Delator diz que negociou com Padilha entrega de dinheiro vivo ao PMDB

Foto: Pedro França/Agência Senado

O ex-funcionário da Odebrecht José Carvalho Filho afirmou nesta sexta-feira (10), em depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que negociou, em 2014, diretamente com o atual chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, o repasse de R$ 4 milhões da empreiteira para o PMDB. De acordo com o depoimento, o dinheiro em espécie deveria ser entregue em endereços em São Paulo indicados por Padilha (leia mais sobre o assunto ao longo da reportagem).

Os recursos que teriam sido negociados entre Carvalho Filho e Padilha seriam parte dos recursos que teriam sido combinados em um jantar no Palácio do Jaburu entre o presidente Michel Temer e o ex-presidente da Odebrecht Marcelo Odebrecht. Em nota enviada pela assessoria de imprensa, o ministro Eliseu Padilha informou que está em repouso por recomendação médica e que não irá se manifestar (leia o que disseram os outros citados ao final desta reportagem).

O jantar foi assunto no TSE durante depoimentos de três testemunhas que trabalharam na Odebrecht e também de duas acareações entre ex-dirigentes da empreiteira. Os depoimentos mobilizaram cinco tribunais do país, no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Bahia, no Paraná e em Brasília. Aqueles que não estiveram em Brasília para participar das oitivas no TSE foram ouvidos por videoconferência.

A primeira acareação foi entre Marcelo Odebrecht, o ex-diretor da empresa Benedicto Júnior, que era uma considerado uma ponte da empreiteira com politicos, e o ex-diretor do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht Hilberto Mascarenhas. O setor era conhecido como departamento de propina da empresa. Eles foram questionados sobre os gastos da empresa com campanhas eleitorais na última eleição, em 2014.

Os depoimentos foram sigilosos, mas a TV Globo apurou com diversas fontes que Marcelo Odebrecht voltou a dizer que, nos cálculos dele, foram destinados R$ 150 milhões, divididos entre caixa um e caixa dois. Benedicto Júnior afirmou que o valor total destinado para todas as campanhas que a Odebrecht ajudou a financiar chegou a R$ 200 milhões.

A segunda e mais importante acareação foi entre Marcelo Odebrecht e o ex-diretor da empresa Cláudio Mello Filho. Os dois foram confrontados porque prestaram informações conflitantes, no início do mês, sobre o repasse de R$ 10 milhões de reais para o PMDB na eleição de 2014. Eles mantiveram o que foi dito no primeiro depoimento ao TSE: Odebrecht reafirmou que o atual presidente Michel Temer, à época vice presidente, não estava presente quando foram definidos os valores que a empresa doaria para o partido, durante um jantar no Palácio do Jaburu.

Já Cláudio Mello insistiu que Temer não se ausentou da conversa em nenhum momento. A TV Globo apurou com as mesmas fontes que o ministro Herman Benjamin, relator da ação no TSE que pede a cassação da chapa Dilma-Temer – não insistiu na confrontação dos argumentos porque tanto Marcelo Odebrecht quanto Cláudio Mello Filho afirmaram que não se tratava de recursos para a chapa que concorreu à campanha presidencial, objeto da ação, e sim para o PMDB.

Repasse ao PMDB

O repasse para o PMDB, narrado pelos ex-dirigentes da Odebrecht, também foi assunto do depoimento de José de Carvalho Filho. Ele atuava na área de Relações Institucionais, segundo a Operação Lava Jato, participava de pagamentos a políticos. No depoimento, ele afirmou que Eliseu Padilha, hoje chefe da Casa Civil, foi o responsável pela distribuição de parte do dinheiro combinado no jantar do jaburu. O valor negociado com o peemedebista, segundo o depoimento, era de R$ 4 milhões.

Segundo o relato feito ao ministro Herman Benjamin, Carvalho acertou diretamente com Padilha o repasse dos recursos. O dinheiro seria entregue, em espécie, em endereços indicados pelo ministro em São Paulo. Em um dos endereços fica o escritório do advogado José Yunes, amigo de Michel Temer, e que deixou o governo após polêmica sobre o assunto. Também foi combinado a entrega de dinheiro em um hotel, segundo o ex-executivo.

Ainda de acordo com Carvalho, foi montado um planejamento para a distribuição dos recursos. Ele disse que a secretária do “departamento de propina”, Maria Lúcia Tavares, também ouvida nesta sexta pelo TSE, forneceu senhas para que Carvalho repassasse a Padilha: era uma senha para cada repasse.

Os receptadores do dinheiro deveriam repetir essas senhas no ato de recebimento quando encontrassem os entregadores.

Segundo Carvalho, ficaram acertadas senhas para valores diferentes:
13/8: R$ 1,5 milhão (foguete);
2/09 – R$ 1 milhão (árvore);
4/9 – R$ 1 milhão (morango);
10/9 – R$ 1 milhão (agenda);
1º/10 – R$ 500 mil (pinguim).

Juntos, esses repasses somam R$ 5 milhões. Carvalho, porém, não explicou no depoimento porque chegou a esse valor, se no jantar a quantia negociada teria sido de R$ 4 milhões. Outro delator que prestou depoimento foi Fernando Migliaccio, que também atuava no departamento de propina da Odebrecht.

Notas

Em nota , a assessoria do presidente Michel Temer disse que a declaração de Marcelo Odebrecht confirma o que o presidente vem dizendo há meses – que ele não tratou de valores das doações no jantar no Jaburu.

A defesa de José Yunes disse que ele já prestou todos os esclarecimentos ao Ministério Público e que continua à disposição da Justiça.

A Odebrecht declarou que mantém seu compromisso de colaborar com as autoridades. O PT e o PMDB repetiram o que vêm declarando ao longo desse processo: que todas as doações recebidas foram feitas dentro da legalidade e que as contas dos partidos foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.

*Por TV Globo, Brasília

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