{"id":82009,"date":"2024-07-25T14:31:10","date_gmt":"2024-07-25T17:31:10","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=82009"},"modified":"2024-07-25T14:31:12","modified_gmt":"2024-07-25T17:31:12","slug":"a-morte-pode-ser-amorosa-tranquila-e-humana-as-historias-de-quem-passou-pelo-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/a-morte-pode-ser-amorosa-tranquila-e-humana-as-historias-de-quem-passou-pelo-luto\/","title":{"rendered":"&#8216;A morte pode ser amorosa, tranquila e humana&#8217;: as hist\u00f3rias de quem passou pelo luto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>O luto pode servir de gatilho para uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as de vida.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por BBC News<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-luto-pode-servir-de-gatilho-para-uma-serie-de-mudancas-de-vida-Getty-Images.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"512\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-luto-pode-servir-de-gatilho-para-uma-serie-de-mudancas-de-vida-Getty-Images.jpg?resize=768%2C512&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-82010\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-luto-pode-servir-de-gatilho-para-uma-serie-de-mudancas-de-vida-Getty-Images.jpg?w=768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/O-luto-pode-servir-de-gatilho-para-uma-serie-de-mudancas-de-vida-Getty-Images.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub>O luto pode servir de gatilho para uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as de vida &#8211; Getty Images<\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que testemunhar a morte de algu\u00e9m querido \u00e9 algo doloroso e que gera profundas mudan\u00e7as pelo resto da vida. Mas a forma como cada um reage ao luto \u00e9 bastante diferente \u2014 ainda que as pesquisas cient\u00edficas revelem um certo padr\u00e3o sobre o que acontece no c\u00e9rebro durante esse processo.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>BBC News Brasil<\/strong> conversou com tr\u00eas pessoas que experimentaram perdas significativas nos \u00faltimos anos. Como elas reagiram? O que sentiram e viveram ap\u00f3s ver algu\u00e9m t\u00e3o querido partir?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-99772014095e020e4a2137d754c1b81a\"><strong>Confira a seguir como a morte transformou a vida desses tr\u00eas indiv\u00edduos e, apesar da dor envolvida, inspirou diferentes projetos e iniciativas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8216;A MORTE DE MINHA M\u00c3E FOI UM GRANDE MOMENTO EM FAM\u00cdLIA&#8217;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga Luciana Flores Soares Reis, do Rio Grande do Sul, aceitou conversar com a BBC News Brasil menos de duas semanas depois da morte da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o dela, no entanto, essa despedida se prolongou por quase dez anos, per\u00edodo em que a m\u00e3e passou por uma s\u00e9rie de problemas de sa\u00fade relacionados ao avan\u00e7o de uma doen\u00e7a neurodegenerativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria de Lourdes, a m\u00e3e de Reis, foi jornalista, fez mestrado em Hist\u00f3ria e, aos 71 anos, se formou em Artes Pl\u00e1sticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ali\u00e1s, foi na \u00e9poca da formatura que ela come\u00e7ou a apresentar os sintomas mais evidentes da s\u00edndrome corticobasal, um quadro neurodegenerativo parecido com o Parkinson, marcado pelo decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o motora e pela perda progressiva dos movimentos do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Essa doen\u00e7a, que tem uma progress\u00e3o lenta, fez com que tiv\u00e9ssemos ao longo de dez anos uma esp\u00e9cie de luto antecipat\u00f3rio&#8221;, avalia Reis. &#8220;Aos