{"id":23336,"date":"2018-02-21T20:20:24","date_gmt":"2018-02-21T23:20:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/?p=23336"},"modified":"2018-02-21T20:23:25","modified_gmt":"2018-02-21T23:23:25","slug":"liguei-para-a-minha-mae-que-e-domestica-e-disse-que-queria-desistir-quem-e-a-aluna-cujo-discurso-de-formatura-viralizou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/liguei-para-a-minha-mae-que-e-domestica-e-disse-que-queria-desistir-quem-e-a-aluna-cujo-discurso-de-formatura-viralizou\/","title":{"rendered":"\u201cLiguei para a minha m\u00e3e, que \u00e9 dom\u00e9stica, e disse que queria desistir\u201d: quem \u00e9 a aluna cujo discurso de formatura viralizou"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_23337\" aria-describedby=\"caption-attachment-23337\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/michele-alves-600x600.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-23337 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/michele-alves-600x600.jpg?resize=600%2C600\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/michele-alves-600x600.jpg?resize=600%2C600&amp;ssl=1 600w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/michele-alves-600x600.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/michele-alves-600x600.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/michele-alves-600x600.jpg?resize=250%2C250&amp;ssl=1 250w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/michele-alves-600x600.jpg?resize=48%2C48&amp;ssl=1 48w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23337\" class=\"wp-caption-text\">Michele Alves<\/figcaption><\/figure>\n<p>Diante de um audit\u00f3rio lotado no Citibank Hall, gigantesca casa de shows da capital paulista, uma aluna de uma das gradua\u00e7\u00f5es mais tradicionais do pa\u00eds toma o microfone para um discurso duro. \u201c<em>Gostaria de falar sobre resist\u00eancia. De uma em espec\u00edfico, a que uma parcela dos formandos enfrentaram durante sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Ela falava em nome dos alunos bolsistas do curso de direito da PUC-SP, em que as mensalidades s\u00e3o de 3.130 reais. \u201c<em>Somos moradores de periferia, pretos, descendentes de nordestinos e estudantes de escola p\u00fablica<\/em>\u201d, enumerou. Descrevendo uma experi\u00eancia de solid\u00e3o e preconceito, a oradora apontava as dificuldades do conv\u00edvio com alunos e professores de uma outra classe social:<\/p>\n<p>\u201c<em>Resistimos \u00e0s piadas sobre pobres, \u00e0s cr\u00edticas sobre as esmolas que o governo nos d\u00e1. \u00c0 falta de ingl\u00eas fluente, de roupa social e linguajar rebuscado. Resistimos aos desabafos dos colegas sobre suas empregadas dom\u00e9sticas e seus porteiros. Mal sabiam que esses profissionais eram, na verdade, nossos pais<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>Migrante e filha da escola p\u00fablica<\/strong><\/p>\n<p>A fala, aplaudida de p\u00e9, viralizou em \u00e1udio e v\u00eddeo nas redes sociais. NOVA ESCOLA conversou com exclusividade com a autora do discurso. Seu nome \u00e9 <strong>Michele Maria Batista Alves<\/strong>, de 23 anos. Natural de Maca\u00fabas, cidade de 50 mil habitantes no centro-sul baiano, ela \u00e9 uma dos milhares de estudantes de classe popular que chegaram \u00e0 faculdade a partir da cria\u00e7\u00e3o do Programa Universidade para Todos (ProUni), em 2004. \u00c9 tamb\u00e9m um exemplo das dificuldades dessa trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Filha de m\u00e3e solteira, criada com a ajuda do av\u00f4, Michele veio para S\u00e3o Paulo aos 12 anos, para tratar de uma depress\u00e3o. Sua fam\u00edlia se estabeleceu numa casa alugada em Itapevi, cidade da Grande S\u00e3o Paulo onde mora at\u00e9 hoje, e de onde leva duas horas para ir e voltar ao centro da capital. A inten\u00e7\u00e3o inicial era regressar \u00e0 Bahia, mas dois anos depois a descoberta de um tumor no pesco\u00e7o adiou indefinidamente os planos. \u201c<em>Hoje estou curad\u00edssima, mas por causa da doen\u00e7a fomos ficando. Minha m\u00e3e trabalhava de dom\u00e9stica e eu comecei a ajudar no Ensino M\u00e9dio como monitora numa escola infantil<\/em>\u201d, conta.