{"id":93816,"date":"2026-02-23T08:47:11","date_gmt":"2026-02-23T11:47:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=93816"},"modified":"2026-02-23T08:47:12","modified_gmt":"2026-02-23T11:47:12","slug":"feminicidio-o-fogo-do-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/feminicidio-o-fogo-do-odio\/","title":{"rendered":"Feminic\u00eddio: o fogo do \u00f3dio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Por Ricardo Viveiros*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaAT7tDLI8Yfj5y9Z50Z\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-luminous-vivid-orange-color\">>> Siga o canal do BEC no WhatsApp<\/mark><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/taxa-feminicideo.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"480\" height=\"320\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/taxa-feminicideo.jpg?resize=480%2C320\" alt=\"\" class=\"wp-image-19815\" style=\"width:645px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/taxa-feminicideo.jpg?w=480&amp;ssl=1 480w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/taxa-feminicideo.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/taxa-feminicideo.jpg?resize=250%2C167&amp;ssl=1 250w\" sizes=\"(max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>O crescimento dos feminic\u00eddios no Brasil em 2025, com quatro mulheres assassinadas por dia (MJSP), n\u00e3o pode ser compreendido apenas como resultado de conflitos individuais, falhas de seguran\u00e7a p\u00fablica ou desvios de car\u00e1ter. \u00c9 um fen\u00f4meno estrutural, enraizado em uma cultura hist\u00f3rica de rancor, controle e subalterniza\u00e7\u00e3o das mulheres, que atravessa s\u00e9culos e se atualiza por meio de discursos ideol\u00f3gicos, religiosos e pol\u00edticos. A viol\u00eancia letal contra mulheres \u00e9 o est\u00e1gio extremo de uma pedagogia social que ensina, naturaliza e legitima o dom\u00ednio masculino. Triste heran\u00e7a do passado que perdura no presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a forma\u00e7\u00e3o das sociedades patriarcais, o feminino foi sendo deslocado do lugar de pot\u00eancia para o de amea\u00e7a. O Malleus Maleficarum (Martelo das Feiticeiras), cartilha inquisitorial publicada no s\u00e9culo XV, \u00e9 um dos exemplos mais brutais dessa constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico-discursiva. Ao associar a mulher ao pecado, \u00e0 sexualidade descontrolada e ao dem\u00f4nio, o texto consolidou uma narrativa que permitiu a persegui\u00e7\u00e3o, a tortura e a morte de milhares de mulheres. A ca\u00e7a \u00e0s bruxas n\u00e3o foi um del\u00edrio coletivo, mas um projeto pol\u00edtico de disciplinamento dos corpos femininos, injusto argumento na consolida\u00e7\u00e3o do Estado moderno, do capitalismo nascente e do controle social.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa misoginia institucionalizada n\u00e3o desapareceu com o fim das fogueiras. Ela se transformou. A narrativa que antes demonizava o corpo feminino hoje se apresenta em roupagens modernas: moralismos seletivos, discursos de \u00f3dio nas redes sociais, negacionismo da viol\u00eancia de g\u00eanero e ideologias que refor\u00e7am pap\u00e9is tradicionais como se fossem naturais ou divinos. A l\u00f3gica, no entanto, segue a mesma: controlar a autonomia das mulheres, sua sexualidade, sua presen\u00e7a no espa\u00e7o p\u00fablico e sua capacidade de decis\u00e3o. Enfim, o crescente empoderamento feminino \u00e9 punido com agress\u00f5es e mortes pelos radicais, pelos fascistas, pelos covardes.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise hist\u00f3rica revela que nem sempre foi assim. Em sociedades matr\u00edsticas, como definiram Humberto Maturana e Gerda Verden-Z\u00f6ller, as mulheres ocupavam posi\u00e7\u00e3o central, associadas \u00e0 fertilidade, ao saber e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da vida comunit\u00e1ria. Eram respeitadas e cultuadas por sua import\u00e2ncia, registra a vida de grupos sociais em v\u00e1rias partes do mundo. A supremacia masculina emerge quando a for\u00e7a f\u00edsica, a guerra e a propriedade passam a estruturar as rela\u00e7\u00f5es sociais. A partir da\u00ed, o poder cultural masculino se imp\u00f5e sobre o poder biol\u00f3gico feminino, transformando a mulher em propriedade e sua sexualidade em objeto de desconfian\u00e7a e puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O patriarcado, ao longo dos s\u00e9culos, construiu uma linguagem que inferioriza o feminino e o associa \u00e0 culpa, ao descontrole e \u00e0 amea\u00e7a. Essa linguagem n\u00e3o apenas molda imagin\u00e1rios, mas orienta pr\u00e1ticas. Quando a mulher \u00e9 morta por ser mulher, o agressor age amparado por uma cultura que o ensinou a ver, desde bem jovem, o corpo feminino como posse e a viol\u00eancia como corre\u00e7\u00e3o. O feminic\u00eddio, nesse sentido, \u00e9 um crime ideol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sociedade contempor\u00e2nea, as m\u00eddias digitais amplificam esse processo. Tal como no conto O Patinho Feio (1843), de Hans Christian Andersen, a apar\u00eancia, os estere\u00f3tipos e os julgamentos sum\u00e1rios definem quem merece existir sem ser atacado. Mulheres que rompem padr\u00f5es s\u00e3o canceladas, perseguidas e silenciadas. A desumaniza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica antecede a viol\u00eancia f\u00edsica. \u00c9 comum observar homens que, de modo dissimulado, ridicularizam e inferiorizam mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Compreender o feminic\u00eddio como herdeiro de um longo processo hist\u00f3rico \u00e9 fundamental para enfrent\u00e1-lo. N\u00e3o se trata apenas de punir crimes, mas de desmontar discursos, revisar narrativas e interromper a recorr\u00eancia cotidiana do androcentrismo. Enquanto a cultura do \u00f3dio for legitimada por ideologias que exaltam a for\u00e7a, o controle e a submiss\u00e3o, as mulheres continuar\u00e3o sob risco.<\/p>\n\n\n\n<p>Romper esse ciclo exige mais do que leis: exige mem\u00f3ria, consci\u00eancia hist\u00f3rica e a coragem de confrontar as bases simb\u00f3licas do patriarcado. Educa\u00e7\u00e3o. As fogueiras da Inquisi\u00e7\u00e3o mudaram na forma, mas o fogo delas ainda queima. E s\u00f3 ser\u00e1 extinto quando a sociedade deixar de naturalizar a viol\u00eancia contra as mulheres e passar a reconhec\u00ea-las como iguais \u2013 pessoas de direito, desejo e exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-black-color\">*Ricardo Viveiros<\/mark><\/strong>, <em>jornalista, professor e escritor, \u00e9 doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura (UPM)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Viveiros* >> Siga o canal do BEC no WhatsApp O crescimento dos feminic\u00eddios no Brasil em 2025, com quatro mulheres assassinadas por dia (MJSP), n\u00e3o pode ser compreendido apenas como resultado de conflitos individuais, falhas de seguran\u00e7a p\u00fablica ou desvios de car\u00e1ter. \u00c9 um fen\u00f4meno estrutural, enraizado em uma cultura hist\u00f3rica de rancor, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":80135,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-93816","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"acf":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Violencia-escolar_racismo_professora-agressao-moral_Foto-Getty-Images.png?fit=830%2C550&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"publishpress_future_workflow_manual_trigger":{"enabledWorkflows":[]},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93816","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93816"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93816\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":93817,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93816\/revisions\/93817"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}