Filho de idoso com pinça no corpo pediu para ver tomografia, mas hospital negou; paciente morreu

Manuel de Brito faleceu no dia 24 de dezembro, véspera do Natal. Secretaria de Saúde de João Pinheiro (MG) informou que apura o caso

Por Caroline Aleixo, g1 Triângulo — Uberlândia

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Tomografia mostrou pinça cirúrgica dentro do corpo do paciente após cirurgia em João Pinheiro — Foto: Rádio Nova FM/Arquivo Pessoal/Reprodução

O filho de Manuel Cardoso de Brito, idoso que morreu após duas cirurgias no Hospital Municipal de João Pinheiro, afirma que tentou obter os laudos das tomografias do pai depois de receber uma denúncia sobre o possível erro médico, mas não conseguiu.

Manuel faleceu no dia 24 de dezembro, na véspera do Natal. A família acusa a unidade de saúde de ter esquecido uma pinça cirúrgica dentro do corpo do paciente, fato que só veio à tona após o óbito.

Em nota pública, a Secretaria Municipal de Saúde de João Pinheiro confirmou que houve a retirada de um corpo estranho durante a cirurgia do paciente e alegou que Manuel estava em estado grave, com várias comorbidades. A pasta informou ainda que reforçou protocolos de segurança e notificou a abertura de sindicância para apuração rigorosa do caso. Leia mais abaixo.

O g1 questionou a pasta sobre a negativa de apresentar os laudos à família, mas não houve resposta até a última atualização da reportagem.

Segundo Samuel Cardoso Rezende de Brito, de 31 anos, o hospital teria negado acesso aos exames mesmo após ele ter ido pessoalmente solicitar os laudos.

Samuel Cardoso com o pai Manuel — Foto: Arquivo pessoal

Samuel relatou ainda que, após a segunda cirurgia, foi chamado ao hospital para conversar com o médico responsável.

“Eles me ligam e falam que o doutor queria conversar comigo. E lá eles falam que precisaram fazer a segunda cirurgia porque meu pai estava com pus. Aí eu perguntei para o doutor qual foi a causa desse pus. E ele falou ‘é que esqueceram um dreno dentro dele’. Eu já estava com a cabeça ruim por tudo o que estava acontecendo com meu pai, e para mim era algo normal”, disse.

Segundo Samuel, ele não associou que o dreno mencionado poderia ser um instrumento hospitalar e afirma que a equipe não deu detalhes sobre o procedimento, nem sobre o objeto retirado.

De acordo com o Boletim de Ocorrência (BO), Manuel passou por uma cirurgia de urgência no dia 5 de dezembro, após ser internado com uma úlcera gástrica. A equipe médica informou que o procedimento havia transcorrido normalmente. O paciente permaneceu dois dias na UTI e depois foi transferido para o quarto.

Durante a internação, o filho foi visitá-lo e percebeu que o pai estava com dificuldade de se alimentar. A cuidadora também relatou que Manuel apresentou sinais de dor e sonolência excessiva. Foi então que Samuel pediu para ela questionar o quadro na próxima visita do médico ao paciente.

Foi então que no dia 11 de dezembro, foi feita a tomografia. Logo depois, segundo relato dos familiares, profissionais chegaram ao quarto de forma apressada e levaram o paciente para uma nova cirurgia, sem explicar os motivos e sem solicitar autorização formal da família.

“Eles voltaram e buscaram ele pra fazer a cirurgia, aí nessa cirurgia eles não comunicaram e nem deixaram a cuidadora que estava com ele acompanhar. Não chegou a pedir ela pra ir, nem para comunicar a família”, contou o filho do paciente, Samuel Cardoso Rezende de Brito.

Depois da segunda cirurgia, Manuel voltou para a UTI. Ele ficou 13 dias internado, mas não resistiu e morreu.

Samuel acredita que o pai poderia estar vivo se não fosse o suposto erro médico e necessidade de segunda cirurgia.

“A Secretaria Municipal de Saúde e a Administração Pública Municipal vêm, por meio desta, prestar esclarecimentos a respeito do falecimento do Sr. Manoel Cardoso de Brito, ocorrido no Hospital Municipal Antônio Carneiro Valadares. O referido paciente deu entrada no hospital no dia 05 de dezembro de 2025, encaminhado pela UPA, apresentando quadro grave de vômitos com sangramento, associado a sequelas neurológicas importantes e rebaixamento do nível de consciência. Nessa ocasião, foi identificado um corpo estranho na cavidade abdominal. Imediatamente, a acompanhante foi comunicada da necessidade de reabordagem cirúrgica, sendo o paciente prontamente encaminhado ao centro cirúrgico.

Durante o segundo procedimento, não foi constatada perfuração de alça intestinal, e as suturas do procedimento anterior encontravam-se íntegras. O procedimento foi realizado sem intercorrências adicionais. No dia seguinte, a família foi novamente informada sobre o procedimento realizado, bem como sobre a identificação e retirada do corpo estranho.

Ressalta-se que o paciente deu entrada na unidade hospitalar em estado clínico extremamente debilitado, com quadro infeccioso já instalado, idade avançada e histórico de cardiopatia, diabetes, arritmia cardíaca e graves sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), condições que contribuíram significativamente para a evolução do quadro e para o desfecho ocorrido. Ao tomar conhecimento dos fatos, a Direção Administrativa e Técnica do Hospital adotou imediatamente todas as providências cabíveis, incluindo a notificação de evento adverso, a apuração das barreiras de segurança, o reforço dos protocolos de segurança do paciente, bem como a notificação à ANVISA, para instauração de sindicância e apuração rigorosa dos fatos. Também foi realizada reunião com toda a equipe cirúrgica, com registro em ata das medidas adotadas.

Por fim, o Município manifesta sua solidariedade aos familiares e reafirma que permanece à disposição para prestar toda a assistência necessária, bem como para fornecer esclarecimentos adicionais, sempre pautado pela ética, responsabilidade e compromisso com a saúde pública”.

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