{"id":96730,"date":"2026-07-07T08:10:48","date_gmt":"2026-07-07T11:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=96730"},"modified":"2026-07-07T08:10:49","modified_gmt":"2026-07-07T11:10:49","slug":"nao-ha-terapia-que-me-prepare-para-isso-de-novo-diz-professora-apos-alunos-colocarem-vidro-em-sua-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/nao-ha-terapia-que-me-prepare-para-isso-de-novo-diz-professora-apos-alunos-colocarem-vidro-em-sua-agua\/","title":{"rendered":"&#8216;N\u00e3o h\u00e1 terapia que me prepare para isso de novo&#8217;, diz professora ap\u00f3s alunos colocarem vidro em sua \u00e1gua"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>A situa\u00e7\u00e3o ocorreu em uma escola municipal em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, em S\u00e3o Paulo; tr\u00eas alunos foram suspensos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Blog do Eloilton Cajuhy \u2013 BEC<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaAT7tDLI8Yfj5y9Z50Z\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-luminous-vivid-orange-color\">>> Siga o canal do BEC no WhatsApp<\/mark><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Professora-Michele-Ramos-%E2%80%94-Foto-Reproducao-Redes-Sociais.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"780\" height=\"473\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Professora-Michele-Ramos-%E2%80%94-Foto-Reproducao-Redes-Sociais.jpg?resize=780%2C473&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-96731\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Professora-Michele-Ramos-%E2%80%94-Foto-Reproducao-Redes-Sociais.jpg?w=780&amp;ssl=1 780w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Professora-Michele-Ramos-%E2%80%94-Foto-Reproducao-Redes-Sociais.jpg?resize=300%2C182&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Professora-Michele-Ramos-%E2%80%94-Foto-Reproducao-Redes-Sociais.jpg?resize=768%2C466&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"(max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub>A professora Michele Ramos denunciou aluno que colocou vidro em seu copo de \u00e0gua \u2014 Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Sociais<\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Eu sou Michele Ramos, atualmente professora na rede municipal de ensino de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, S\u00e3o Paulo. Me formei em Biologia em 2010 e, a princ\u00edpio, n\u00e3o fui para a \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o. Tentei, mas n\u00e3o consegui seguir a carreira acad\u00eamica. Depois, senti um chamado, uma vontade de trabalhar com educa\u00e7\u00e3o e fazer alguma transforma\u00e7\u00e3o na sociedade. Fiz a licenciatura, prestei concurso, fui chamada e tinha uma expectativa boa. Mas nada tinha me preparado para o ambiente da sala de aula. A gente estuda um monte de coisas, mas nada te prepara para o turbilh\u00e3o que \u00e9 pegar turmas de sexto e nono anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comecei a dar aula em 2020, no ano da pandemia. Fui pegando o jeito aos trancos e barrancos enquanto enfrentava a dura realidade dessas crian\u00e7as. S\u00e3o elas as situa\u00e7\u00f5es externas que os alunos passam, a aus\u00eancia de fam\u00edlia e as dificuldades de aprendizado. Um monte de coisas que eu n\u00e3o imaginei que fosse me impactar tanto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo assim, dentro da sala, eu tento deixar um clima leve. Gosto de fazer experi\u00eancias pr\u00e1ticas, mas, \u00e0s vezes, fico receosa e acabo desistindo, porque geralmente s\u00e3o os dias em que eles ficam mais agitados. As crian\u00e7as se distraem com muita facilidade. O neg\u00f3cio deles \u00e9 a dopamina o tempo inteiro. Se voc\u00ea pede uma leitura um pouco mais longa, parece que pediu algo absurdo. Eles n\u00e3o t\u00eam paci\u00eancia com o pr\u00f3prio aprendizado, querem escolher o que fazer, n\u00e3o aceitam o m\u00e9todo tradicional, e essa revolta acaba caindo sobre mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes desse epis\u00f3dio mais grave, eu j\u00e1 tinha passado por momentos de estresse e crises de ansiedade devido \u00e0 falta de comprometimento e \u00e0 muita bagun\u00e7a. Sofri desrespeito e xingamentos de alguns estudantes e tive que ouvir coisas de familiares que eu n\u00e3o gostaria. Cheguei a sentir que n\u00e3o estava dando conta. Isso me levou a um estado de medo em que eu tive que me afastar por tr\u00eas ou quatro dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto de virada foi em 2022, s\u00f3 dois anos depois de iniciar na profiss\u00e3o. Comecei a sentir p\u00e2nico ao sair de casa. J\u00e1 estava ficando sem dormir, ruminando situa\u00e7\u00f5es de forma excessiva. N\u00e3o era s\u00f3 um dia dif\u00edcil; meu c\u00e9rebro estava sendo constantemente bombardeado. Percebi que estava em um estado de ansiedade muito alto e comecei a tomar medica\u00e7\u00f5es. Hoje, estou \u00e0 base de rem\u00e9dios. Tentei ficar sem, mas no momento s\u00f3 conseguia dar aula medicada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa turma do 8\u00ba ano onde o caso aconteceu, eu n\u00e3o avaliava como uma sala diferente ou que desse mais problemas do que outras. O embate era sobre n\u00e3o cumprirem atividades e fazerem bagun\u00e7a. Nunca havia tido um conflito a ponto de gerar humilha\u00e7\u00e3o ou algo mais grave. Da mesma forma, com os tr\u00eas meninos envolvidos, n\u00e3o havia atrito. Eu apenas cobrava as entregas. Foi uma surpresa muito grande essa atitude deles. Tem alunos que eu at\u00e9 esperaria que fizessem algo, mas desse que fez, eu n\u00e3o esperava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela aula, planejei uma atividade sobre o sistema sangu\u00edneo. Chamei cerca de seis alunos para sentarem bem na minha frente, pois eles n\u00e3o tinham entregado um trabalho h\u00e1 praticamente um m\u00eas. Eu estava dando mais uma chance para a nota deles, que estava baixa. Enquanto eles faziam a tarefa, comecei a montar um microsc\u00f3pio na minha mesa. Tirei uma gotinha de sangue e comecei a preparar a l\u00e2mina. A primeira e a segunda n\u00e3o deram certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu copo de \u00e1gua estava vazio, mas tinha uma gotinha no fundo. Usei essa \u00e1gua para limpar as l\u00e2minas de vidro que estavam emba\u00e7adas. Uma delas quebrou na minha m\u00e3o, e eu a deixei no cantinho, certa de que ningu\u00e9m ia mexer ali. Ent\u00e3o, pedi para um dos alunos ir buscar \u00e1gua para mim naquele copo. Nesse momento que eu estava focada no microsc\u00f3pio, por uns 30 segundos, perdi a vis\u00e3o da turma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois que o aluno voltou com o copo, o clima estava estranho. Come\u00e7aram a me falar: &#8216;Professora, n\u00e3o \u00e9 muito seguro voc\u00ea beber essa \u00e1gua&#8217;. Eu nem imaginei o que era. Pensei: algu\u00e9m cuspiu? Jogaram um cabelo? Quando perguntei o que tinham colocado, algu\u00e9m respondeu: &#8216;Um vidro&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntei quem tinha sido e eles n\u00e3o falaram. Peguei o copo, fui at\u00e9 a dire\u00e7\u00e3o, pedi para acessarem a c\u00e2mera e avisei que faria um boletim de ocorr\u00eancia. Quando voltei para a sala e falei isso, eles ficaram em sil\u00eancio. Nisso, comecei a refletir e a chorar. Eu chorava desesperadamente. O que eu estava fazendo ali? Por que estava passando por isso? Fiquei com um sentimento de desesperan\u00e7a e pensei: &#8216;Eu n\u00e3o dou conta, tenho que ir embora daqui.