{"id":62939,"date":"2022-02-17T11:18:59","date_gmt":"2022-02-17T14:18:59","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=62939"},"modified":"2022-02-17T11:19:00","modified_gmt":"2022-02-17T14:19:00","slug":"por-que-ainda-nao-foi-criada-uma-vacina-contra-a-aids","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/por-que-ainda-nao-foi-criada-uma-vacina-contra-a-aids\/","title":{"rendered":"Por que ainda n\u00e3o foi criada uma vacina contra a AIDS?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por Jefferson Russo Victor*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jefferson-R.-Victor.jpeg\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jefferson-R.-Victor.jpeg?resize=483%2C610\" alt=\"\" class=\"wp-image-62940\" width=\"483\" height=\"610\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jefferson-R.-Victor.jpeg?resize=810%2C1024&amp;ssl=1 810w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jefferson-R.-Victor.jpeg?resize=237%2C300&amp;ssl=1 237w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jefferson-R.-Victor.jpeg?resize=768%2C971&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jefferson-R.-Victor.jpeg?resize=1215%2C1536&amp;ssl=1 1215w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jefferson-R.-Victor.jpeg?w=1266&amp;ssl=1 1266w\" sizes=\"(max-width: 483px) 100vw, 483px\" \/><\/a><figcaption><sub>Jefferson Russo Victor &#8211; Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/sub><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A pandemia, embora desacelerada, continua em curso e ainda impactando a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. As vacinas, como nunca, t\u00eam tido uma aten\u00e7\u00e3o extrema por parte da m\u00eddia e, por feliz consequ\u00eancia, tamb\u00e9m dos brasileiros, que v\u00eam buscando se informar mais a respeito do tema. Uma quest\u00e3o que surgiu nesse meio tempo \u00e9: se, em raz\u00e3o da pandemia, em todo o mundo est\u00e3o sendo desenvolvidas e produzidas vacinas a toque de caixa, por que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o foi capaz de produzir uma vacina contra a AIDS? Sendo o HIV um v\u00edrus de alta preocupa\u00e7\u00e3o h\u00e1 d\u00e9cadas, posso afirmar que n\u00e3o foi por falta de esfor\u00e7o. Por\u00e9m, o desenvolvimento de vacinas contra um v\u00edrus como o da Covid-19 n\u00e3o se compara ao desenvolvimento de uma vacina contra a AIDS.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando pensamos em desenvolver uma vacina contra um v\u00edrus como o causador da Covid-19 ou da AIDS, os primeiros passos a serem adotados se baseiam em mais de 100 anos de hist\u00f3ria e consideram como ponto inicial os experimentos de Louis Pasteur, que foi o criador do princ\u00edpio de desenvolvimento de vacinas semelhante ao que utilizamos na atualidade \u2013 que j\u00e1 se provou altamente funcional ao erradicar doen\u00e7as como a var\u00edola, por exemplo. Por outro lado, por mais desenvolvidas que sejam ou estejam as tecnologias para desenvolver vacinas, algumas caracter\u00edsticas naturais do v\u00edrus causador da doen\u00e7a, como \u00e9 o caso do HIV, podem impactar diretamente no sucesso desse desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale lembrar que em 1984, logo ap\u00f3s a descoberta do HIV, a Secretaria de Sa\u00fade dos EUA anunciou que uma vacina contra a doen\u00e7a seria desenvolvida em at\u00e9 dois anos, discurso semelhante ao que foi utilizado por diversos cientistas atuantes na \u00e1rea de desenvolvimento de vacinas quando surgiu o coronav\u00edrus causador da Covid-19, o SARS-Cov-2. Por\u00e9m, com o passar dos anos, verificou-se que o HIV possu\u00eda caracter\u00edsticas \u00fanicas que poderiam comprometer a produ\u00e7\u00e3o de uma vacina. Entre elas, foi observado que, diferentemente de outros v\u00edrus, o HIV n\u00e3o induz uma resposta imune eficiente e protetora nas pessoas que foram infectadas. Isso compromete um princ\u00edpio b\u00e1sico do desenvolvimento de vacinas que \u00e9 o de induzir uma rea\u00e7\u00e3o \u201csemelhante a uma infec\u00e7\u00e3o natural\u201d para que as pessoas fiquem protegidas.<\/p>\n\n\n\n<p>De forma totalmente in\u00e9dita, percebeu-se que uma vacina contra o HIV precisa ter como objetivo a indu\u00e7\u00e3o de uma resposta imune protetora mais intensa e eficiente do que aquela que a pr\u00f3pria infec\u00e7\u00e3o pelo HIV \u00e9 naturalmente capaz de induzir em uma pessoa. Este grau de efici\u00eancia \u00e9 algo que at\u00e9 hoje n\u00e3o foi alcan\u00e7ado com outras vacinas que, por princ\u00edpio, induzem nas pessoas uma rea\u00e7\u00e3o bem menos intensa do que seria a doen\u00e7a natural e com isso j\u00e1 s\u00e3o capazes de gerar prote\u00e7\u00e3o suficiente para evitar as formas graves e eventualmente fatais de uma doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Um segundo aspecto importante \u00e9 que o HIV naturalmente sofre muta\u00e7\u00f5es em uma frequ\u00eancia t\u00e3o alta que, tecnicamente, se torna muito dif\u00edcil definir qual ser\u00e1 o \u201cv\u00edrus alvo\u201d da vacina. Pra se ter uma ideia de compara\u00e7\u00e3o, vamos considerar o influenza, causador da gripe comum, o qual sabemos que j\u00e1 possui uma vacina que \u00e9 anualmente atualizada devido \u00e0s suas muta\u00e7\u00f5es, inclusive exigindo revacina\u00e7\u00e3o anual. Pois bem, a quantidade de muta\u00e7\u00f5es naturais a que o HIV est\u00e1 sujeito em um \u00fanico indiv\u00edduo infectado \u00e9 maior que toda a variabilidade observada no v\u00edrus influenza na popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, estes dois aspectos principais j\u00e1 tornam evidente que o desenvolvimento de uma vacina contra o HIV representa um desafio cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico em um grau de complexidade superior ao de qualquer outro v\u00edrus importante para a sa\u00fade humana, como o causador da Covid-19. Como demonstra a variedade de vacinas produzidas em curto per\u00edodo de tempo e em uso at\u00e9 o momento em todo o mundo, este v\u00edrus, especificamente, n\u00e3o tem a mesma complexidade do HIV.