poucos, precisamos nos despedir de algumas capacidades que minha m\u00e3e sempre teve, o que de certa maneira ajudou a lidar com o luto depois da morte dela&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No final da vida, Maria de Lourdes n\u00e3o conseguia mais falar \u2014 e apenas se comunicava por meio de um sistema de piscadas ou pela express\u00e3o do olhar. &#8220;Minha m\u00e3e sempre foi uma pessoa de poucas palavras. E sem palavras ela se foi&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o decl\u00ednio das fun\u00e7\u00f5es motoras, Maria de Lourdes passou a ter algumas dificuldades para deglutir. Nesses momentos, ela sofria com v\u00f4mitos, em que parte da comida era aspirada e gerava quadros de pneumonia. Ela precisou ser internada para lidar com essas complica\u00e7\u00f5es, mas sempre se recuperava e retornava para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Minha m\u00e3e n\u00e3o sofria um epis\u00f3dio desses h\u00e1 quatro meses. At\u00e9 que na madrugada de uma quarta-feira de junho recebi uma liga\u00e7\u00e3o&#8221;. Maria de Lourdes havia vomitado \u2014 e a equipe de sa\u00fade que a acompanhava logo iniciou os protocolos de recupera\u00e7\u00e3o, que envolvem restringir o consumo de alimentos ou l\u00edquidos, para ver se ela melhorava. &#8220;Mas desta vez ela n\u00e3o melhorou&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Come\u00e7amos a observar uma diminui\u00e7\u00e3o dos batimentos card\u00edacos e da respira\u00e7\u00e3o, o que indicava que minha m\u00e3e havia entrado na etapa final da vida, em um processo ativo de morte&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o t\u00e3o precisa s\u00f3 foi poss\u00edvel porque, ao acompanhar t\u00e3o de perto todos os percal\u00e7os de sa\u00fade de Maria de Lourdes por quase uma d\u00e9cada, Reis decidiu mergulhar de cabe\u00e7a numa \u00e1rea que s\u00f3 come\u00e7ou a ganhar mais destaque no Brasil nos \u00faltimos anos: os cuidados paliativos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Me formei em psicologia h\u00e1 34 anos e, neste momento, quase aos 60 anos de idade, provavelmente no \u00faltimo ter\u00e7o de minha vida, estou muito interessada em me tornar uma psic\u00f3loga paliativista&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Reis detalha que, por escolha pr\u00f3pria, os pais dela decidiram seguir morando sozinhos, no lar deles, em vez de ficar na casa de uma das filhas \u2014 a psic\u00f3loga tem outras duas irm\u00e3s \u2014 ou num retiro para idosos. A fam\u00edlia instalou c\u00e2meras e contratou auxiliares de enfermagem para dar apoio ao casal, especialmente para Maria de Lourdes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Quando minha m\u00e3e entrou num processo ativo de morte, t\u00ednhamos dois caminhos: intern\u00e1-la num hospital ou mant\u00ea-la em casa&#8221;, diz ela. &#8220;Como j\u00e1 hav\u00edamos conversado sobre isso com toda a fam\u00edlia, decidimos pela segunda op\u00e7\u00e3o, com todo o suporte de medica\u00e7\u00f5es e de enfermagem necess\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nada foi acelerado. Ela se foi no tempo devido&#8221;. Reis afirma que, nos dias que se seguiram depois daquela liga\u00e7\u00e3o na madrugada de uma quarta-feira de junho, os familiares foram aos poucos se mudando provisoriamente para a casa de Maria de Lourdes.