{"id":37380,"date":"2019-09-15T21:21:41","date_gmt":"2019-09-16T00:21:41","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=37380"},"modified":"2019-09-15T21:21:47","modified_gmt":"2019-09-16T00:21:47","slug":"reflexao-a-gente-se-acostuma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/reflexao-a-gente-se-acostuma\/","title":{"rendered":"Reflex\u00e3o: A gente se acostuma"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Marina Colassanti<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Reflex%C3%A3o_0705.jpg?resize=479%2C319\" alt=\"\" class=\"wp-image-35730\" width=\"479\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Reflex%C3%A3o_0705.jpg?w=638&amp;ssl=1 638w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Reflex%C3%A3o_0705.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Reflex%C3%A3o_0705.jpg?resize=250%2C167&amp;ssl=1 250w\" sizes=\"(max-width: 479px) 100vw, 479px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Eu sei que a gente se acostuma. Mas n\u00e3o devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e n\u00e3o ver vista que n\u00e3o sejam as janelas ao redor. E porque n\u00e3o tem vista, logo se acostuma a n\u00e3o olhar para fora. E porque n\u00e3o olha para fora, logo se acostuma e n\u00e3o abrir de todo as cortinas. E porque n\u00e3o abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, \u00e0 medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque est\u00e1 na hora. A tomar caf\u00e9 correndo porque est\u00e1 atrasado. A comer sandu\u00edche porque n\u00e3o d\u00e1 para almo\u00e7ar. A sair do trabalho porque j\u00e1 \u00e9 noite. A cochilar no \u00f4nibus porque est\u00e1 cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: \u201choje n\u00e3o posso ir\u201d. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto. <\/p>\n\n\n\n<p>A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar\u00e1 mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. <\/p>\n\n\n\n<p>A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televis\u00e3o e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lan\u00e7ado na infind\u00e1vel catarata dos produtos.  <br>\nA gente se acostuma \u00e0 polui\u00e7\u00e3o, \u00e0s salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. \u00c0 luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam \u00e0 luz natural. \u00c0s bact\u00e9rias de \u00e1gua pot\u00e1vel. \u00c0 contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do mar. \u00c0 morte lenta dos rios. <\/p>\n\n\n\n<p>Se acostuma a n\u00e3o ouvir passarinhos, a n\u00e3o ter galo de madrugada, a n\u00e3o colher fruta no p\u00e9, a n\u00e3o ter sequer uma planta por perto. <\/p>\n\n\n\n<p>A gente se acostuma a coisas demais para n\u00e3o sofrer. Em doses pequenas, tentando n\u00e3o perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o trabalho est\u00e1 duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana n\u00e3o h\u00e1 muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente se acostuma a n\u00e3o falar na aspereza para preservar a pele. Acostuma-se para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.<\/p>\n\n\n\n<p>A gente se acostuma para poupar a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marina Colassanti Eu sei que a gente se acostuma. Mas n\u00e3o devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e n\u00e3o ver vista que n\u00e3o sejam as janelas ao redor. E porque n\u00e3o tem vista, logo se acostuma a n\u00e3o olhar para fora. 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