Sensibilidade e respeito é tudo

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*Por Ana Paula Messias

Quando os cadáveres são levados à necropsia, chegam com as roupas com as quais morrem e é trabalho do especialista despi-lo para iniciar a necropsia. Muitas vezes, os falecidos chegam com as expressões faciais que tiveram no último momento (medo, tranquilidade, raiva, tristeza) até às vezes com lágrimas nos olhos.

Os médicos legistas nos dão uma explicação científica conforme exigido pelo seu trabalho, mas, a partir de experiências pessoais, eu tive que combinar as minhas crenças científicas.

Lembro de um caso que estava sob investigação, e um corpo de um professor foi encontrado. Ele havia sido sequestrado, assassinado e enterrado há três semanas em um lugar distante. Quando ele foi exumado, ainda estava com seu uniforme escolar e estava em uma posição fetal. Seu rosto refletia uma profunda tristeza.

Para o trabalho de despir sem cortar as roupas (a roupa é conservada para análise) foi praticamente impossível para os especialistas, dada a rigidez cadavérica. Foi quando o médico chegou e disse:

-Vou lhe dizer como é o caminho certo… Todos nós pensamos que ele iria nos dar uma solução técnica, científica, médica ou profissional, mas foi uma surpresa!

Ele começou a falar com o cadáver enquanto o despia:

“Você está aqui, amigo. Sua família já encontrou você. Você não vai mais ficar sozinho. Tudo o que eles querem é enterrar você para que você possa estar em paz. Olha, eles nunca pararam de te procurar. Ajude-me a terminar rápido para você ir com sua família”.

Bem, enquanto isso, ele nos fez ficar arrepiados, quando vimos que o cadáver, que havia sido enterrado por 3 semanas, começou a se soltar de modo que despi-lo ficou muito fácil. O deixamos em uma posição como se ele estivesse deitado de costas e seu rosto mudou, ele parecia calmo.

Esta dica é usada por bons médicos que, apesar de viverem com a morte todos os dias, não perderam a sensibilidade de saber que diante deles tem uma pessoa que é pai, filho, marido e deve ser tratada com respeito e dignidade. Até os mortos merecem ser bem tratados!

*Ana Paula Messias – Jundiaí – SP
Técnica em Enfermagem do Hospital da Criança

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