&#8217; Entrei em desespero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dez minutos depois, veio outra turma. Eu ainda estava aos prantos. Uma professora viu meu estado, avisou a diretora, que me substituiu e mandou eu beber \u00e1gua e lavar o rosto. Falei que precisava sair, ir ao m\u00e9dico, fazer o boletim de ocorr\u00eancia e abrir uma CAT (Comunica\u00e7\u00e3o de Acidente de Trabalho) devido ao colapso nervoso. Naquele momento, o estresse se configurou como um acidente de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na sa\u00edda, o menino que colocou o vidro veio falar comigo: &#8216;Professora, fui eu&#8217;. Ele tentou explicar, mas eu n\u00e3o quis conversar. Fiquei muito decepcionada porque tinha acolhido ele uma semana antes, quando ele estava mal. S\u00f3 depois fui saber toda a hist\u00f3ria: um deu a ideia, ele colocou, e outro acobertou tudo na minha frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como eles n\u00e3o t\u00eam a dimens\u00e3o de que isso foi uma viol\u00eancia, e n\u00e3o uma brincadeira, eu tive que registrar o B.O.. Eles precisam entender a consequ\u00eancia de uma tentativa de viol\u00eancia f\u00edsica. N\u00e3o imaginei que seriam presos \u2014 quando surgiu esse boato, chorei, porque a \u00faltima coisa que a gente quer \u00e9 ver um aluno preso, seria o atestado de que tudo falhou. Mas foi dif\u00edcil, tive que ter coragem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando ainda estava no hospital, senti que precisava fazer um desabafo. Fiz um v\u00eddeo que repercutiu muito. Eu estava muito mal, mas muita gente veio me apoiar. V\u00e1rios ex-alunos mandaram mensagens, e muitas escolas em outros estados fizeram manifesta\u00e7\u00f5es em apoio. Acabei virando uma porta-voz. Ouvi relatos absurdos de professores: agress\u00f5es f\u00edsicas, quedas causadas por portas batidas de prop\u00f3sito e at\u00e9 outros cinco casos de envenenamento. \u00c9 o apagamento dos professores acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s o epis\u00f3dio, a prefeitura ofereceu uma transfer\u00eancia, mas estou pensando muito. Meu maior medo \u00e9 passar mal de novo. Se eu voltar, terei que lidar novamente com a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter o controle da sala e enfrentar os mesmos gatilhos de desrespeito. Abandonar a sala de aula \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o em que vou pensar; n\u00e3o gostaria, mas preciso planejar minha sa\u00edda, pois estou com muito medo de passar por isso outra vez. Nenhuma terapia vai me preparar para aguentar tanto roj\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em todo esse processo, chama aten\u00e7\u00e3o a aus\u00eancia das fam\u00edlias. A gente faz reuni\u00e3o, e muitos n\u00e3o v\u00e3o. N\u00e3o olham cadernos, n\u00e3o buscam boletins. A falta de respaldo empodera as crian\u00e7as a nos violentarem. O que eu clamo ao poder p\u00fablico, urgentemente, \u00e9 um mapeamento dessa situa\u00e7\u00e3o. Sem dados, n\u00e3o se faz pol\u00edtica p\u00fablica. O psic\u00f3logo da escola n\u00e3o d\u00e1 conta de a\u00e7\u00f5es coletivas, est\u00e1 sobrecarregado com as trag\u00e9dias di\u00e1rias de alguns alunos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do trauma e viol\u00eancia, o que eu tiro como li\u00e7\u00e3o \u00e9 que o que faz a gente sofrer tem que ser dito. N\u00f3s, professores, estamos acostumados a relevar, a n\u00e3o denunciar, a seguir em frente em prol da miss\u00e3o, mas n\u00e3o pode ser assim. Ningu\u00e9m merece passar por esse n\u00edvel de sofrimento. E expor tudo isso ensina sobre sa\u00fade mental. Exercemos uma profiss\u00e3o que precisa ser devidamente valorizada e olhada com mais respeito. N\u00f3s cuidamos de quase o Brasil inteiro, que passou pelas nossas escolas. Mas e a gente? Quem cuida de quem cuida das nossas crian\u00e7as?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><em>*Em depoimento ao rep\u00f3rter Filipe Vidon<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A situa\u00e7\u00e3o ocorreu em uma escola municipal em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, em S\u00e3o Paulo; tr\u00eas alunos foram suspensos Blog do Eloilton Cajuhy \u2013 BEC >> Siga o canal do BEC no WhatsApp &#8220;Eu sou Michele Ramos, atualmente professora na rede municipal de ensino de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, S\u00e3o Paulo. 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