<\/p>\n<p>Sua hist\u00f3ria na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica foi toda em escola p\u00fablica. \u201c<em>Estudei numa escola estadual perto de casa. Tive professores bons, mas a estrutura dificultava. Faltava \u00e1gua sempre, n\u00e3o tinha como ir ao banheiro, as classes eram lotadas e havia brigas. Eu sentia o quanto era dif\u00edcil lecionar ali<\/em>\u201d, lembra ela, que diz nunca ter tido uma aula de Qu\u00edmica \u2013 a professora s\u00f3 existia no papel, mas nunca apareceu. \u201c<em>Por tudo isso, acho muito dif\u00edcil um aluno de escola p\u00fablica entrar direto na faculdade<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cPercebi que era pobre\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ela pr\u00f3pria teve de fazer cursinho. Duas vezes, a primeira delas num comunit\u00e1rio. \u201c<em>Foi uma experi\u00eancia fundamental<\/em>\u201d, conta. \u201c<em>Tive v\u00e1rios professores de origem popular que me mostraram a diferen\u00e7a entre classes. Era a primeira vez que eu me reconhecia como pobre<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A segunda foi no ingresso na PUC-SP. \u201c<em>N\u00e3o tinha ningu\u00e9m do meu c\u00edrculo social. N\u00e3o tinha recep\u00e7\u00e3o para bolsistas<\/em>\u201d, diz. No primeiro dia, uma menina contava animadamente sobre a viagem de f\u00e9rias \u00e0 Europa. No terceiro, uma professora fez um coment\u00e1rio sobre m\u00e9todos de estudos que deveriam ser evitados porque at\u00e9 a filha da empregada dela estudava assim. O impacto virou trecho do discurso:<\/p>\n<p>\u201c<em>Naquele dia, soube que a faculdade n\u00e3o era para mim. Liguei para a minha m\u00e3e, que \u00e9 dom\u00e9stica, e disse que queria desistir. Ela me fez enxergar o quanto precisava resistir \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o e mostrar o quanto eu era capaz de obter aquele diploma<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>Espelho da realidade<\/strong><\/p>\n<p>Professores da PUC confirmam a situa\u00e7\u00e3o narrada por Michele. \u201c<em>Ouvi de alguns bolsistas que a maior dificuldade n\u00e3o era preencher as lacunas de forma\u00e7\u00e3o, mas conviver com a discrimina\u00e7\u00e3o por parte de colegas<\/em>\u201d, diz Leonardo Sakamoto, professor do curso de jornalismo. \u201c<em>Se a PUC tivesse mais estudantes como eles, faria mais diferen\u00e7a do que faz hoje. Alguns dos meus melhores alunos foram bolsistas<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>\u201c<em>Os alunos benefici\u00e1rios de bolsas s\u00e3o os mais dedicados, pois v\u00eaem no diploma da PUC a \u00fanica chance de fugir de um destino cruel, previamente estabelecido<\/em>\u201d, confirma Adalton Diniz, professor do curso de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, que compara sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria com o cen\u00e1rio atual. \u201c<em>Nasci no Jardim S\u00e3o Luiz, na periferia de S\u00e3o Paulo, fui oper\u00e1rio metal\u00fargico e filho de uma dona de casa e um trabalhador que apenas completou o ensino prim\u00e1rio. Estudei na PUC nos anos 1980 e n\u00e3o me recordo de ter enfrentado, de modo significativo, resist\u00eancia, preconceito e hostilidade. Creio que a sociedade brasileira era mais generosa na \u00e9poca<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Michele Alves seguiu em frente, mas n\u00e3o sem dificuldades. Passou os seis primeiros meses sem falar com ningu\u00e9m. \u201c<em>Tamb\u00e9m por minha conta, porque antes eu era mais radical, mais intolerante. Acho que a gente tem de ser radical, mas n\u00e3o radical cego. Isso eu s\u00f3 aprendi