{"id":50782,"date":"2020-11-07T08:57:51","date_gmt":"2020-11-07T11:57:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=50782"},"modified":"2020-11-07T08:57:56","modified_gmt":"2020-11-07T11:57:56","slug":"todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/todo-filho-e-pai-da-morte-de-seu-pai\/","title":{"rendered":"Todo filho \u00e9 pai da morte de seu pai"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"300\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FilhoPaiIdoso.png?resize=500%2C300\" alt=\"\" class=\"wp-image-50783\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FilhoPaiIdoso.png?w=500&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FilhoPaiIdoso.png?resize=300%2C180&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um rompimento na hist\u00f3ria familiar onde as idades se acumulam e se sobrep\u00f5em e a ordem natural n\u00e3o tem sentido: \u00e9 quando o filho se torna pai de seu pai.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando o pai envelhece e come\u00e7a a trotear como se estivesse dentro de uma n\u00e9voa. Lento, devagar, impreciso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando aquele pai que segurava com for\u00e7a nossa m\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tem como se levantar sozinho. \u00c9 quando aquele pai, outrora firme e instranspon\u00edvel, enfraquece de vez e demora o dobro da respira\u00e7\u00e3o para sair de seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje s\u00f3 suspira, s\u00f3 geme, s\u00f3 procura onde \u00e9 a porta e onde \u00e9 a janela &#8211; tudo \u00e9 corredor, tudo \u00e9 longe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua pr\u00f3pria roupa e n\u00e3o lembrar\u00e1 de seus rem\u00e9dios.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00f3s, como filhos, n\u00e3o faremos outra coisa sen\u00e3o trocar de papel e aceitar que somos respons\u00e1veis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo filho \u00e9 pai da morte de seu pai. Ou, quem sabe, a velhice do pai e da m\u00e3e seja curiosamente nossa \u00faltima gravidez. Nosso \u00faltimo ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de d\u00e9cadas, de retribuir o amor com a amizade e a prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim, como mudamos a casa para atender nossos beb\u00eas, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos m\u00f3veis para criar os nossos pais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos abandon\u00e1-los em nenhum momento. Inventaremos nossos bra\u00e7os nas paredes. A casa de quem cuida dos pais tem bra\u00e7os dos filhos pelas paredes. Nossos bra\u00e7os estar\u00e3o espalhados, sob a forma de corrim\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois envelhecer \u00e9 andar de m\u00e3os dadas com os objetos. Envelhecer \u00e9 subir escada mesmo sem degraus. Seremos estranhos em nossa resid\u00eancia. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com d\u00favida e preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como n\u00e3o previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?<\/p>\n\n\n\n<p>Nos arrependeremos dos sof\u00e1s, das est\u00e1tuas e do acesso caracol. Nos arrependeremos de cada obst\u00e1culo e tapete.<\/p>\n\n\n\n<p>E feliz do filho que \u00e9 pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e n\u00e3o se despede um pouco por dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu amigo Jos\u00e9 Klein acompanhou o pai at\u00e9 seus derradeiros minutos. No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os len\u00e7\u00f3is, quando Z\u00e9 gritou de sua cadeira: &#8211; Deixa que eu ajudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Reuniu suas for\u00e7as e pegou pela primeira vez seu pai no colo. Colocou o rosto de seu pai contra seu peito. Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo c\u00e2ncer: pequeno, enrugado, fr\u00e1gil, tremendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente \u00e0 sua inf\u00e2ncia, um tempo equivalente \u00e0 sua adolesc\u00eancia, um bom tempo, um tempo intermin\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Embalou o pai de um lado para o outro. Aninhou o pai. Acalmou o pai. E apenas dizia, sussurrado: <em>&#8220;Estou aqui, estou aqui, pai!&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida\u2026 Que seu filho esteja ali.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um rompimento na hist\u00f3ria familiar onde as idades se acumulam e se sobrep\u00f5em e a ordem natural n\u00e3o tem sentido: \u00e9 quando o filho se torna pai de seu pai. \u00c9 quando o pai envelhece e come\u00e7a a trotear como se estivesse dentro de uma n\u00e9voa. 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