nature Reviews Cardiology, que reuniu médicos e cientistas de diferentes instituições dos Estados Unidos para avaliar o estado atual desse campo, mostra o interesse científico crescente no tema. “É uma fronteira promissora, mas ainda em fase de estudo. O que já é consenso e prática clínica estabelecida é o rastreio de hipertensão e diabetes pelo olho. A leitura mais ampla do risco cardiovascular pela retina, usando inteligência artificial, ainda está sendo validada e não é rotina no consultório”, pondera.
Para a médica, o hábito de associar o exame de vista apenas à qualidade da visão ainda é um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce de outras condições. “Formamos o médico para olhar o paciente de forma integrada, não por especialidade isolada. Um exame de rotina pode e deve ser a porta de entrada para investigar a saúde como um todo, não só os olhos”, avalia.
Essa é uma preocupação que a professora leva também para dentro das salas de aula da Mandic. Formar médicos capazes de reconhecer esses sinais cedo é parte central da proposta pedagógica do curso. “Ensinar o aluno a enxergar o corpo inteiro através de um único exame é treinar um raciocínio clínico que vai acompanhá-lo em toda a carreira”, completa.
A recomendação prática, segundo a especialista, é simples: exame oftalmológico completo pelo menos uma vez por ano, sobretudo para quem tem histórico familiar de hipertensão ou diabetes. “Não é preciso esperar sintomas para procurar o oftalmologista. Muitas vezes, o primeiro sinal de hipertensão ou diabetes aparece no olho antes de aparecer em qualquer outro lugar”, conclui.














