Justiça Federal reconhece legalidade do abate de jumentos no Brasil; caso divide opiniões

Decisão foi comemorada por parte do setor produtivo, mas levanta preocupação de ativistas

Por Izabel Gimenez/Globo Rural — São Paulo

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TRF1 entendeu que frigoríficos com SIF seguem as normas sanitárias — Foto: Getty Images

A discussão sobre o abate de jumentos voltou ao centro do debate nacional após o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) reconhecer a legalidade da atividade. A decisão, divulgada no início de novembro, reforça o entendimento de que os frigoríficos certificados com Serviço de Inspeção Federal (SIF) seguem as normas sanitárias e de bem-estar previstas em lei.

Na decisão, o TRF1 destaca que não houve comprovação de irregularidades na cadeia de transporte, fiscalização e abate dos animais. Além disso, considera que a interrupção anterior dos abates provocou prejuízos a uma atividade formalmente regulada, responsável pela renda de diversas famílias.

O processo, porém, permanece em movimento. Segundo o advogado Yuri Fernandes Lima, que representa a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, embargos de declaração já foram apresentados, e novas etapas judiciais devem chegar ao STJ e ao STF.

Lima enfatiza que a decisão “não possui definitividade”, e aponta uma série de fatores que, na visão dele, ajudam a sustentar a continuidade das ações contrárias à prática. Entre eles, o caráter extrativista do abate, já que não há cadeia produtiva estruturada, o risco de extinção, estimado em 94%, e o fato do animal ser um símbolo cultural diretamente relacionado ao artigo 216 da Constituição.

Do outro lado da discussão, a decisão foi recebida como uma conquista pelo setor produtivo, que vê no abate uma alternativa para enfrentar o abandono em massa de jumentos nas estradas do semiárido. A expectativa é de que a confirmação jurídica estimule novos negócios e fortaleça uma cadeia que atende, principalmente, à demanda chinesa por carne e pele, matéria-prima usada na produção do ejião, consumido amplamente naquele país.

O zootecnista Alex Bastos argumenta que a atividade abre caminho para transformar um cenário de abandono em política pública. Para ele, é necessário que o debate seja pautado por dados e responsabilidade técnica.

Nos últimos anos, diferentes instâncias da Justiça também se posicionaram sobre o tema. O Tribunal de Justiça da Bahia, por exemplo, rejeitou em 2025 a suspensão dos abates, destacando o impacto socioeconômico que isso teria para trabalhadores da região.

Enquanto isso, a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos garante que “continuará lutando pela proteção desses animais e pela preservação de sua função ecológica e cultural, garantindo que seus direitos sejam respeitados e que medidas efetivas sejam tomadas em defesa do meio ambiente e da saúde pública”.

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