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, embora seja um v\u00edrus mais complexo, isso n\u00e3o significa que a ci\u00eancia j\u00e1 n\u00e3o esteja correndo atr\u00e1s h\u00e1 bastante tempo. Ao longo dos quase 40 anos de pesquisas sobre o HIV, investimentos de centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares e dedica\u00e7\u00e3o ferrenha de milhares de cientistas, embora at\u00e9 o momento n\u00e3o exista nenhuma vacina capaz de mostrar suficiente efic\u00e1cia para que seja utilizada em massa, muito trabalho foi e vem sendo realizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre diversas frentes de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, \u00e9 interessante destacar a da IAVI (International AIDS Vaccine Initiative), uma funda\u00e7\u00e3o internacional sem fins lucrativos que tem como objetivo primordial desenvolver uma vacina contra o HIV. Em fevereiro de 2021, a IAVI anunciou a realiza\u00e7\u00e3o de um teste cl\u00ednico de fase I (primeira etapa na produ\u00e7\u00e3o de uma vacina, com testes de seguran\u00e7a em humanos) de um tipo de vacina absolutamente in\u00e9dito do ponto de vista t\u00e9cnico e cient\u00edfico e que parece ter mostrado alguns dos melhores resultados observados at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vacina, que atualmente representa nossa maior chance na luta contra o HIV, est\u00e1 sendo desenvolvida com a utiliza\u00e7\u00e3o de tecnologias gen\u00e9ticas e computacionais que nunca foram utilizadas para o desenvolvimento de outras vacinas de uso em massa. De uma forma muito geral, esta nova tecnologia permite \u201cescolher\u201d raras c\u00e9lulas (estimadas em uma a cada 1 milh\u00e3o de c\u00e9lulas que produzem anticorpos) que s\u00e3o estimuladas na pessoa vacinada para que ela produza resposta imunol\u00f3gica adequada.<\/p>\n\n\n\n<p>Aparentemente, nos primeiros grupos de pessoas testadas, essa vacina parece ter finalmente induzido a produ\u00e7\u00e3o de anticorpos capazes de impedir a infec\u00e7\u00e3o pelo HIV, o que sugere que o mais alto grau de indu\u00e7\u00e3o de resposta imunol\u00f3gica protetora e poder\u00e1, portanto, tornar-se funcional contra o HIV. Por\u00e9m, outras fases de testes ainda s\u00e3o necess\u00e1rias para se confirmar essas observa\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, considerando o vasto hist\u00f3rico de estudos que tamb\u00e9m foram promissores em fases iniciais, mas chegaram a ser interrompidos por n\u00e3o terem se mostrado eficientes, cabe prud\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, \u00e9 importante que as pessoas entendam que a ci\u00eancia na \u00e1rea biol\u00f3gica nunca gera observa\u00e7\u00f5es absolutamente exatas e sempre exige tempo, s\u00f3 assim hip\u00f3teses s\u00e3o descartadas ou confirmadas indicando a utilidade das descobertas relacionadas a vacinas por exemplo. Lembrando ainda que qualquer descoberta est\u00e1 continuamente sujeita a questionamentos que permitem constantes melhorias.<\/p>\n\n\n\n<p>O conhecimento cient\u00edfico na \u00e1rea biol\u00f3gica \u00e9 muito amplo, a ponto de estimarmos que todo o conhecimento hist\u00f3rico pode se duplicar anualmente, mas \u00e9 preciso separar as coisas: HIV e SARS-Cov-2 s\u00e3o v\u00edrus completamente diferentes, e como eu disse, exigem abordagens diferentes, e estas est\u00e3o sendo feitas, incansavelmente, por milhares de cientistas do mundo todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe a n\u00f3s, portanto, torcer e atuar para que respostas, incluindo uma vacina contra o HIV, sejam alcan\u00e7adas o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Em paralelo, tamb\u00e9m podemos admirar o triunfo da ci\u00eancia, pois ela foi capaz de gerar, no per\u00edodo historicamente mais curto j\u00e1 registrado, diversas vacinas extremamente eficientes contra o v\u00edrus causador da pandemia mais grave dos \u00faltimos 100 anos, a da Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>*Jefferson Russo Victor<\/strong> \u00e9 biom\u00e9dico imunologista e professor do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro \u2013 Unisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jefferson Russo Victor* A pandemia, embora desacelerada, continua em curso e ainda impactando a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. As vacinas, como nunca, t\u00eam tido uma aten\u00e7\u00e3o extrema por parte da m\u00eddia e, por feliz consequ\u00eancia, tamb\u00e9m dos brasileiros, que v\u00eam buscando se informar mais a respeito do tema. 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