{"id":92846,"date":"2026-01-13T00:10:00","date_gmt":"2026-01-13T03:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=92846"},"modified":"2026-01-12T20:09:02","modified_gmt":"2026-01-12T23:09:02","slug":"a-vitoria-incompleta-contra-o-marco-temporal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/a-vitoria-incompleta-contra-o-marco-temporal\/","title":{"rendered":"A vit\u00f3ria incompleta contra o marco temporal"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>STF rejeita a tese, mas mant\u00e9m ind\u00edgenas presos a entraves nas demarca\u00e7\u00f5es, cedendo espa\u00e7o para o direito de propriedade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>*Por Renata Vieira e Deborah Duprat<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaAT7tDLI8Yfj5y9Z50Z\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-luminous-vivid-orange-color\">>> Siga o canal do BEC no WhatsApp<\/mark><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Indigenas-acompanham-votacao-no-STF-sobre-o-marco-temporal-Foto-Adriano-Machado-Reuters.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"512\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Indigenas-acompanham-votacao-no-STF-sobre-o-marco-temporal-Foto-Adriano-Machado-Reuters.jpg?resize=768%2C512&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-92847\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Indigenas-acompanham-votacao-no-STF-sobre-o-marco-temporal-Foto-Adriano-Machado-Reuters.jpg?w=768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Indigenas-acompanham-votacao-no-STF-sobre-o-marco-temporal-Foto-Adriano-Machado-Reuters.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub>Ind\u00edgenas acompanham vota\u00e7\u00e3o no STF sobre o marco temporal em agosto de 2025 &#8211; Foto: Adriano Machado\/Reuters<\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O Supremo Tribunal Federal (STF) voltou a enterrar o marco temporal, mas n\u00e3o conseguiu se livrar de seus fantasmas. Nas \u00faltimas semanas, o tema reassumiu o centro do debate em Bras\u00edlia com a aprova\u00e7\u00e3o da PEC 48\/2023 pelo Senado, na v\u00e9spera do julgamento da constitucionalidade da lei 14.701\/2023. O gesto reacendeu um pesadelo antigo dos povos ind\u00edgenas: a tentativa de submeter o reconhecimento de seus territ\u00f3rios a uma data arbitr\u00e1ria, 5 de outubro de 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao julgar a mat\u00e9ria, o STF reafirmou o que j\u00e1 deveria estar definitivamente assentado. Referendou o Tema 1.031, tese firmada pela pr\u00f3pria corte em 2023 no julgamento do RE 1.017.365, e declarou novamente a inconstitucionalidade do marco temporal, reconhecendo que os direitos origin\u00e1rios dos povos ind\u00edgenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam independem de qualquer recorte cronol\u00f3gico. Trata-se de uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica, sobretudo para povos que, desde o caso Raposa Serra do Sol, associam o marco temporal \u00e0 amea\u00e7a permanente de perda territorial.<\/p>\n\n\n\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, dura pouco. Por tr\u00e1s da rejei\u00e7\u00e3o formal da tese, o julgamento exp\u00f5e uma face oculta: um conjunto de solu\u00e7\u00f5es apresentadas como t\u00e9cnicas e equilibradas, mas que introduzem novos entraves ao exerc\u00edcio efetivo dos direitos territoriais ind\u00edgenas, afastando o marco temporal no plano discursivo enquanto reconfiguram seus efeitos na aplica\u00e7\u00e3o concreta do direito.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o surpreende que a corte tenha rejeitado o marco temporal. O problema est\u00e1 no que veio junto. Mesmo reconhecendo que os direitos territoriais ind\u00edgenas s\u00e3o direitos fundamentais e cl\u00e1usulas p\u00e9treas, o STF optou por subordin\u00e1-los a um instituto cl\u00e1ssico do direito civil: o direito de reten\u00e7\u00e3o. Pela l\u00f3gica adotada, o particular n\u00e3o ind\u00edgena pode permanecer na terra at\u00e9 receber integralmente a indeniza\u00e7\u00e3o que reivindica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Indigenas-realizam-vigilia-em-frente-ao-STF_Foto-Eric-Terena.