depois, ao perceber como as pessoas me enxergavam e como eu poderia me aproximar delas. Aos poucos, fui criando m\u00e9todos para dialogar com quem era diferente de mim. Ficar sem falar \u00e9 muito ruim<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>Choro, apreens\u00e3o \u2013 e aplausos<\/strong><\/p>\n<p>O epis\u00f3dio do discurso nasceu dessa esp\u00e9cie de di\u00e1logo radical. Com colegas, Michele fundou um grupo para discutir a situa\u00e7\u00e3o dos bolsistas na PUC. A formatura se tornou uma pauta importante, porque o custo da cola\u00e7\u00e3o de grau e do baile \u2013 na casa dos 6 mil reais \u2013 era proibitivo. Uma negocia\u00e7\u00e3o com a comiss\u00e3o do evento garantiu quatro ingressos para cada bolsista e o direito do grupo a ter um orador.<\/p>\n<p>Michele foi a escolhida. \u201c<em>Fiz o texto numa \u00fanica noite. Chorei muito. \u00c9 um relato carregado de hist\u00f3rias n\u00e3o s\u00f3 minhas, mas de todos os bolsistas, que eu revivia conforme ia escrevendo. Ensaiei 12 vezes e s\u00f3 na \u00faltima consegui ler sem chorar<\/em>\u201d, conta.<\/p>\n<p>Chegou o 15 de fevereiro, data da cola\u00e7\u00e3o, e Michele aguardava sua vez de subir ao palco. O orador oficial fez um discurso leve, contando \u2018causos\u2019 do curso e arrancando risadas da plateia. Michele gelou. \u201c<em>Pensei: \u2018e agora, como vai ser? Vou vir com um tapa na cara, agressivo, n\u00e3o sei como v\u00e3o reagir<\/em>\u2019\u201d. De cima do palco, tentou procurar a fam\u00edlia \u2013 cunhado, uma amiga do Chile, tr\u00eas colegas de trabalho e a m\u00e3e, aniversariante da noite. N\u00e3o viu ningu\u00e9m. Leu tudo de um f\u00f4lego s\u00f3.<\/p>\n<p>Ao terminar, ainda meio atordoada, correu de volta para seu assento. \u201c<em>Achei estranho meus colegas se levantando. Depois entendi. Estavam me aplaudindo<\/em>\u201d, diz ela, contente tamb\u00e9m com a repercuss\u00e3o de sua fala nas redes sociais. \u201c<em>\u00c9 uma vit\u00f3ria saber que minha reflex\u00e3o est\u00e1 chegando a lugares que antes n\u00e3o debatiam esse assunto. Quem sabe cause algum impacto na vida dos bolsistas que vir\u00e3o depois de mim<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>Veja e ou\u00e7a o discurso de Michele<\/strong><\/p>\n<p>https:\/\/youtu.be\/EDxbGafLo3I<\/p>\n<p><em><strong>*Nova Escola e DCM<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante de um audit\u00f3rio lotado no Citibank Hall, gigantesca casa de shows da capital paulista, uma aluna de uma das gradua\u00e7\u00f5es mais tradicionais do pa\u00eds toma o microfone para um discurso duro. \u201cGostaria de falar sobre resist\u00eancia. De uma em espec\u00edfico, a que uma parcela dos formandos enfrentaram durante sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica\u201d. Ela falava em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":23337,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[14,1],"tags":[],"class_list":["post-23336","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-noticias"],"acf":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/michele-alves-600x600.jpg?fit=600%2C600&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"publishpress_future_workflow_manual_trigger":{"enabledWorkflows":[]},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23336","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23336"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23336\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23339,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23336\/revisions\/23339"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23337"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23336"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23336"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogdoeloiltoncajuhy.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23336"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}