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E vivemos cenas muito lindas ali, enquanto dorm\u00edamos amontoados em colch\u00f5es na sala. As tr\u00eas filhas, os quatro netos, meu pai, meu marido, todos revezamos para ficar l\u00e1&#8221;. &#8220;Foi um grande momento em fam\u00edlia, em que todos tiveram a oportunidade de conversar com a m\u00e3e e dizer a ela o que tinham vontade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;At\u00e9 uma irm\u00e3 de minha m\u00e3e, que mora em S\u00e3o Paulo, conseguiu visit\u00e1-la. Como o aeroporto est\u00e1 fechado por causa das enchentes no Rio Grande do Sul, minha prima precisou dirigir uma noite inteira para chegar em Porto Alegre&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos netos encontrou na internet as marchinhas de carnaval que Maria de Lourdes e o marido ouviram quando se conheceram pela primeira vez, quando ela tinha 15 anos. Tamb\u00e9m surgiu a ideia de pegar duas folhas em branco e fazer uma arte coletiva em fam\u00edlia, j\u00e1 que Maria de Lourdes tinha um interesse especial por essa \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Todos n\u00f3s pintamos alguma coisa para ela. At\u00e9 meu pai, que est\u00e1 com 86 anos, participou&#8221;. &#8220;Meu filho mais velho pegou a m\u00e3o da av\u00f3 e fez alguns rabiscos com ela&#8221;. O resultado final da experi\u00eancia art\u00edstica foram duas pinturas que, nas palavras de Reis, ficar\u00e3o como uma grande lembran\u00e7a para toda a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na noite de outra quarta-feira, dia 26 de junho, a respira\u00e7\u00e3o de Maria de Lourdes come\u00e7ou a ficar ainda mais devagar. &#8220;Foi como se a chama de uma vela se apagasse aos poucos&#8221;. &#8220;Minha m\u00e3e morreu em paz, embalada de muito amor e carinho, de m\u00e3os dadas com a fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Passados alguns dias da morte, a psic\u00f3loga confessa um certo estranhamento diante do que sente. &#8220;\u00c0s vezes, acho que estou bem demais para o momento que vivi&#8221;, diz, com a voz embargada. &#8220;Mas, ao mesmo tempo, foram tantos anos de despedidas que esse final amoroso me ajudou a ficar melhor do que poderia imaginar&#8221;. &#8220;L\u00f3gico que tenho momentos emotivos, mas eles s\u00e3o mais de saudade do que de tristeza&#8221;, classifica ela.<\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga pretende seguir os estudos e os projetos sobre os cuidados paliativos, para virar uma especialista nessa \u00e1rea. &#8220;Quero que outras pessoas possam ter acesso a um processo de morte t\u00e3o amoroso, tranquilo e humano quanto eu e minha fam\u00edlia pudemos vivenciar&#8221;. &#8220;Talvez a miss\u00e3o que minha m\u00e3e deixou, e eu tenho vontade de seguir, \u00e9 fomentar essa possibilidade humanizada de nos despedirmos das pessoas que amamos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8216;O LUTO ME FEZ VER AMOR ONDE O MUNDO S\u00d3 ENXERGA DOR&#8217;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Rafael Stein, de S\u00e3o Paulo, se apresenta como pai da Maria Clara e do Francisco \u2014 e afirma que a paternidade \u00e9 o que o define hoje. A hist\u00f3ria de vida dele se divide em duas partes: o antes e o depois do diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer de mama de sua esposa, Micaela.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;H\u00e1 cinco anos, Micaela faleceu depois de quase dois anos de tratamento contra um tumor bastante agressivo&#8221;, conta ele. &#8220;At\u00e9 ent\u00e3o, entendia que meu papel como homem e como pai era prover. Eu trabalhava para cumprir essa miss\u00e3o de proporcionar coisas para minha fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o diagn\u00f3stico, Stein percebeu que esses objetivos n\u00e3o seriam suficientes para lidar com o desafio que se avizinhava. &#8220;Eu tomei a decis\u00e3o de estar mais presente, para cuidar da minha esposa e dos meus filhos. Isso mudou completamente a minha vida&#8221;. &#8220;Percebi que n\u00f3s, homens, n\u00e3o somos educados para ter esse cuidado, que \u00e9 algo que as mulheres fazem normalmente, no dia a dia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Stein entende que a morte j\u00e1 deu as caras logo ap\u00f3s o diagn\u00f3stico. &#8220;Quando voc\u00ea recebe a not\u00edcia, a primeira sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a pessoa j\u00e1 est\u00e1 morrendo. Afinal, todo aquele futuro que voc\u00ea tinha planejado deixa de existir&#8221;. &#8220;N\u00f3s est\u00e1vamos prestes a completar dez anos de casamento e t\u00ednhamos o sonho de ir para Las Vegas, nos EUA, para fazer uma nova cerim\u00f4nia, com direito a cover de Elvis Presley e tudo&#8221;, lembra ele. &#8220;E essa morte antecipada n\u00e3o se limitou \u00e0 Micaela. Eu morri um pouco junto com ela, pois n\u00e3o tinha ideia de que homem eu havia me tornado a partir desse diagn\u00f3stico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Stein destaca que os dois anos de tratamento foram &#8220;doloridos&#8221;, mas permitiram construir algo novo como casal. &#8220;Nesses dois anos, passei a ficar em casa, acordar mais cedo para preparar o caf\u00e9 da manh\u00e3, colocar as crian\u00e7as para dormir, dar banho, cuidar\u2026 E hoje entendo que esses foram os dois melhores anos do nosso casamento&#8221;. &#8220;N\u00f3s criamos uma conex\u00e3o que nem sabia poss\u00edvel entre um homem e uma mulher. Isso mudou a minha defini\u00e7\u00e3o de amor&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme a doen\u00e7a progredia e o tratamento deixava de surtir resultado, a fam\u00edlia criou um espa\u00e7o para falar sobre a morte e todos os desejos e vontades de Micaela. Stein, por exemplo, pediu ao hospital que o avisasse quando a esposa fosse sedada pela \u00faltima vez, para que pudesse estar com ela nesse momento. &#8220;Cheguei para a visita e ela estava com uma alergia, pois tinha acabado de receber morfina. Eu disse que estava tudo bem, coloquei a m\u00e3o no rosto dela e a vi adormecer&#8221;. &#8220;Lembro de pensar: e agora? Como vai ser daqui em diante?&#8221;, questiona ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, a respira\u00e7\u00e3o e os batimentos card\u00edacos de Micaela diminu\u00edram, at\u00e9 pararem completamente. &#8220;Na hora em que ela morreu, me sentia anestesiado, n\u00e3o havia desespero. J\u00e1 tinha pedido ajuda a meus pais com a parte burocr\u00e1tica. Voltei para casa para pegar a roupa que ela queria usar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal tamb\u00e9m havia decidido que as crian\u00e7as n\u00e3o participariam do vel\u00f3rio. &#8220;Depois do enterro, voltei para casa sozinho e precisava dar a not\u00edcia para elas&#8221;. &#8220;Falei primeiro com a Maria, que \u00e9 a mais velha. Sentei para conversar e contei toda uma hist\u00f3ria sobre a mam\u00e3e estar no hospital, como n\u00f3s escolhemos o nome dela\u2026 Ela me perguntou: &#8216;A mam\u00e3e morreu?'&#8221;, diz ele, sobre a filha que tinha cerca de 6 anos na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu disse que sim, e come\u00e7amos a chorar. Nessa hora, combinei com ela que tudo bem chorar e, se eu sentisse saudades, iria conversar com ela. Se ela sentisse saudades, tamb\u00e9m poderia vir falar comigo&#8221;. &#8220;N\u00e3o sei quantas vezes a Maria me acolheu&#8221;. &#8220;Logo depois, a pr\u00f3pria Maria foi conversar com o Francisco, que tinha dois anos. Ela repetiu a mesma hist\u00f3ria que eu havia contado e disse que ele poderia chorar e conversar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, Stein sentiu o choque de realidade sobre o que realmente significa cuidar dos outros. &#8220;Fui para a cozinha e pensei: onde est\u00e1 a mamadeira? Que roupas eu levo para as crian\u00e7as durante uma viagem? Quantas calcinhas minha filha tem? Foi desesperador, porque precisei assumir um protagonismo que nunca foi meu. Quem cuidava da fam\u00edlia era minha esposa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucas horas depois, Stein preparou diversas coisas para o almo\u00e7o \u2014 mas as crian\u00e7as n\u00e3o comeram nada. &#8220;Eu chorei pra caramba, porque achei que n\u00e3o conseguiria alimentar meus pr\u00f3prios filhos&#8221;. Ele decidiu ent\u00e3o deixar de lado a empresa da qual era s\u00f3cio para focar exclusivamente nos cuidados da Maria e do Francisco.