{"id":90605,"date":"2025-10-06T14:48:13","date_gmt":"2025-10-06T17:48:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=90605"},"modified":"2025-10-06T14:48:15","modified_gmt":"2025-10-06T17:48:15","slug":"carta-a-bituca-a-demencia-nao-apaga-a-memoria-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/carta-a-bituca-a-demencia-nao-apaga-a-memoria-do-povo\/","title":{"rendered":"Carta a Bituca: a dem\u00eancia n\u00e3o apaga a mem\u00f3ria do povo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Por Luana Ferreira de Souza*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Milton-Nascimento-Foto-Carl-de-Souza-AFP.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"760\" height=\"507\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Milton-Nascimento-Foto-Carl-de-Souza-AFP.jpg?resize=760%2C507&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-90606\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Milton-Nascimento-Foto-Carl-de-Souza-AFP.jpg?w=760&amp;ssl=1 760w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Milton-Nascimento-Foto-Carl-de-Souza-AFP.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"(max-width: 760px) 100vw, 760px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub>Milton Nascimento &#8211; Foto: Carl de Souza\/AFP<\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Meu querido Milton,<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje recebi a not\u00edcia que ningu\u00e9m queria ouvir: voc\u00ea foi diagnosticado com dem\u00eancia por corpos de Lewy. O cora\u00e7\u00e3o apertou como se eu tivesse perdido um peda\u00e7o da minha pr\u00f3pria juventude. Mas preciso lhe dizer, meu camarada: nem essa doen\u00e7a, nem o esquecimento, nem o sil\u00eancio imposto pela velhice v\u00e3o apagar o que voc\u00ea fez por mim \u2013 e por milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha adolesc\u00eancia, quando o mundo parecia pesado demais, eram suas m\u00fasicas que me embalavam e me salvavam. \u201cTravessia\u201d me ensinou que seguir em frente \u00e9 poss\u00edvel mesmo quando tudo d\u00f3i. \u201cMaria Maria\u201d me deu coragem para acreditar que a luta das mulheres \u00e9 tamb\u00e9m for\u00e7a e ternura. \u201cCora\u00e7\u00e3o de Estudante\u201d me fez chorar e sonhar em cada passeata, em cada bandeira erguida. Voc\u00ea n\u00e3o foi apenas cantor da minha vida \u2013 voc\u00ea foi companheiro de trincheira contra a desesperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, meu cora\u00e7\u00e3o se revolta ao ver que voc\u00ea enfrenta uma doen\u00e7a que, no Brasil, \u00e9 tratada como invis\u00edvel. O sistema de sa\u00fade que serve \u00e0 burguesia finge n\u00e3o enxergar os idosos pobres que perdem a mem\u00f3ria nos corredores do SUS. Bituca, voc\u00ea teve em Augusto um filho amoroso que lhe pegou pela m\u00e3o e o levou numa viagem de 4 mil km, para provar que a vida ainda pulsa mesmo quando a mente vacila. Mas quantos velhinhos da nossa periferia t\u00eam um Augusto? Quantos morrem sozinhos porque n\u00e3o d\u00e3o mais lucro ao capital?<\/p>\n\n\n\n<p>Essa sua viagem, Milton, n\u00e3o foi s\u00f3 um gesto de amor \u2013 foi tamb\u00e9m um ato pol\u00edtico. Foi dizer que a velhice n\u00e3o \u00e9 descarte, que cada hist\u00f3ria repetida merece ser ouvida de novo, que dignidade n\u00e3o pode ser luxo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles podem diagnosticar \u201cdem\u00eancia\u201d, mas n\u00e3o podem arrancar da nossa mem\u00f3ria coletiva o que voc\u00ea representa. Voc\u00ea \u00e9 o homem que foi homenageado pela Portela ainda em vida, que chegou ao Grammy aos 82 anos, que nos ensinou que a m\u00fasica brasileira tem alma, ra\u00e7a e classe.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu lhe prometo, meu camarada: vou transformar cada nota sua em arma de resist\u00eancia. Cada vez que cantar \u201cCan\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica\u201d, n\u00e3o ser\u00e1 s\u00f3 nostalgia \u2013 ser\u00e1 lembran\u00e7a de que a amizade e a solidariedade s\u00e3o mais fortes que o esquecimento. Cada vez que entoar \u201cTravessia\u201d, ser\u00e1 para denunciar que o capitalismo rouba at\u00e9 a velhice digna dos nossos.<\/p>\n\n\n\n<p>Bituca, voc\u00ea pode esquecer. Mas n\u00f3s, o povo, n\u00e3o vamos deixar que o capitalismo esque\u00e7a seus crimes. Sua m\u00fasica virou nossa bandeira. Sua voz, nossa trincheira. E, at\u00e9 o fim, seguiremos lutando por um mundo onde envelhecer seja direito, n\u00e3o castigo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Com amor, l\u00e1grimas e luta,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>**Luana Ferreira de Souza<\/strong><br>Soci\u00f3loga marxista-leninista, filha da sua m\u00fasica, militante da velhice digna como direito de classe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luana Ferreira de Souza* Meu querido Milton, Hoje recebi a not\u00edcia que ningu\u00e9m queria ouvir: voc\u00ea foi diagnosticado com dem\u00eancia por corpos de Lewy. O cora\u00e7\u00e3o apertou como se eu tivesse perdido um peda\u00e7o da minha pr\u00f3pria juventude. 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