Morre o autor Luis Fernando Verissimo, cronista que uniu gerações de leitores, aos 88

Escritor deixa legado de humor fino e observação social e se tornou uma das vozes mais queridas e reconhecidas do país.

Luís Augusto Fischer/Folha de S.Paulo

Foto: Mateus Bruxel/Folhapress

O escritor Luis Fernando Verissimo morreu na madrugada deste sábado, aos 88 anos. A informação foi confirmada por sua mulher, Lucia Verissimo. Ele estava internado na UTI do hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, desde o dia 11.

Segundo o hospital, a morte foi decorrente das complicações de uma pneumonia. Ainda não há informações sobre o velório. Em reclusão havia anos, o autor vinha lidando com as consequências de um acidente vascular cerebral (AVC) que sofreu em 2021, quando deixou de escrever suas crônicas. Ele deixa a mulher, três filhos e dois netos.

Foram mais de 50 anos de textos escritos para jornais e revistas, quase 40 anos de livros publicados — nos dois casos quase sempre entre os mais lidos e queridos do país — sem jamais abandonar sua posição nítida no campo da esquerda reformista.

Milhares de páginas escritas para bem-sucedidos programas de humor de televisão, centenas de sensíveis comentários sobre cultura exigente — livros, filmes, peças, espetáculos, shows —, muitos relatos de viagem ao redor do planeta, com preferência para a França e os Estados Unidos, mas sem negligenciar os festivais e feiras de livro Brasil afora, em todos os casos com sucesso notável de público.

Conferencista relutante, entrevistado lacônico; parceiro musical competente no campo do jazz, amigo certo e solidário com jovens escritores; sutil observador do futebol e torcedor confirmado do Internacional.

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Foi um filho que honrou a memória de seu pai, escritor maiúsculo, não por ser também escritor, mas por zelar pela permanência de sua obra. E dono de pose artística igual a zero, acessível e gentil sem abrir mão de sua modéstia e sua timidez, que não são a mesma coisa.

Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

Era competente domador da língua em que escreveu, com rapidez, força, precisão e humor fino, tendo nela inscrito algumas figuras imorredouras, como o Analista de Bagé, o detetive Ed Mort e a Velhinha de Taubaté.

Luis Fernando Verissimo, como se constata rapidamente, é um caso raro em sua profissão, pela soma de suas virtudes, que ficam melhores ainda com a enumeração de suas idiossincrasias.

Quanto prazer intelectual têm causado os milhões de exemplares de seus livros que neste exato momento estão sendo retirados de prateleiras em todo o país para leitura ou, mais provavelmente, releitura atenta, a leitores dos mais maduros aos mais jovens, de intelectuais sofisticados a alunos da sétima série? De quantos outros escritores poderemos dizer o mesmo, em qualquer tempo e em qualquer língua?

Vale explicitar algumas dessas experiências. Filho de Erico Verissimo, escritor de imenso público leitor — traço raro mesmo em sua geração, de grandes romancistas — e consagrado ainda em vida, Luis Fernando Verissimo demorou para definir seu mergulho no metiê letrado.

Nascido em 1936, viveu anos essenciais de sua formação nos Estados Unidos, quando o pai trabalhava primeiro em Los Angeles, de 1944 a 1945, depois na costa atlântica, em Washington, de 1953 a 1956, o que o habilitou na vivência em inglês num nível profundo.

Algo do ritmo de seu texto maduro por certo poderá ter origem nesse bilinguismo. Foi nesses anos da adolescência que estudou sax e assistiu a shows agora lendários, em Nova York.

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

Foi redator publicitário por alguns anos e entrou para o mundo do jornalismo autoral meio por acaso, em 1969, para cobrir férias de um então prestigiado cronista porto-alegrense.

Quase imediatamente seu texto fluente e bem-humorado alcançava outros níveis, com uma criatividade inesperada. Fajutava a coluna de horóscopo com um deboche novo, inventava lugares de diversão, sugeria roteiros imaginários, num momento de grande controle da censura sobre os jornais, de grande medo da invenção livre.

Verissimo foi iniciador e protagonista de uma modalidade de criação literária que, com o tempo, teve importantes praticantes, muitos dos quais nascidos na redação publicitária. A diferença em seu favor era um fundo de cultura moderna sofisticada, em literatura, cinema e música, de que muito poucos dispunham.

Seu primeiro livro, “O Popular”, reunião de crônicas, foi lançado em 1973 e em pouco tempo encontrou leitorado maciço. Nisso mais uma vez foi iniciador e beneficiário de uma novidade hoje muito velha — exatamente em meados dos anos 1970 foi que a crônica como gênero literário passou a ser admitida em sala de aula.

Com sua verve, sua inteligência, seu manejo estimulante da língua portuguesa, a frase curta, os diálogos rápidos e certeiros, as situações narrativas de grande economia e alto rendimento, fez sucesso imenso e nunca mais saiu desse circuito de leitura.

Tanto sucesso de mercado teve, que, já no auge de sua carreira, com livro novo a cada ano e colunas para jornais de todo o país, além dos textos de humor para a televisão, em programas de Jô Soares e outros, foi objeto de uma ruidosa mudança de casa editorial.

Tendo feito muito sucesso na porto-alegrense L&PM, teve seu passe comprado pela Objetiva e relançado em grande estilo, o que projetou sua obra mais ainda no cenário nacional. Sem conhecer os números, podemos mesmo assim afirmar que seus contratos estão entre os mais valorizados de sua geração, ao lado de Rubem Fonseca e poucos outros.

Consagrado relativamente cedo como cronista de jornal e escritor de livros, Luis Fernando Verissimo alcançou a glória de ser plagiado, mal citado e arremedado infinitas vezes. Agora, é tratar de fixar nossa atenção em seu vasto legado, garantia de prazer espiritual para sempre.

Foto: Folhapress

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