Resgate foi realizado por vizinhos. Namorado dela continua desaparecido
Por Juliana Leal, g1 Zona da Mata — Ubá
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Um vídeo de poucos segundos retrata a resistência de uma mulher que se agarrou por três horas a um poste, em uma luta dramática pela vida. Edna Almeida Silva, de 56 anos, moradora do Centro de Ubá, na Zona da Mata mineira, sobreviveu à força da enxurrada durante a maior inundação dos últimos anos no município. Assista ao vídeo acima.
“Eu dei tudo o que eu tinha e o que Deus me deu para sobreviver. Foi um milagre, minha fé me salvou. E, dentro do possível, eu estou tentando me recuperar. Ontem eu já consegui jantar um pouquinho; hoje eu consegui tomar um cafezinho”, contou, emocionada, ao g1.
Três dias após a tempestade que levou a casa e o restaurante que tinha, localizados na rua Camilo dos Santos, Edna vive um misto de gratidão por ter sobrevivido e de dor por tudo o que a água levou.
A perda material, porém, não se compara à angústia que ela enfrenta enquanto espera notícias do namorado, Luciano Franklin Fernandes, de 50 anos, com quem pretendia se casar no próximo mês. Ele também estava na casa na segunda-feira (23), mas foi levado pela enxurrada e é um dos dois desaparecidos em Ubá.
A batalha pela vida em meio à enxurrada

Na noite de segunda-feira (23), Edna estava em casa com o namorado e o filho, de 31 anos. A chuva começou fraca, mas, com o passar das horas, ganhou força. Ela acordou todos, e tentaram tirar os carros da garagem, mas não imaginavam que a água seria mais rápida. Na madrugada, o rio que passa atrás da residência transbordou e se transformou em uma forte enxurrada.
“Não tive tempo de raciocinar. A água subindo, subindo, subindo. E então deu aquele estrondo, e parecia que a água fez um redemoinho e me derrubou. Fiquei submersa. Eu não sei nadar, não sei sair da água. A única coisa que me veio à mente foi pedir: ‘Senhor, não me deixe morrer afogada’”, relembrou.
As mãos de Edna alcançaram algo arredondado. Ao perceber que era um poste, ela o abraçou com todas as forças. Aproveitou os entulhos trazidos pela água para subir o mais alto que conseguia e manter o rosto fora d’água.
Foi nesse momento que ela viu um vizinho na sacada e gritou por ajuda. Momentos depois, outro morador conseguiu jogar uma corda, que ajudou Edna a se manter próxima ao poste até que o volume da água diminuísse.
“Meu vizinho falou ‘você não vai mais embora, estou te segurando’. Mas eu estava perdendo força e eles falavam para eu ter paciência, para eu ter fé. Quando eu consegui encostar o pé no chão, me puxaram e colocaram na janela de uma casa. Eu só perguntei: ‘Moço que horas são?’ Ele falou pra mim ‘Dona Edna, são 5h20 da manhã’”, relembrou.
O sol começava a nascer quando Edna soube que havia ficado cerca de três horas em meio à enxurrada, agarrada ao poste. O resgate aconteceu sob aplausos de moradores que acompanharam a cena.
À espera de um novo milagre
Depois que saiu da água, Edna tomou banho quente na casa de uma vizinha e, em seguida, foi até o restaurante, que fica a 150 metros da residência. Ao ver tudo destruído, chorou.
“Eu peguei a única cadeira que sobrou, sentei e fiquei olhando. Eu agradecia. ‘Senhor, obrigada por eu e o Bruninho estarmos vivos. Não tenho roupa, não tenho calçado, não tenho telefone, não tenho documento. Só sobrou a minha vida pra recomeçar’”.
Nas redes sociais, familiares começaram uma campanha para arrecadar dinheiro e doações para esse recomeço. A empresária agora acompanha as buscas pelo namorado. Após ter vivido o que considera um milagre, Edna acredita — e espera — que outro possa acontecer.
“Eu ainda tenho esperança de encontrar ele em hospital ou outra cidade, não sei. Mas, do jeito que estava a enchente, é só outro milagre”, concluiu.












