{"id":65284,"date":"2022-05-24T19:41:58","date_gmt":"2022-05-24T22:41:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=65284"},"modified":"2022-05-24T19:42:58","modified_gmt":"2022-05-24T22:42:58","slug":"a-ultima-viagem-de-taxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/a-ultima-viagem-de-taxi\/","title":{"rendered":"A \u00faltima viagem de t\u00e1xi"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Photo_Pinterest-24052022.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Photo_Pinterest-24052022.jpg?resize=424%2C652\" alt=\"\" class=\"wp-image-65285\" width=\"424\" height=\"652\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Photo_Pinterest-24052022.jpg?w=442&amp;ssl=1 442w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Photo_Pinterest-24052022.jpg?resize=195%2C300&amp;ssl=1 195w\" sizes=\"(max-width: 424px) 100vw, 424px\" \/><\/a><figcaption><sub>Foto: Pinterest<\/sub><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>H\u00e1 vinte anos, eu ganhava a vida como motorista de t\u00e1xi. Era uma vida de cowboy pr\u00f3pria para algu\u00e9m que n\u00e3o deseja ter patr\u00e3o. O que eu n\u00e3o percebi \u00e9 que aquela vida era tamb\u00e9m um minist\u00e9rio.<br>Em face de eu dirigir no turno da noite, meu t\u00e1xi tornou-se um reposit\u00f3rio de reminisc\u00eancias ambulante, \u00e0s vezes um confession\u00e1rio. Os passageiros embarcavam e sentavam atr\u00e1s, totalmente an\u00f4nimos, e contavam epis\u00f3dios de suas vidas, suas alegrias e suas tristezas.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontrei pessoas cujas vidas surpreenderam-me, enobreceram-me, fizeram-me rir e chorar. Mas nenhuma tocou-me mais do que a de uma velhinha que eu peguei tarde da noite \u2013 era agosto. Eu havia recebido uma chamada de um pequeno pr\u00e9dio de tijolinhos, de quatro andares, em uma rua tranquila de um sub\u00farbio da cidade. Eu imaginara que iria pegar pessoas num fim de festa, ou algu\u00e9m que brigara com o amante, ou talvez um trabalhador indo para o turno da madrugada de alguma f\u00e1brica da parte industrial da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu cheguei \u00e0s 02h30 da madrugada, o pr\u00e9dio estava escuro, com exce\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica l\u00e2mpada acesa numa janela do t\u00e9rreo. Nessas circunst\u00e2ncias, muitos motoristas teriam buzinado umas duas ou tr\u00eas vezes, esperariam um minuto, ent\u00e3o iriam embora. Mas eu tinha visto in\u00fameras pessoas pobres que dependiam de t\u00e1xis, como o \u00fanico meio de transporte a tal hora. A n\u00e3o ser que a situa\u00e7\u00e3o fosse claramente perigosa, eu sempre ia at\u00e9 a porta. \u201cEste passageiro pode ser algu\u00e9m que necessita de ajuda\u201d, eu pensei. Assim fui at\u00e9 a porta e bati. \u201cUm minuto\u201d, respondeu uma voz d\u00e9bil e idosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu ouvi alguma coisa ser arrastada pelo ch\u00e3o. Depois de uma pausa longa, a porta abriu-se. Uma octogen\u00e1ria pequenina apareceu. Usava um vestido estampado e um chap\u00e9u bizarro que mais parecia uma caixa com v\u00e9u, daqueles usados pelas senhoras idosas nos filmes da d\u00e9cada de 40. Ao seu lado havia uma pequena valise de nylon. O apartamento parecia estar desabitado h\u00e1 muito tempo. Toda a mob\u00edlia estava coberta por len\u00e7\u00f3is. N\u00e3o havia rel\u00f3gios, roupas ou utens\u00edlios sobre os m\u00f3veis. Num canto, uma caixa com fotografias e vidros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 O senhor poderia por a minha mala no carro?, ela pediu. Eu peguei a mala e caminhei vagarosamente para o meio-fio. Ela ficou agradecendo minha ajuda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 nada. Eu apenas procuro tratar meus passageiros do jeito que gostaria que tratassem minha m\u00e3e, aduzi. \u2013 Oh!, voc\u00ea \u00e9 um bom rapaz!