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"432\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Indigenas-realizam-vigilia-em-frente-ao-STF_Foto-Eric-Terena.jpg?resize=768%2C432&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-92848\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Indigenas-realizam-vigilia-em-frente-ao-STF_Foto-Eric-Terena.jpg?w=768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Indigenas-realizam-vigilia-em-frente-ao-STF_Foto-Eric-Terena.jpg?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub>Ind\u00edgenas realizam vig\u00edlia em frente ao Supremo Tribunal Federal contra o marco temporal em junho de 2021 &#8211; Foto: Eric Terena<\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A invers\u00e3o \u00e9 evidente. Um mecanismo pensado para regular disputas patrimoniais privadas passa a prevalecer sobre um direito constitucional que diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia coletiva dos povos ind\u00edgenas. A terra, que para esses povos \u00e9 territ\u00f3rio de vida, mem\u00f3ria e identidade, volta a ser tratada prioritariamente como ativo econ\u00f4mico. O direito fundamental cede espa\u00e7o, mais uma vez, ao direito de propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa distor\u00e7\u00e3o se aprofunda no tratamento da indeniza\u00e7\u00e3o. No julgamento do RE 1.017.365, o STF reconheceu a possibilidade de indeniza\u00e7\u00e3o pela terra nua, mas condicionou o pagamento a procedimento separado da demarca\u00e7\u00e3o, com desocupa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o recebimento do valor incontroverso. Agora, a l\u00f3gica se inverte: quem pleiteia indeniza\u00e7\u00e3o pode permanecer na terra at\u00e9 o pagamento integral. O direito constitucional ind\u00edgena passa a depender da capacidade or\u00e7ament\u00e1ria do Estado e da disposi\u00e7\u00e3o do particular em negociar.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo racioc\u00ednio reaparece na possibilidade de &#8220;indenizar&#8221; ou &#8220;compensar&#8221; povos ind\u00edgenas quando se alega impossibilidade de demarca\u00e7\u00e3o. O que deveria ser exce\u00e7\u00e3o ganha contornos de regra. Territ\u00f3rios ancestrais tornam-se substitu\u00edveis, como se v\u00ednculos hist\u00f3ricos, culturais e espirituais pudessem ser trocados por \u00e1reas supostamente equivalentes. Al\u00e9m de violar o direito origin\u00e1rio, essa l\u00f3gica cria um desincentivo evidente \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando embaladas em discursos bem-intencionados, essas solu\u00e7\u00f5es reproduzem um imagin\u00e1rio persistente: o de povos ind\u00edgenas pobres, cujas terras precisariam ser exploradas economicamente para gerar riqueza. Trata-se de uma vis\u00e3o estreita e colonial. Riqueza e pobreza n\u00e3o s\u00e3o conceitos universais e essas terras, tal como concebidas por seus povos, s\u00e3o uma das maiores riquezas coletivas do pa\u00eds, sobretudo diante do esgotamento de um modelo de desenvolvimento predat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O julgamento da lei 14.701 revela, assim, a dificuldade do Brasil em romper com suas heran\u00e7as coloniais. O marco temporal \u00e9 afastado na letra da decis\u00e3o, mas reaparece na pr\u00e1tica por meio de novas condicionantes. Entre reconhecimentos formais e obst\u00e1culos concretos, os direitos territoriais ind\u00edgenas v\u00e3o sendo condenados \u00e0 eternidade da espera.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Artigo originalmente publicado na Folha de S. Paulo no dia 04 de janeiro<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-bff575c95b0e21a5d77772a5a44192fb\"><strong>**Renata Vieira, advogada do ISA \/ Deborah Duprat &#8211; Advogada e subprocuradora-geral da Rep\u00fablica aposentada<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>STF rejeita a tese, mas mant\u00e9m ind\u00edgenas presos a entraves nas demarca\u00e7\u00f5es, cedendo espa\u00e7o para o direito de propriedade *Por Renata Vieira e Deborah Duprat >> Siga o canal do BEC no WhatsApp O Supremo Tribunal Federal (STF) voltou a enterrar o marco temporal, mas n\u00e3o conseguiu se livrar de seus fantasmas. 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