{"id":48565,"date":"2020-08-27T21:28:18","date_gmt":"2020-08-28T00:28:18","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=48565"},"modified":"2020-08-27T21:28:23","modified_gmt":"2020-08-28T00:28:23","slug":"o-poder-desarmado-por-heloneida-studart","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/o-poder-desarmado-por-heloneida-studart\/","title":{"rendered":"O poder desarmado &#8211; Por Heloneida Studart"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"515\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/O-combate-ao-machismo-e-%C3%A0-viol%C3%AAncia-nas-redes-sociais-mulheres-na-luta.jpg?resize=800%2C515\" alt=\"\" class=\"wp-image-48566\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/O-combate-ao-machismo-e-%C3%A0-viol%C3%AAncia-nas-redes-sociais-mulheres-na-luta.jpg?w=932&amp;ssl=1 932w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/O-combate-ao-machismo-e-%C3%A0-viol%C3%AAncia-nas-redes-sociais-mulheres-na-luta.jpg?resize=300%2C193&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/O-combate-ao-machismo-e-%C3%A0-viol%C3%AAncia-nas-redes-sociais-mulheres-na-luta.jpg?resize=768%2C494&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. Vinham da vizinhan\u00e7a, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tran\u00e7as. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de n\u00e3o ser mais virgem e os irm\u00e3os a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o m\u00e9dico da fam\u00edlia lhe enfiasse a m\u00e3o enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou n\u00e3o o selo da honra. Como o lacre continuava l\u00e1, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi \u00e0 janela, nunca mais dan\u00e7ou nos bailes e acabou fugindo para o Piau\u00ed, ningu\u00e9m sabe como, nem com quem.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria L\u00facia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa, para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, n\u00e3o conseguiu passar no exame ginecol\u00f3gico. O laudo m\u00e9dico registrou vest\u00edgios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformat\u00f3rio Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente, esqueceu morrendo tuberculosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes epis\u00f3dios marcaram para sempre a minha consci\u00eancia e me fizeram perguntar que poder \u00e9 esse que a fam\u00edlia e os homens t\u00eam sobre o corpo das mulheres? Ontem, para mutilar, amorda\u00e7ar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estere\u00f3tipos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos vimos, na televis\u00e3o, modelos torturados por seguidas cirurgias pl\u00e1sticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as n\u00e1degas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba. Substitu\u00edram os narizes, desviaram costas, mudaram o tra\u00e7ado do dorso para se adaptarem \u00e0 moda do momento e ficarem irresist\u00edveis diante dos homens. E, com isso, Barbies de fancaria, provocaram em muitas outras mulheres &#8211; as baixinhas, as gordas, as de \u00f3culos &#8211; um sentimento de perda de autoestima.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universit\u00e1rios (56%) \u00e9 composta de mo\u00e7as. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa cient\u00edfica, na pol\u00edtica, no jornalismo. E, no momento em que as pioneiras do feminismo passam a defender a teoria de que \u00e9 preciso feminilizar o mundo e torn\u00e1-lo mais distante da barb\u00e1rie mercantilista e mais pr\u00f3ximo do humanismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mim, acho que s\u00f3 as mulheres podem desarmar a sociedade. At\u00e9 porque elas s\u00e3o desarmadas pela pr\u00f3pria natureza. Nascem sem p\u00eanis, sem poder f\u00e1lico da penetra\u00e7\u00e3o e do estupro, t\u00e3o bem representado por pistolas, rev\u00f3lveres, flechas, espadas e punhais. Ningu\u00e9m diz, de uma mulher, que ela \u00e9 de espadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m lhe d\u00e1, na primeira inf\u00e2ncia, um fuzil de pl\u00e1stico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e viol\u00eancia. As mulheres detestam o sangue, at\u00e9 mesmo porque t\u00eam que derram\u00e1-lo na menstrua\u00e7\u00e3o ou no parto. Odeiam as guerras, os ex\u00e9rcitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua conviv\u00eancia e os colocam na marginalidade, na inseguran\u00e7a e na viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso voltar os olhos para a popula\u00e7\u00e3o feminina como a grande articuladora da paz. E para come\u00e7ar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito \u00e0s suas pernas que t\u00eam varizes porque carregam latas d&#8217;\u00e1gua e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o pa\u00eds nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o as mulheres que ir\u00e3o impor um adeus \u00e0s armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a do\u00e7ura de seus cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem toda feiticeira \u00e9 corcunda. Nem toda brasileira \u00e9 s\u00f3 bunda. <em>(Texto Publicado no Jornal do Brasil em 2001)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>*Heloneida Studart nasceu em Fortaleza, CE, em 25 de abril de 1932. Foi escritora, ensa\u00edsta, teatr\u00f3loga, jornalista, defensora dos direitos das mulheres e pol\u00edtica brasileira, de acordo com a enciclop\u00e9dia Wikip\u00e9dia. Ela foi seis vezes deputada estadual do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Morreu no Rio de Janeiro, em 03 de dezembro de 2007.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor. 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