Trump prepara terreno para não reconhecer vitória de Lula — e o caso da embaixadora faz parte da estratégia

FONTE: Revista Fórum

Blog do Eloilton Cajuhy – BEC

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Lula durante encontro com Trump na Malásia – 📷 Andrew Caballero Reynolds / AFP

A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, não é um episódio isolado nem uma simples retaliação diplomática. É mais um movimento do governo Donald Trump para ampliar a tensão com o Brasil, desgastar Lula e preparar o ambiente político para uma possível contestação do resultado das eleições brasileiras.

A justificativa oficial dos Estados Unidos é a de “reciprocidade”. O governo estadunidense afirma que reagiu à demora do Brasil em aprovar o nome do novo embaixador norte-americano em Brasília e à decisão brasileira de negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA. É uma desculpa tão esfarrapada quanto aquela usada para justificar o tarifaço contra o Brasil.

Não havia desequilíbrio comercial que sustentasse tecnicamente as tarifas impostas por Trump. A motivação sempre foi política: pressionar o governo Lula, punir autoridades e favorecer o bolsonarismo. Agora, a mesma estratégia reaparece no terreno diplomático.

O governo brasileiro respondeu com uma nota contundente. Lembrou que não existe prazo determinado para a concessão de agrément a um embaixador e afirmou que os dois funcionários norte-americanos pretendiam vir ao Brasil para questionar o sistema eleitoral.

A conclusão do comunicado do governo Lula foi direta: “Fica óbvio o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.

O Itamaraty apenas colocou no papel aquilo que a sucessão de acontecimentos já demonstra. “A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”.

Desde o ano passado, o governo Trump vem transformando instrumentos econômicos e diplomáticos em armas contra o Brasil.

Vieram o tarifaço, as restrições de vistos, as sanções a autoridades brasileiras e a pressão sobre o Judiciário. Em diversas ocasiões, o próprio governo norte-americano relacionou as punições à situação política e judicial de Jair Bolsonaro.

Não se tratava de corrigir relações comerciais, defender princípios jurídicos ou proteger interesses diplomáticos legítimos. Tratava-se de prejudicar o Brasil para enfraquecer Lula e beneficiar os Bolsonaro.

Eduardo Bolsonaro assumiu papel central nessa ofensiva. Instalado nos Estados Unidos, passou a fazer lobby por sanções contra autoridades e instituições brasileiras, trabalhando para que uma potência estrangeira impusesse prejuízos ao seu próprio país em benefício de sua família.

A tentativa de enviar dois funcionários do Departamento de Estado ao Brasil também integra essa estratégia. Segundo autoridades brasileiras, eles pretendiam questionar a integridade das eleições. Os EUA alegaram que seria uma missão rotineira, destinada a discutir democracia, liberdade de expressão e integridade eleitoral.

Mas o governo Trump não desembarcaria no Brasil como observador neutro. Já havia adotado sanções para defender Bolsonaro, recebido Eduardo Bolsonaro em articulações contra o país e demonstrado alinhamento explícito com a candidatura de Flávio.

Ao negar os vistos, o Brasil impediu que representantes do governo norte-americano reproduzissem, com selo diplomático, a encenação realizada por Jair Bolsonaro em 2022, quando convocou embaixadores para atacar as urnas eletrônicas. Agora, Trump utiliza essa negativa para ampliar a crise.

O método é simples: cria-se uma situação inaceitável para o Brasil. Quando o governo brasileiro reage, a reação passa a ser apresentada como prova de hostilidade.

Dentro do Brasil, Flávio Bolsonaro cumpre sua parte. O candidato do PL repetiu seu pai e reuniu diplomatas estrangeiros, colocando em dúvida a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Para sustentar sua narrativa, usou uma investigação, justamente dos EUA, sobre urnas e empresas ligadas ao processo eleitoral da Venezuela. O caso não tinha relação com as urnas utilizadas no Brasil. Mesmo assim, Flávio misturou Venezuela, Smartmatic, inteligência norte-americana e eleições brasileiras para produzir uma associação falsa. Não foi confusão. Foi estratégia.

O objetivo não é convencer especialistas, mas criar vídeos, manchetes e declarações que possam circular no exterior e servir de argumento depois da votação.

A narrativa já está montada. Se Flávio vencer, as urnas serão confiáveis. Se Lula vencer, o sistema será atacado, o TSE será acusado de parcialidade e o governo brasileiro será apresentado como hostil aos Estados Unidos por ter barrado funcionários do Departamento de Estado e demorado a aceitar o embaixador indicado por Trump. A crise diplomática fabricada agora poderá ser usada mais adiante como justificativa para questionar ou não reconhecer o resultado.

Trump já fez isso nos Estados Unidos. Em 2020, ele não inventou a narrativa de fraude depois da derrota para Joe Biden. Passou meses preparando seus apoiadores para rejeitar qualquer resultado que não fosse sua vitória. Quando perdeu, a mentira já estava pronta. É o mesmo terreno que está sendo preparado no Brasil.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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