Falas de desembargadores em julgamento de pensão alimentícia geram repercussão: ‘Ninguém quer mais trabalhar’

Caso analisado envolve mulher que sofreu violência doméstica em Guanambi, na Bahia. Decisão final ampliou valor da pensão, mas declarações durante sessão provocaram críticas

Por g1 BA e TV Bahia

>> Siga o canal do BEC no WhatsApp

Foto: Alan Oliveira/g1

Um julgamento realizado na última terça-feira (24), na Câmara Cível do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), provocou repercussão após a divulgação de falas de desembargadores durante a análise de um caso de pensão alimentícia envolvendo uma mulher vítima de violência doméstica, moradora de Guanambi, no sudoeste do estado.

Segundo apuração da TV Bahia, o relacionamento começou quando ela ainda era menor de idade e a mulher teria sido impedida de trabalhar por cerca de dez anos pelo ex-marido. Atualmente, ela vive de favor na casa de amigos e tenta retomar a vida com um filho, fruto da relação.

Durante a sessão, o relator votou pela fixação de pensão provisória de um salário mínimo pelo período de 12 meses. Após a apresentação do voto, houve divergência entre os magistrados, especialmente em relação ao valor e à duração do benefício.

Uma das desembargadoras defendeu o aumento da pensão e a retirada do prazo fixo.

“O único reparo que eu faço é o valor da pensão. Eu acho que o salário mínimo é muito pouco. Se o filho tem direito a três salários mínimos, ela também tem”, afirmou. Ao justificar a posição, destacou o contexto da vítima.

“Ela mora em uma cidade pequena, Guanambi, que não deve ter esse mercado de trabalho tão extenso para ela se recompor moralmente e psicologicamente pode durar muito além disso”, afirmou a magistrada.
Um desembargador, que segundo apuração da TV Bahia chama-se Francisco Oliveira Bispo, no entanto, se posicionou contra a ampliação do benefício. “Depois da separação é vida nova, tem que lutar, tem que ir em frente”, declarou, ao afirmar que o agressor já estaria sendo responsabilizado por meio de outras medidas.

Outro desembargador, identificado como José Reginaldo Costa, demonstrou preocupação com o que chamou de possível “ociosidade” da mulher.

“Esses alimentos devem ser vistos com muita cautela, para não estimular a ociosidade. Daríamos o mesmo tratamento se fosse o inverso? O homem não tem perspectiva de gênero nesse ponto. Eu julgo de forma isenta”, afirmou.
Durante o debate, ele também comentou o valor total das pensões, que poderia chegar a seis salários mínimos, e fez referência à realidade do município. “Talvez seja o salário do prefeito de Guanambi. No interior, se a gente procura uma diarista, não encontra. Ninguém quer mais trabalhar”, disse.

As declarações foram contestadas por outros integrantes da câmara, que destacaram a necessidade de análise sob a perspectiva de gênero e as condições de vulnerabilidade da vítima. “A perspectiva de gênero é obrigatória. Nós temos que analisar protegendo desigualmente os desiguais”, afirmou uma magistrada.

Outro desembargador também rebateu os argumentos, ressaltando o histórico de violência. “A única presunção aqui é de que ela é hipervulnerável. Ela apanhou a vida toda”, declarou.

Ao longo da sessão, magistrados destacaram ainda o impacto psicológico e social enfrentado pela mulher. “Essa mulher deve estar extremamente traumatizada, morando na casa dos outros, com um filho para sustentar. Fixar doze meses é cruel”, afirmou uma das desembargadoras.

O debate incluiu menções a diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que orientam julgamentos com base na perspectiva de gênero, considerando desigualdades estruturais e o contexto de violência doméstica.

Ao final, por maioria, a câmara decidiu ampliar o valor da pensão para três salários mínimos e retirar o prazo fixo, determinando que o pagamento seja mantido até que a mulher consiga se reinserir no mercado de trabalho.

Apesar do desfecho mais favorável à vítima, as falas registradas durante o julgamento repercutiram negativamente nas redes sociais e geraram críticas, especialmente por trechos considerados como minimização dos efeitos da violência doméstica e por associações feitas à situação econômica da mulher.

A TV Bahia procurou o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), mas não houve retorno até a última atualização desta reportagem.

Veja também

Emprego: Sinebahia abre 19 vagas

Os interessados devem comparecer ao Central Shopping a partir das 7h, portando documentos pessoais Por Blog do Eloilton Cajuhy – BEC >>