<\/p>\n\n\n\n<p>Quando embarcamos, ela deu-me o endere\u00e7o e pediu: \u2013 O senhor poderia ir pelo centro da cidade? \u2013 N\u00e3o \u00e9 o trajeto mais curto, alertei-a prontamente. \u2013 Eu n\u00e3o me importo. N\u00e3o estou com pressa, pois meu destino \u00e9 um asilo de velhos. Eu olhei pelo retrovisor. Os olhos da velhinha estavam marejados, brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o tenho mais fam\u00edlia, continuou. O m\u00e9dico diz que tenho pouco tempo. Eu, disfar\u00e7adamente, desliguei o tax\u00edmetro e perguntei: \u2013 Qual o caminho que a senhora deseja que eu tome? Nas duas horas seguintes, n\u00f3s dirigimos pela cidade. Ela mostrou-me o edif\u00edcio que havia, em certa ocasi\u00e3o, trabalhado como ascensorista. N\u00f3s passamos pelas cercanias em que ela e o esposo tinham vivido como rec\u00e9m-casados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela pediu-me que passasse em frente a um dep\u00f3sito de m\u00f3veis, que havia sido um grande sal\u00e3o de dan\u00e7a que ela frequentara quando mocinha. De vez em quando, pedia-me para dirigir vagarosamente em frente a um edif\u00edcio ou esquina. Era quando ficava ent\u00e3o com os olhos fixos na escurid\u00e3o, sem dizer nada\u2026 E olhava. Olhava e suspirava\u2026 E assim rodamos a noite inteira\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o primeiro raio de sol surgiu no horizonte, ela disse de repente: \u2013 Estou cansada\u2026 E pronta! Vamos agora! Seguimos, ent\u00e3o, em sil\u00eancio, para o endere\u00e7o que ela havia me dado. Chegamos a um pr\u00e9dio rodeado de \u00e1rvores, uma pequena casa de repouso. Dois atendentes caminharam at\u00e9 o taxi, assim que paramos. Eram am\u00e1veis e atentos e logo se acercaram da velha senhora, a quem pareciam esperar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu abri o porta-malas do carro e levei a pequena valise at\u00e9 a porta. A senhora, j\u00e1 sentada em uma cadeira de rodas, perguntou-me ent\u00e3o pelo custo da corrida. \u2013 Quanto lhe devo?, ela perguntou, pegando a bolsa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Nada!, eu disse. \u2013 Voc\u00ea tem que ganhar a vida, meu jovem. \u2013 H\u00e1 outros passageiros, respondi. Quase sem pensar, curvei-me e dei-lhe um abra\u00e7o. Ela me envolveu comovidamente e devolveu-me com um beijo afetuoso e repleto da mais pura e genu\u00edna gratid\u00e3o! E disse: \u2013 Voc\u00ea deu a esta velhinha bons momentos de alegria, como n\u00e3o tinha h\u00e1 tanto tempo\u2026 S\u00f3 Deus \u00e9 quem sabe o quanto voc\u00ea fez por mim! Obrigada, meu amigo! Mil vezes obrigada!<\/p>\n\n\n\n<p>Apertei sua m\u00e3o pela \u00faltima vez e caminhei no lusco-fusco da alvorada sem olhar para tr\u00e1s, pois as l\u00e1grimas corriam-me abundantes pela face\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s de mim uma porta foi fechada. Era o som do t\u00e9rmino de uma vida\u2026 Naquele dia n\u00e3o peguei mais passageiros. Dirigi sem rumo, perdido nos meus pensamentos. Mal podia falar. Dois dias depois, tomei coragem e voltei no asilo para ver como estava a minha mais nova amiga. Me disseram, ent\u00e3o, que na noite anterior adormecera para sempre, em paz e feliz\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>E fiquei a pensar, se a velhinha tivesse pego um motorista mal-educado e raivoso\u2026 Ou, ent\u00e3o, algum que estivesse ansioso para terminar seu turno\u2026 Oh, Deus! E se eu houvesse recusado a corrida? Ou tivesse buzinado uma vez e ido embora?\u2026 Ao relembrar, creio que eu jamais tenha feito algo mais importante na minha vida at\u00e9 ent\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, nos condicionamos a pensar que nossas vidas giram em torno de grandes momentos. Todavia, os grandes momentos frequentemente nos pegam desprevenidos e ficam guardados em recantos que quase todo mundo considera sem import\u00e2ncia\u2026 Quando nos damos conta\u2026 J\u00e1 passou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 vinte anos, eu ganhava a vida como motorista de t\u00e1xi. Era uma vida de cowboy pr\u00f3pria para algu\u00e9m que n\u00e3o deseja ter patr\u00e3o. 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