Opinião: A demissão de Sergio Moro e o Governo Bolsonaro

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*Rodrigo Augusto Prando

Há mais de um ano, escrevi, no início do Governo Bolsonaro, que havia dois pilares principais a lhe dar sustentação: Sergio Moro simbolizando o combate à corrupção e a força da Lava Jato e Paulo Guedes no âmbito do liberalismo econômico. Na última sexta-feira (24), um desses alicerces ruiu, com o pedido de demissão de Moro. Doutro lado, há sinais evidentes de desgastes nas ideias e ações de Guedes.

Há quem diga que Moro saiu atirando. Não foram tiros. Política e simbolicamente, foi disparado um míssil teleguiado na direção da presidência da república. O ex-juíz e, hoje, ex-ministro, lembrou de sua entrada no governo com o compromisso de focar ações no combate à corrupção, ao crime organizado e ao crime violento. Mais do que isso, Moro destacou que, segundo as conversas com Bolsonaro, gozaria de carta branca para nomear e fazer a gestão de sua equipe. Não foi assim, como bem sabemos.

Se, na sexta, houve a ruptura, o desgaste vinha há tempos, com Bolsonaro desautorizando Moro em várias ocasiões. Além disso, as pesquisas indicaram que o capital político de Moro era (e deve ser mais agora) maior que o do próprio presidente. Assim, com vistas à reeleição em 2022, Bolsonaro e os bolsonaristas já temiam ter em Moro um fortíssimo adversário.

Na lógica bolsonarista, o “presidencialismo de coalizão” foi substituído pelo presidencialismo de confrontação. Para manter seus apoiadores, nas redes e nas ruas, o bolsonarismo confrontou inimigos reais e imaginários, internos e externos, no campo oposto do espectro político e, também, até os próprios aliados e, ainda, ataques cotidianos à imprensa.

Convocação para atos contra o STF e o Congresso Nacional, divulgação de fake news, ataques ao Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, tudo isso, junto, agora, voltará para aqueles que dispararam. Investigações no STF sobre as fake news e sobre os atos contra Congresso e STF começaram a desvendar a rede de financiadores e parte da autoria intelectual destas ações.

Temendo um processo de impeachment, cujos pedidos já se encontram de posse de Maia, Bolsonaro resolveu conquistar apoio parlamentar. E onde? Justamente, no Centrão, com figuras como, por exemplo, Roberto Jéferson. É patente que o discurso bolsonarista não se sustenta na prática que, antes, condenou. Negociar cargos para obter apoio político e, pior, querer mexer na estrutura da Polícia Federal foi, para Moro, o ato final de uma relação há tempos insustentável.

O pronunciamento de Moro foi duríssimo. Jogou, para o presidente, segundo juristas, cerca de sete crimes: crime de responsabilidade, falsidade ideológica, prevaricação, coação, corrupção, advocacia administrativa e obstrução da justiça. Pedidos de renúncia e de impeachment se avolumam.

Qual a base de defesa do governo, hoje? Em pronunciamento, também na sexta-feira, Bolsonaro se defendeu e num discurso bem desconexo, atacou, como era de se esperar, o ex-ministro Sergio Moro. Moro já respondeu, especialmente, rechaçando que havia pedido para trocar Valeixo, da direção da PF, só em novembro depois que fosse indicado para uma vaga no STF. O discurso e argumentação do Presidente Bolsonaro é frágil e, rememoremos, Moro teve embate com Lula, uma das maiores expressões políticas do Brasil, levando o petista à condenação e prisão.

Os atores políticos, no Congresso Nacional, e fora dele; lideranças no bojo da sociedade e os formadores de opinião, já começam a questionar se, com a pandemia, seria melhor ou não iniciar um processo de impeachment. A resposta está no entendimento se a presença de Bolsonaro é um fator de liderança e segurança ou de tensão e insegurança política com graves consequências ao país.

*Rodrigo Augusto Prando é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp.

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