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E eu enfrentei muitas resist\u00eancias. A expectativa era que eu relegasse a cria\u00e7\u00e3o dos meus filhos \u00e0s av\u00f3s&#8221;. &#8220;Era como se o tempo todo a sociedade dissesse que eu n\u00e3o seria capaz de prover esses cuidados&#8221;. Stein conta que, durante o vel\u00f3rio, chegou a ouvir frases absurdas. &#8220;Umas tr\u00eas ou quatro pessoas me disseram que eu era jovem e bonito, ent\u00e3o logo arrumaria uma outra pessoa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tamb\u00e9m nota que todos os amigos se afastaram. &#8220;Eu s\u00f3 conseguia pensar e falar sobre a morte da minha esposa e os cuidados com meus filhos, e ningu\u00e9m queria conversar a respeito&#8221;. Com o passar dos dias, surgiram novos desafios. &#8220;Tinha que levar minha filha ao bal\u00e9. Mas como se faz um coque?&#8221;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O luto que senti n\u00e3o envolvia apenas a perda de minha esposa. Mas era o luto do homem que eu era, dos amigos que foram embora, do papel social que deixei de cumprir\u2026 Essas v\u00e1rias quest\u00f5es afetaram minha identidade e me fizeram questionar que homem me tornei diante de tudo isso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Stein aprendeu aos poucos todos os detalhes que envolvem o ato de cuidar de algu\u00e9m. Ele tamb\u00e9m se envolveu numa s\u00e9rie de projetos e iniciativas relacionadas ao processo de luto. Ainda durante o tratamento do c\u00e2ncer, quando a doen\u00e7a havia avan\u00e7ado, uma enfermeira sugeriu ao casal que Micaela come\u00e7asse a escrever cartas para a filha, pois n\u00e3o estaria aqui para acompanhar a adolesc\u00eancia de Maria. Surgiu assim o blog &#8220;Cartas para Maria&#8221;, em que Stein escreve e publica textos para que os filhos leiam no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tamb\u00e9m integra o projeto &#8220;Luto do Homem&#8221;, que acolhe indiv\u00edduos que perderam algu\u00e9m importante, e participou de um epis\u00f3dio da primeira temporada da s\u00e9rie Queer Eye: Brasil, dispon\u00edvel na Netflix.<\/p>\n\n\n\n<p>Passados cinco anos da morte de Micaela, Stein come\u00e7ou recentemente um novo relacionamento. Ele hoje compartilha com orgulho um epis\u00f3dio que atesta como ele desenvolveu a capacidade de cuidar. &#8220;H\u00e1 pouco tempo, minha filha \u2018virou mocinha\u2019 e menstruou pela primeira vez. Diversas mulheres queriam falar com ela sobre isso, mas eu estava preparado. Conversei com a Maria e nunca me senti t\u00e3o pai dela&#8221;. &#8220;Agora j\u00e1 entrou na rotina a necessidade de comprar absorventes ou lidar com as c\u00f3licas&#8221;, complementa ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionado sobre o que toda a experi\u00eancia dos \u00faltimos anos significou, Stein acredita que se transformou em outra pessoa. &#8220;O luto me fez ver amor onde o mundo s\u00f3 enxerga dor&#8221;. &#8220;E eu gosto muito mais do Rafael que sou hoje. Meu desejo \u00e9 que a Micaela pudesse conhecer essa minha vers\u00e3o atual. Mas ironicamente s\u00f3 me tornei isso por todo o processo que precisei enfrentar&#8221;. &#8220;Mas ela continua viva nas pessoas com quem hoje tenho contato. S\u00f3 fa\u00e7o tudo isso por causa dela&#8221;. &#8220;De certa maneira, sinto que essa tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de honrar a vida da Micaela&#8221;, conclui ele.