Blog do Eloilton Cajuhy – BEC
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A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, não é um episódio isolado nem uma simples retaliação diplomática. É mais um movimento do governo Donald Trump para ampliar a tensão com o Brasil, desgastar Lula e preparar o ambiente político para uma possível contestação do resultado das eleições brasileiras.
A justificativa oficial dos Estados Unidos é a de “reciprocidade”. O governo estadunidense afirma que reagiu à demora do Brasil em aprovar o nome do novo embaixador norte-americano em Brasília e à decisão brasileira de negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA. É uma desculpa tão esfarrapada quanto aquela usada para justificar o tarifaço contra o Brasil.
Não havia desequilíbrio comercial que sustentasse tecnicamente as tarifas impostas por Trump. A motivação sempre foi política: pressionar o governo Lula, punir autoridades e favorecer o bolsonarismo. Agora, a mesma estratégia reaparece no terreno diplomático.
O governo brasileiro respondeu com uma nota contundente. Lembrou que não existe prazo determinado para a concessão de agrément a um embaixador e afirmou que os dois funcionários norte-americanos pretendiam vir ao Brasil para questionar o sistema eleitoral.
A conclusão do comunicado do governo Lula foi direta: “Fica óbvio o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”.
O Itamaraty apenas colocou no papel aquilo que a sucessão de acontecimentos já demonstra. “A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”.
Uma crise construída deliberadamente
Desde o ano passado, o governo Trump vem transformando instrumentos econômicos e diplomáticos em armas contra o Brasil.
Vieram o tarifaço, as restrições de vistos, as sanções a autoridades brasileiras e a pressão sobre o Judiciário. Em diversas ocasiões, o próprio governo norte-americano relacionou as punições à situação política e judicial de Jair Bolsonaro.
Não se tratava de corrigir relações comerciais, defender princípios jurídicos ou proteger interesses diplomáticos legítimos. Tratava-se de prejudicar o Brasil para enfraquecer Lula e beneficiar os Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro assumiu papel central nessa ofensiva. Instalado nos Estados Unidos, passou a fazer lobby por sanções contra autoridades e instituições brasileiras, trabalhando para que uma potência estrangeira impusesse prejuízos ao seu próprio país em benefício de sua família.
A tentativa de enviar dois funcionários do Departamento de Estado ao Brasil também integra essa estratégia. Segundo autoridades brasileiras, eles pretendiam questionar a integridade das eleições. Os EUA alegaram que seria uma missão rotineira, destinada a discutir democracia, liberdade de expressão e integridade eleitoral.
Mas o governo Trump não desembarcaria no Brasil como observador neutro. Já havia adotado sanções para defender Bolsonaro, recebido Eduardo Bolsonaro em articulações contra o país e demonstrado alinhamento explícito com a candidatura de Flávio.
Ao negar os vistos, o Brasil impediu que representantes do governo norte-americano reproduzissem, com selo diplomático, a encenação realizada por Jair Bolsonaro em 2022, quando convocou embaixadores para atacar as urnas eletrônicas. Agora, Trump utiliza essa negativa para ampliar a crise.
O método é simples: cria-se uma situação inaceitável para o Brasil. Quando o governo brasileiro reage, a reação passa a ser apresentada como prova de hostilidade.
Flávio prepara a narrativa da fraude
Dentro do Brasil, Flávio Bolsonaro cumpre sua parte. O candidato do PL repetiu seu pai e reuniu diplomatas estrangeiros, colocando em dúvida a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Para sustentar sua narrativa, usou uma investigação, justamente dos EUA, sobre urnas e empresas ligadas ao processo eleitoral da Venezuela. O caso não tinha relação com as urnas utilizadas no Brasil. Mesmo assim, Flávio misturou Venezuela, Smartmatic, inteligência norte-americana e eleições brasileiras para produzir uma associação falsa. Não foi confusão. Foi estratégia.
O objetivo não é convencer especialistas, mas criar vídeos, manchetes e declarações que possam circular no exterior e servir de argumento depois da votação.
A narrativa já está montada. Se Flávio vencer, as urnas serão confiáveis. Se Lula vencer, o sistema será atacado, o TSE será acusado de parcialidade e o governo brasileiro será apresentado como hostil aos Estados Unidos por ter barrado funcionários do Departamento de Estado e demorado a aceitar o embaixador indicado por Trump. A crise diplomática fabricada agora poderá ser usada mais adiante como justificativa para questionar ou não reconhecer o resultado.
Trump já fez isso nos Estados Unidos. Em 2020, ele não inventou a narrativa de fraude depois da derrota para Joe Biden. Passou meses preparando seus apoiadores para rejeitar qualquer resultado que não fosse sua vitória. Quando perdeu, a mentira já estava pronta. É o mesmo terreno que está sendo preparado no Brasil.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum














