OPINIÃO: Sempre haverá um cantinho para Belchior

*Por Mirielle Cajuhy

Foto: Cleo Velleda / Folhapress

Lembro-me como hoje da sensação ao escutar pela primeira vez “À palo seco”. Embora um clássico da música brasileira, só a ouvi em 2014. Estava aguardando uma consulta oftalmológica com os fones nos ouvidos. Tinha baixado algumas canções dele e colocado no celular, mas “o canto torto” era uma das que estavam em stand-by. Senti algo tão intenso como um soco no estômago, seguido de uma paz confusa, pois a princípio, não entendi muito bem o que a letra queria dizer. Foi naquele momento que o velho cearense de Sobral me conquistou pelo resto da vida.

Por um bom tempo só escutei suas canções. Mergulhei a fundo na sua obra. Cada composição descoberta, cada disco escutado, me faziam aprender mais sobre filosofia do que qualquer experiência anterior. Recordo que, em uma noite antes de dormir, enquanto sua voz ecoava em meu celular, peguei-me pensando: “o que eu tava fazendo da vida antes de escutar esse cara?”. Mais do que um compositor e cantor que aprendi a admirar, o senhor de coração selvagem, pra mim, foi isso. Um divisor de águas na minha percepção de música.

Ele lançou cerca de 20 discos e foi versátil sem perder o que tinha de mais genuíno. Passeou por sons psicodélicos, arriscou-se em caminhos mais “pop’s”, deu faces acústicas a canções já consagradas e vez ou outra disparava uns sons hispânicos em seus arranjos. Da lucidez de sua “Alucinação” até a geografia do seu “Pequeno mapa do tempo”, o rapaz latino-americano não deixou dúvidas de que havia nascido para a música. E não só para isso: ela havia nascido para ele, como um filho, que ao ser concebido já tem as características do pai.

O encanto pelo misterioso, o espírito de renovação, as paixões ardentes e incontroláveis, que fizeram jus ao seu Sol em Escorpião, não ficaram só no plano das composições. Por muitos anos, o artista nos angustiou com seus sumiços, com as notícias de acúmulo de dívidas e com os boatos sobre seu paradeiro. A quem ficou do lado de cá, no “suportar do dia-a-dia”, restou a esperança de um dia vê-lo de volta aos palcos, acompanhado do seu violão e do bigode inconfundível. Este parecia ter vida própria ao mover-se no ritmo da boca, junto com as falas e cantos. Arrisco-me a dizer que o bigode teve papel decisivo na transformação desse músico em um ícone. Quem sabe, as mechas acima dos lábios já carregavam a simbologia de sua arte, antes mesmo de seu dono consolidar-se como artista.

Filosofia, política, comportamento, psicologia, história, estiveram presentes nessa obra com força e simplicidade separadas pela linha tênue do amor. Intelectualidade na medida certa, com doses de metáforas, mas não tão simples que qualquer olhar desatento seja capaz de compreender. Ele nos propõe à reflexão sem perceber, e quando nos damos conta, já estamos submersos no universo de suas palavras. No dia do seu nascimento, nasceu também um novo conceito de mundo, arte e percepção de vida. Mas, agora, ao morrer, nada disso morre junto.

São poucos os que conseguiram e conseguirão permanecer vivos a partir de seus feitos. Menos ainda são os que permanecerão tão queridos e com um cantinho reservado na casa de tanta gente. Nos armários das salas, computadores, celulares, nos reminiscentes toca-discos, nos sons dos carros, nas mesas, nas paredes, e em tantos outros espaços da rotina dos brasileiros, sempre haverá um espaço guardado com carinho e honra para o velho Belchior.

*Mirielle Cajuhy – Estudante de jornalismo, repórter, cantora e compositora

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