<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8216;COLOQUEI MEU LUTO A SERVI\u00c7O P\u00daBLICO&#8217;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012, a psic\u00f3loga Claudia Petlik Fischer, de S\u00e3o Paulo, passou por uma verdadeira hist\u00f3ria de terror. &#8220;Eu estava no carro com a minha filha Ana, de quatro anos, e sofremos um acidente ao entrar em casa&#8221;, conta ela. &#8220;At\u00e9 hoje n\u00e3o sei exatamente o que aconteceu, se foi alguma falha no port\u00e3o\u2026 Mas a Ana bateu a cabe\u00e7a e teve um traumatismo craniano&#8221;. &#8220;Eu estava naquele cen\u00e1rio de horror, comecei a gritar por ajuda e fomos ao hospital, mas na hora j\u00e1 sabia que n\u00e3o tinha mais jeito&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Fischer diz que a forma como ela lidou com um epis\u00f3dio t\u00e3o terr\u00edvel foi influenciada por dois fatores. De um lado, ela come\u00e7ou a ler tudo sobre o luto, para tentar entender o que estava acontecendo com si mesma. A psic\u00f3loga tamb\u00e9m criou um grupo sobre m\u00e3es enlutadas, para que elas pudessem compartilhar experi\u00eancias de como conseguiram sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p>De outro, uma frase dita por um rabino serviu de inspira\u00e7\u00e3o para ela, que vem de fam\u00edlia judaica. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o somos religiosos, mas numa hora dessas aceitamos todo tipo de ajuda. Logo ap\u00f3s o acidente, ouvimos de um rabino que dever\u00edamos fazer coisas boas em nome da Ana&#8221;. &#8220;N\u00f3s t\u00ednhamos uma viagem marcada para Israel, onde hav\u00edamos criado contato com um centro de conviv\u00eancia \u00e1rabe-judaico-crist\u00e3, cujo objetivo \u00e9 promover atividades para crian\u00e7as e fomentar a paz&#8221;. &#8220;Resolvemos doar um valor em nome da nossa filha para custear parte da constru\u00e7\u00e3o de uma biblioteca ali&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta ao Brasil, a fam\u00edlia tamb\u00e9m entregou quase uma dezena de parquinhos adaptados para crian\u00e7as com defici\u00eancia em algumas cidades brasileiras. Por fim, Fischer e o marido criaram em meados de 2016 a ONG &#8220;Pais em Luto&#8221;, que oferece apoio psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico para fam\u00edlias de baixa renda que perderam um filho e n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de pagar por esse servi\u00e7o. Atualmente, a iniciativa atende 69 pacientes e conta com uma equipe de 53 terapeutas, 16 supervisores e oito psiquiatras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os respons\u00e1veis pela ONG entendem que \u00e9 poss\u00edvel expandir ainda mais o servi\u00e7o e buscam firmar parcerias com outros projetos \u2014 como grupos que acompanham crian\u00e7as em tratamento contra o c\u00e2ncer, por exemplo \u2014 para oferecer apoio a mais pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Durante esse tempo, eu trabalhei muito para colocar meu luto a servi\u00e7o p\u00fablico&#8221;, diz Fischer. Para ela, tudo isso s\u00f3 refor\u00e7ou a import\u00e2ncia da vida em comunidade. &#8220;No nosso processo de luto, n\u00f3s conseguimos muita ajuda, mas muito pelo fato de podermos pagar por isso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Fischer tamb\u00e9m se inspira na biografia de um av\u00f4, que sobreviveu ao Holocausto. &#8220;Sempre baseei minha vida na hist\u00f3ria dele, que me ensinou que sou capaz de sobreviver a qualquer coisa&#8221;. &#8220;Para mim, a sobreviv\u00eancia depois de um caso como o que vivi est\u00e1 muito relacionada \u00e0 interdepend\u00eancia, ao suporte social, ao apoio que recebemos&#8221;. &#8220;E espero construir pontes e ajudar outras pessoas a seguir adiante&#8221;, diz. &#8220;Afinal, ningu\u00e9m consegue passar por uma dor t\u00e3o grande se permanecer sozinho&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O luto pode servir de gatilho para uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as de vida. 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